25.8.10

Frase do dia

"Uma celebridade é uma pessoa conhecida por ser muito conhecida, e um best-seller é um livro que vende bem porque está vendendo bem." - Daniel J. Boorstin, em The Image (1961!), citado por Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida.

2.8.10

Eurídice

Era a sua única chance, e sabia disso.

Mas ela demorava e isso o inquietava. A posição era estratégica: próximo ao caminho sinuoso, mas oferecendo apenas as costas a olhos curiosos, como se aquilo não tivesse importância. Mas tinha e isso o arrepiava.

A superfície circular estrategicamente posicionada não chamava atenção no meio de tantas miniaturas de humanos idealizados à base de petróleo e outros bibelôs. Mesmo sendo espelhada, o que permitiria perceber a passagem dela sem olhar diretamente, como o herói fez com a górgona. Alguma coisa ele aprendeu com a mitologia!

Mas a demora foi cruel. Justo nesse dia. O final do inferno. Fim do inverno, início da primavera. Quando o reflexo repentino brilha Eurídice, seu próprio reflexo o fez se virar sem pensar para confirmar a imagem com a visão direta, como se os olhos não fossem também espelhos e intermediários. Era a única coisa que não poderia ter feito, exatamente como o tocador de lira. Ele não aprendeu nada com a mitologia!

A atenção era a perdição, a salvação seria o desprezo. Adiara assim o encontro com Eurídice. A forma diante de si era gelo, piche e espinho. Frio, escuridão e dor. Enquanto via/ouvia/sentia/cheirava/provava a ninfa caminhar resignada de volta ao inferno acompanhada de seus demônios pessoais (dele, dela, de ambos, tanto faz), soube que desperdiçara sua chance. Outra lição da mitologia: a oportunidade é uma flecha; uma vez disparada, não pode mais ser agarrada.

Outra chance, se existisse, teria que aguardar o término de um longo inverno para acontecer. E ele não tinha certeza se sobreviveria a clima tão rigoroso por tanto tempo... sozinho.