6.11.10

Recuperando o controle da infância

Depois anos de procura infrutífera, finalmente recuperei o lendário controle de seis botões do Mega Drive do final da minha infância (agradecimentos ao Dunga por ter encontrado o Graal). Vejam bem, não é o mesmo modelo; é o mesmo controle!

Tanto tempo depois de ter encerrado as buscas pelo desaparecido (calculo pelo menos 12 anos sem ver o acessório), sinto como se tivesse trazido de volta do limbo um pedaço da infância.

É muito provável que o velho 6-pad nem funcione mais, mas será guardado com carinho junto ao falecido console do Mega Drive, seu outrora inseparável (época de controle com fios, lembram?) companheiro de aventuras.

Recuperar essa peça específica, nesse momento específico, traz um certo sentimento de dever cumprido, de página virada, algo como finalmente comer algo que foi servido depois de muito tempo esfriando. E descubro, sem surpresa, que gosto de pratos frios.

É claro que não poderia terminar sem mostrar o achado, pra alegria dos velhos saudosistas e pra instrução da gurizada que não viveu na época do bit lascado.

Vejam aí a cara do filho pródigo:


Ele pode até não ser máximo em termos de jogabilidade e recursos, mas é preciso admitir que os controles dessa época eram bem mais bonitos que os monstrengos de hoje em dia.

7.10.10

Triplique seu PIB. Pergunte-me como

O ultrasupermegaprêmio da Megasena saiu pruma única aposta num municipiozinho do Rio Grande do Sul chamado Fontoura Xavier. Pensei logo que deve ser um lugar com 10 mil habitantes em que todo mundo sabe da vida de todo mundo e que o ganhador teria sua vida transformada num inferno (agora não lembro se o castigo de ficar eternamente cercado por gente pedindo o seu prêmio da Megasena era no quarto ou quinto círculo do Inferno de Dante).

Segundo a Wikipédia (que já incluiu a Megasena no verbete!), o premiado município tem 11,3 mil habitantes (passei perto!) e, curiosamente, um PIB de 62,2 milhões de reais. Ou seja, com a bolada de 119 milhões da loteria, a riqueza da cidade simplesmente triplicou em 2010! Já tô imaginando a Prefeitura pedindo ao recém-milionário um dinheiro emprestado pra "fazer umas obras aí". O sujeito será praticamente o Eike Batista do rincão gaúcho!

1.10.10

O sorriso de Ana Paula



Mais uma estréia nacional no Odeon, mas dessa vez já espiritualmente preparado para o caos do tapete vermelho. A presença de atores mais conhecidos e, principalmente, de Ana Paula Arósio tornou tudo mais confuso e mais demorado ainda. A presença da atriz explicava a grande quantidade de fotógrafos no local. Afinal, é muito fácil tirar fotos boas de Ana Paula; não requer grande talento do fotógrafo ou qualidade do equipamento. E sempre haverá quem compre fotos dela.

***

Como Esquecer, o filme de que todos se esqueceram porque só falavam de Ana Paula, é um filme sobre relacionamentos que não lembra algo feito por Domingos Oliveira. E esse provavelmente é o maior mérito do filme de Malu de Martino: fugir da visão bossanoviana das relações amorosas que domina o cinema brasileiro da última década.

O longa tem peso, dor, sofrimento. As risadas existem, mas num processo de cicatrização, não no clima de "rindo da própria tragédia". Não há fórmula mágica, sacanagem ou suruba; é tempo, aprendizado e vontade de continuar tentando. Como Esquecer provavelmente não será um clássico do cinema nacional, mas cumpre o que promete e vale o preço do ingresso.

E, mesmo tendo feito praticamente um "aham, Ana Paula, senta lá" involuntário após a sessão, preciso ressaltar o quanto a diretora (qualquer diretor, diga-se) tem sorte em ter o rosto de Ana Paula em seu filme. Mesmo que não seja lá uma grande atriz, esse sorriso (agora começando a ter fantásticas marcas de envelhecimento!) é capaz de arrebatar qualquer sala de cinema do mundo.

30.9.10

O outro mundo é aqui



O Cris Evans francês salva a Keira Knightley francesa de uma tentativa de suicídio e depois se envolve com ela através de um jogo tipo Second Life. Buraco Negro é o típico filminho de "sedução e mistério" que passa no Supercine, tendo como extra o componente do mundo virtual (que nem é tão legal assim).

Curioso mesmo é o título do filme por aqui. "Buraco Negro" vem do nome do tal jogo virtual (Black Hole). Mas o título original é "L'autre monde", o que faz muito mais sentido no contexto do filme.

O título brasileiro transmite a idéia de que o jogo é importante para a narrativa; tremenda propaganda enganosa. Além de aparecer bem pouco, o jogo, que tem um visual noir/S&M, mas não desperta grande interesse, só serve mesmo para o protagonista tentar conhecer o íntimo da mulher misteriosa (tempos atrás, um diário cumpriria essa função).

