30.9.10

O outro mundo é aqui



O Cris Evans francês salva a Keira Knightley francesa de uma tentativa de suicídio e depois se envolve com ela através de um jogo tipo Second Life. Buraco Negro é o típico filminho de "sedução e mistério" que passa no Supercine, tendo como extra o componente do mundo virtual (que nem é tão legal assim).

Curioso mesmo é o título do filme por aqui. "Buraco Negro" vem do nome do tal jogo virtual (Black Hole). Mas o título original é "L'autre monde", o que faz muito mais sentido no contexto do filme.

O título brasileiro transmite a idéia de que o jogo é importante para a narrativa; tremenda propaganda enganosa. Além de aparecer bem pouco, o jogo, que tem um visual noir/S&M, mas não desperta grande interesse, só serve mesmo para o protagonista tentar conhecer o íntimo da mulher misteriosa (tempos atrás, um diário cumpriria essa função).

O próprio filme indica como deve ser lido. O avatar da mulher misteriosa dentro do jogo se refere ao mundo real como "o outro mundo". É a esse mundo real (que somente para essa personagem é "o outro") que o título se refere. Ele é o que realmente interessa para o espectador. Até perceber isso, somos levados a uma leitura meio capenga que só é interrompida com essa frustração de expectativa que a má escolha de título causa.

O "buraco negro" deve estar na cabeça de quem acha que títulos não têm importância e que só precisam ser chamativos.

28.9.10

Elvis, Madona & Super-Homem



Há certos erros cometidos por novatos do Festival do Rio que são compreensíveis, mas que quem já é veterano não deveria mais fazer. A primeira sessão noturna de um longa nacional do Odeon terá sempre tapete vermelho, diretor, atores, gente famosa e imprensa. Ou seja, vai complicar a vida de quem só que ir pro cinema pra (que absurdo!) ver um filme.

Caí nessa armadilha novamente ao comprar o ingresso para Elvis & Madona. Gente demais, luzes demais, barulho demais, fila confusa, sessão atrasada, overbooking. Mas o filme compensou tudo. Mais do que uma boa comédia nacional a partir de um tema arriscado, o diretor Marcelo Laffitte reinventou a comédia romântica. Podem apostar que E&M será figura fácil nos cursos de comunicação daqui a alguns anos.

Se ver Simone Spoladore na tela de cinema é sempre um prazer, é apaixonante vê-la como a motoqueira Elvis e seus trejeitos de pegadora (lembra a Shane de The L Word). Pra quem está acostumado a ver a atriz sempre em papéis densos e enigmáticos, é uma alegria ver seu talento e beleza dando vida a uma personagem leve e divertida.

O desafio maior coube a Igor Cotrim, que respondeu à altura. Mais conhecido por ter interpretado o vilão do seriado televisivo da Sandy&Junior, o ator viu no papel de Madona uma grande oportunidade e agarrou a chance com unhas e dentes (como o próprio Cotrim disse após o filme, ao receber os elogios por sua atuação). E se o travesti é sem dúvida o personagem mais divertido do filme, também é o mais difícil, tendo que segurar momentos dramáticos "montada" como drag.

É preciso elogiar especificamente a forma como Laffitte escolheu retratar Madona. O difícil equilíbrio de manter o/a protagonista longe do dramalhão ou do pastelão percorre todo o filme. Não há o "pobre travesti vítima da sociedade", nem a "bicha tão estranha que nem parece gente". Madona é engraçado, exagerado, exótico, afinal trata-se de uma comédia; mas ainda é o/a protagonista e, portanto, o personagem mais desenvolvido durante o longa.

Além do romance incomum, existem outros aspectos muito divertidos no roteiro de E&M. A não-neutralidade da nossa língua em relação a gênero é colocada em evidência das formas mais inusitadas, gerando gargalhadas com a simples troca de O por A (e vice-versa).

Outro detalhe bacana foi o jornalista que é contato de Elvis no jornal em que suas fotos são publicadas. Um jornalista chamado "Clark" num filme nacional?! E usando aquele tipo de óculos?! Não pode ser coincidência! Uma segunda cena com Clark em que um botão aberto da camisa acaba mostrando parte do conhecido símbolo confirma a piada.

E o clímax do filme ainda tem um deus ex machina do qual nem José Wilker poderia reclamar! É um filme tão redondinho, bem pensado e bem executado, que tem grande chance de ser o melhor filme deste ano no Festival. Não o melhor filme nacional. O melhor filme.

18.9.10

Ainda sob efeito de Inception

Lendo sobre objetos impossíveis e outros que parecem impossíveis, mas não são, vejo passar na parede atrás do monitor uma aranha de proporções aparentemente impossíveis (corpo tão pequeno que quase não se vê, pernas finas porém mais longas que dedos humanos).

Mais do que o bicho em si, causa estranheza o fato de que não tinha como ela chegar àquele ponto sem ser vista (tudo é branco e liso ao redor) e o sumiço tão súbito quanto o surgimento: num piscar de olhos, correu pela parede até o espaço oculto pelo monitor; levantei pra olhar sem tirar os olhos da parece e não havia sinal da criatura.

Agora continuo ouvindo Piaf no repeat (desde o início da pesquisa dos objetos inceptianos) e começarei a buscar artigos sobre animais impossíveis.