20.7.10

Assincronicidade

Quando estamos em um determinado estado mental, sofrendo ou jubilando a vida, ponderando possibilidades, mapeando vias antes de encarar a encruzilhada, é comum vermos ressonância de nossos pensamentos em quase tudo com o que temos contato: clima, números, horóscopo, mas principalmente obras culturais. É a tal sincronicidade.

Mas e quando ocorre o contrário? Ou melhor, quando não há ligação alguma, nem mesmo de negação ou inversão semântica? Todos estão no clima de um tolo Dia do Amigo, mas as amizades continuam inercialmente as mesmas, não há algo a celebrar, conquistar ou lamentar.

A música que resolveu grudar hoje na cabeça (graças a esse post do MdM - e cuidado que gruda mesmo!) depois de um atraso explicável pelas novas referências ao joguinho nos posts e podcasts mais recentes, mas cuja letra não reflete qualquer situação problemática ou desejo atual; a canção martela a mente insistentemente apenas por sua estrutura em looping.

A leitura do aguardado último volume de Scott Pilgrim, acompanhando suas complicações afetivas pós-adolescentes visualmente anabolizadas pela estética dos mangás e videogames com o mesmo grau de identificação e empatia que histórias de detetive ou exploração do espaço mereceriam.

A ausência de envolvimento com esses elementos poderia ser angustiante pra quem busca um sentido, uma revelação em tudo à sua volta. Mas, surpreendentemente, experimentar essa assincronicidade tem sido divertido, talvez mais do que deveria, quase um guilty pleasure.

Talvez cada pessoa seja mesmo o centro em torno do qual o universo gira, mas é bom saber que é possível sair dessa posição para dar um passeio e até assistir às rotações e translações por outro ângulo sem se preocupar com as trajetórias.

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