28.9.10

Elvis, Madona & Super-Homem



Há certos erros cometidos por novatos do Festival do Rio que são compreensíveis, mas que quem já é veterano não deveria mais fazer. A primeira sessão noturna de um longa nacional do Odeon terá sempre tapete vermelho, diretor, atores, gente famosa e imprensa. Ou seja, vai complicar a vida de quem só que ir pro cinema pra (que absurdo!) ver um filme.

Caí nessa armadilha novamente ao comprar o ingresso para Elvis & Madona. Gente demais, luzes demais, barulho demais, fila confusa, sessão atrasada, overbooking. Mas o filme compensou tudo. Mais do que uma boa comédia nacional a partir de um tema arriscado, o diretor Marcelo Laffitte reinventou a comédia romântica. Podem apostar que E&M será figura fácil nos cursos de comunicação daqui a alguns anos.

Se ver Simone Spoladore na tela de cinema é sempre um prazer, é apaixonante vê-la como a motoqueira Elvis e seus trejeitos de pegadora (lembra a Shane de The L Word). Pra quem está acostumado a ver a atriz sempre em papéis densos e enigmáticos, é uma alegria ver seu talento e beleza dando vida a uma personagem leve e divertida.

O desafio maior coube a Igor Cotrim, que respondeu à altura. Mais conhecido por ter interpretado o vilão do seriado televisivo da Sandy&Junior, o ator viu no papel de Madona uma grande oportunidade e agarrou a chance com unhas e dentes (como o próprio Cotrim disse após o filme, ao receber os elogios por sua atuação). E se o travesti é sem dúvida o personagem mais divertido do filme, também é o mais difícil, tendo que segurar momentos dramáticos "montada" como drag.

É preciso elogiar especificamente a forma como Laffitte escolheu retratar Madona. O difícil equilíbrio de manter o/a protagonista longe do dramalhão ou do pastelão percorre todo o filme. Não há o "pobre travesti vítima da sociedade", nem a "bicha tão estranha que nem parece gente". Madona é engraçado, exagerado, exótico, afinal trata-se de uma comédia; mas ainda é o/a protagonista e, portanto, o personagem mais desenvolvido durante o longa.

Além do romance incomum, existem outros aspectos muito divertidos no roteiro de E&M. A não-neutralidade da nossa língua em relação a gênero é colocada em evidência das formas mais inusitadas, gerando gargalhadas com a simples troca de O por A (e vice-versa).

Outro detalhe bacana foi o jornalista que é contato de Elvis no jornal em que suas fotos são publicadas. Um jornalista chamado "Clark" num filme nacional?! E usando aquele tipo de óculos?! Não pode ser coincidência! Uma segunda cena com Clark em que um botão aberto da camisa acaba mostrando parte do conhecido símbolo confirma a piada.

E o clímax do filme ainda tem um deus ex machina do qual nem José Wilker poderia reclamar! É um filme tão redondinho, bem pensado e bem executado, que tem grande chance de ser o melhor filme deste ano no Festival. Não o melhor filme nacional. O melhor filme.

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