30.5.10

Coisas que só a TV aberta de domingo faz por você

Passando pela sala pra pegar (mais) uma caneca de café (quinta ou sétima do dia? Perdi a conta...) pra continuar escrevendo. TV ligada no programa do Gugu. Ele explica que está montando um novo grupo. Não diz do quê. Supõe-se ser grupo musical, mas o resto da declaração mostra que classificar isso como "musical" poderia lhe render um processo por propaganda enganosa.

Para participar da seleção, basta se inscrever pelo site que aparece na tela. O apresentador garante que "qualquer um" pode participar. Num tom que coloca em elipse "ao contrário de outros concursos do tipo", diz que "você não precisa saber cantar, tocar instrumento musical ou mesmo dançar" (precisa do quê, então, cara-pálida?) e fecha com "nós vamos ensinar tudo pra você!".

Gotas pingadas, café mexido e sorriso aberto pela a piada involuntária, deixo o aparelho falando, volto para o quarto e, antes de voltar a produzir a sério (nem tanto, já que é pro MdM), escrevo este texto relembrando que isso já foi feito antes pelo mesmo apresentador/empresário e fico pensando na piada previsível e inevitável de que uma versão "inconformista" do Polegar deveria se chamar Dedo do Meio.

De volta ao trabalho!

2.5.10

Welcome to Joe’s apartment

Voltando da corrida, exausto, vejo na parede do banheiro a criatura pequena e asquerosa. Quando percebo sua presença, ela pára.

Contemplando sua imobilidade, vem à mente o verso (ainda sem música) “Eu olhei pra ela” e, imediatamente, “Ela olhou pra mim” e, com aquela pausa que provavelmente levou apenas um milésimo de segundo, mas que parece eterna na lembrança do pensamento, “Ofereci a ela um pedaço de pudim”.

O estranhamento/questionamento sobre a origem dos versos é atropelado pelo reconhecimento/lembrança da música. [A rememoração tão nítida de algo tão tolo e sem importância também traz à mente um dos grandes medos em relação à crescente falta de controle sobre os processos mentais, particularmente sobre as recordações: receio no fim da vida não lembrar os nomes de entes queridos, mas saber a letra de alguma canção da Xuxa.]

Penso na época em que conheci a música, no filme cuja citação intitula este texto (e cujo cenário-título lembra uma versão exagerada de minha própria moradia) e, óbvio, no autor da obra que inspirou a canção. Surgem três reflexões aparentemente simultâneas (ou simultaneamente percebidas).

- Conheci a música muito antes de conhecer o escritor. Mais ainda, ouvi falar do autor pela primeira vez através da música, e ainda demoraria alguns anos antes de descobrir quem era o tal de Kakfa. Conseqüência de ter nascido/crescido no auge da cultura de citação/paráfrase pós-moderna pré-internet [e aqui percebo que a quantidade absurda de outros exemplos torna qualquer outra exemplificação desnecessária pra quem viveu a época].

- Talvez por causa da música, pelo excesso de adaptações/citações que tornam a trama pasteurizadamente conhecida ou pela simples falta do momento ideal, ainda não li A Metamorfose. Suspeito que não conseguirei evitar que a canção do Inimigos do Rei seja uma trilha sonora mental constante durante a leitura.

- Num exercício de imaginação, tenho a impressão de que o escritor gostaria da [ou pelo menos teria algum grau de simpatia pela] canção. Nem que fosse por confirmar algo que já receava. Também acho que, se vivesse hoje, seria um redator do Zorra Total, mas isso já é outra história.