2.7.13

Viver produzindo menos é possível

O telejornal anuncia com tom alarmista que a indústria brasileira produziu menos em maio. Uma queda maior do que esperavam os especialistas, diz o âncora franzindo a testa.

Isso é realmente motivo de preocupação? Que tipo de indústria é essa que causou a queda? Duas das indústrias apontadas são a automobilística e a alimentícia. Sua queda de produção me alegra. Vamos aos motivos.

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Todo mundo sabe que o Brasil fabrica carro demais. Por um preço alto demais também, mas isso é outra história. Mesmo assim, todo dia tem (muita) gente comprando carro.

Carro hoje em dia pode até ser solução no individual (e talvez nem isso seja mais; vejam os engarrafamentos corriqueiros), mas certamente é um problema no coletivo.

Nosso modelo de trânsito baseado no veículo de passeio atingiu um patamar desesperador, que iniciou as recentes manifestações contra o sucateamento do transporte público e a falta de planejamento do transporte urbano.

Incentivo à produção de carro é algo ultrapassado e nocivo para nossa sociedade.

Mas a indústria automobilística emprega muita gente. Queda de produção liga o alerta amarelo no governo, que fica com medo dos industriais demitirem em massa e despejarem na rua trabalhadores pouco qualificados (por conta do desenvolvimento apenas das habilidades específicas do seu ofício atual), que aumentarão as estatísticas de desemprego.

Então tome incentivo de dinheiro público pra indústria automobilística, e milionária publicidade apelativa criando desejos patologicamente desnecessários, e gente se endividando pra comprar um objeto supérfluo, e dinheiro mudando de mão e mantendo a roda comercial girando, e juros comendo o dinheiro de quem tem pouco só pra encher a barriga de quem já tem muito, e empregados com poucas perspectivas de futuro mantendo seu emprego, e salve o governo que gerou isso tudo!

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Outra produção que caiu foi a da indústria alimentícia.

Vejam bem, não foi a uma queda na produção de alimentos. Foi na indústria alimentícia.

Com a inflação, a mesma grana enche menos o carrinho de supermercado. Como ninguém deixa de comer (pelo menos por opção), a solução é trocar os caros produtos industrializados (o consumidor paga pela praticidade, embalagem moderninha, lucro do fabricante e custeio de toda a cadeia de intermediários) por opções mais baratas (como os ingredientes para preparar o mesmo produto).

Alimento de verdade preparado em casa, não a mercadoria pronta para consumo. Grande afronta.

O especialista explica, também em tom alarmista, que a pessoa deixa de comprar a lasanha pronta para comprar a massa da lasanha para preparo em casa ou, "no pior dos casos"(sic - se não acredita, veja aqui), a farinha para fazer a massa em casa.

Como geralmente o preparo de alimentos inviabiliza porções individuais, fiquei imaginando uma família se reunindo para preparar uma lasanha; pais passando para os filhos a receita que aprenderam com seus avós; o jantar com conversa na mesa ao invés de cada um comer sua porção individual pré-cozida no seu quarto vendo a sua TV.

Ou, num cenário menos emotivo e mais prático, um jovem solteiro que prepara uma travessa de lasanha enquanto ouve o álbum de sua banda favorita no último volume; o preparo demorado será compensado com a refeição duradoura, que será requentada várias vezes e servirá de janta pelos próximos 3 dias; o dinheiro poupado garante umas cervejas no fim de semana.

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É realmente tão ruim que estejamos produzindo menos carros e alimentos industrializados que desperdiçam tantos recursos naturais e produzem uma situação insustentável e insuportável? Precisamos mesmo dessas coisas?

Ou melhor, precisamos delas o tempo todo? Seu carro atual não pode durar mais uns 2 anos? Seu próximo carro não pode ser um usado com garantia? Você não pode trocar por uma fruta aquela sobremesa cuja embalagem é 5 vezes maior que o conteúdo?

Reflita sobre as informações que chegam até você. Questione. Discorde. Conteste.

Empregos não faltam quando o investimento está no lugar certo. O país precisa muito mais de infra-estrutura que de bens de consumo. Menos automóveis, mais saneamento básico.

Experimente mudar seus hábitos de consumo e você pode até gostar do resultado. Consumo responsável é consumo sustentável. Gastar menos com supérfluos é sobrar mais para viagem e cultura. Viver com menos pode ser divertido.

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