30.9.13

A Capitalista, essa incompreendida

Passei por uma lotérica que tinha o multicurioso nome "A Capitalista".

Achei o nome curioso porque:

1) Capitalista é considerado um palavrão na sociedade atual, um ser de características inumanas e, portanto, não merecedor de qualquer consideração da parte de um cidadão de bem (de forma similar ao que acontecia à palavra "comunista' há algumas décadas). Alguém usar tal ofensa como nome para a sua loja pode soar como algo ultrajante.

2) Apesar de ser um substantivo comum de dois gêneros (ou seja, capitalista pode ser o ou a capitalista, tanto faz), no imaginário popular a palavra é ligada a uma figura masculina muito específica e caricata, o homem rico segurando o saco de dinheiro do Monopoly. Alguém usar tal nomenclatura no feminino pode soar como algo ultrajante.

As duas observações acima, que poderiam facilmente ser confirmadas pelo senso comum, não são realmente impróprias. Mas o que é realmente curioso e contraditório é:

3) Uma lotérica é possivelmente uma das atividades menos capitalistas que alguém poderia imaginar!

Os jogos de apostas e os pagamentos de heranças são as trocas de quantias monetárias menos capitalistas do mundo atual. Elas supõem o recebimento de dinheiro (pelo herdeiro, no caso da herança; pela banca ou pelo jogador, no caso da aposta) por pessoas que não o estão trocando em igual valor por tempo, mão-de-obra ou atividade intelectual.

É, portanto, uma troca sem valor real, sem merecimento, em que as decisões são baseadas na sorte e nos laços sangüíneos, e não na capacidade e no talento.

As lotéricas são templos do engodo em que vivemos, da promessa de riqueza em cada esquina, sem merecimento, sem esforço, em que o acaso ou a providência divida lutarão contra todas as probabilidades para escolher um felizardo que será salvo da miséria coletiva em que todos os outros afundam cada vez mais ao apostar.

Todos nós desiludidos com a vida e iludidos com a esperança continuamos a apostar, talvez como uma última forma de resistência tola antes de desistir completamente.

Mas não a capitalista. Não essa mulher que tem a consciência do valor de suas ações, mesmo que (ainda) não tenha alcançado riqueza material. A capitalista provavelmente se revoltaria contra esse templo que leva o seu nome, tal qual Jesus expulsando os fariseus, e deixaria apenas um único mandamento:

Façam por merecer.