O próprio filme indica como deve ser lido. O avatar da mulher misteriosa dentro do jogo se refere ao mundo real como "o outro mundo". É a esse mundo real (que somente para essa personagem é "o outro") que o título se refere. Ele é o que realmente interessa para o espectador. Até perceber isso, somos levados a uma leitura meio capenga que só é interrompida com essa frustração de expectativa que a má escolha de título causa.

O "buraco negro" deve estar na cabeça de quem acha que títulos não têm importância e que só precisam ser chamativos.

28.9.10

Elvis, Madona & Super-Homem



Há certos erros cometidos por novatos do Festival do Rio que são compreensíveis, mas que quem já é veterano não deveria mais fazer. A primeira sessão noturna de um longa nacional do Odeon terá sempre tapete vermelho, diretor, atores, gente famosa e imprensa. Ou seja, vai complicar a vida de quem só que ir pro cinema pra (que absurdo!) ver um filme.

Caí nessa armadilha novamente ao comprar o ingresso para Elvis & Madona. Gente demais, luzes demais, barulho demais, fila confusa, sessão atrasada, overbooking. Mas o filme compensou tudo. Mais do que uma boa comédia nacional a partir de um tema arriscado, o diretor Marcelo Laffitte reinventou a comédia romântica. Podem apostar que E&M será figura fácil nos cursos de comunicação daqui a alguns anos.

Se ver Simone Spoladore na tela de cinema é sempre um prazer, é apaixonante vê-la como a motoqueira Elvis e seus trejeitos de pegadora (lembra a Shane de The L Word). Pra quem está acostumado a ver a atriz sempre em papéis densos e enigmáticos, é uma alegria ver seu talento e beleza dando vida a uma personagem leve e divertida.

O desafio maior coube a Igor Cotrim, que respondeu à altura. Mais conhecido por ter interpretado o vilão do seriado televisivo da Sandy&Junior, o ator viu no papel de Madona uma grande oportunidade e agarrou a chance com unhas e dentes (como o próprio Cotrim disse após o filme, ao receber os elogios por sua atuação). E se o travesti é sem dúvida o personagem mais divertido do filme, também é o mais difícil, tendo que segurar momentos dramáticos "montada" como drag.

É preciso elogiar especificamente a forma como Laffitte escolheu retratar Madona. O difícil equilíbrio de manter o/a protagonista longe do dramalhão ou do pastelão percorre todo o filme. Não há o "pobre travesti vítima da sociedade", nem a "bicha tão estranha que nem parece gente". Madona é engraçado, exagerado, exótico, afinal trata-se de uma comédia; mas ainda é o/a protagonista e, portanto, o personagem mais desenvolvido durante o longa.

Além do romance incomum, existem outros aspectos muito divertidos no roteiro de E&M. A não-neutralidade da nossa língua em relação a gênero é colocada em evidência das formas mais inusitadas, gerando gargalhadas com a simples troca de O por A (e vice-versa).

Outro detalhe bacana foi o jornalista que é contato de Elvis no jornal em que suas fotos são publicadas. Um jornalista chamado "Clark" num filme nacional?! E usando aquele tipo de óculos?! Não pode ser coincidência! Uma segunda cena com Clark em que um botão aberto da camisa acaba mostrando parte do conhecido símbolo confirma a piada.

E o clímax do filme ainda tem um deus ex machina do qual nem José Wilker poderia reclamar! É um filme tão redondinho, bem pensado e bem executado, que tem grande chance de ser o melhor filme deste ano no Festival. Não o melhor filme nacional. O melhor filme.

18.9.10

Ainda sob efeito de Inception

Lendo sobre objetos impossíveis e outros que parecem impossíveis, mas não são, vejo passar na parede atrás do monitor uma aranha de proporções aparentemente impossíveis (corpo tão pequeno que quase não se vê, pernas finas porém mais longas que dedos humanos).

Mais do que o bicho em si, causa estranheza o fato de que não tinha como ela chegar àquele ponto sem ser vista (tudo é branco e liso ao redor) e o sumiço tão súbito quanto o surgimento: num piscar de olhos, correu pela parede até o espaço oculto pelo monitor; levantei pra olhar sem tirar os olhos da parece e não havia sinal da criatura.

Agora continuo ouvindo Piaf no repeat (desde o início da pesquisa dos objetos inceptianos) e começarei a buscar artigos sobre animais impossíveis.

25.8.10

Frase do dia

"Uma celebridade é uma pessoa conhecida por ser muito conhecida, e um best-seller é um livro que vende bem porque está vendendo bem." - Daniel J. Boorstin, em The Image (1961!), citado por Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida.

2.8.10

Eurídice

Era a sua única chance, e sabia disso.

Mas ela demorava e isso o inquietava. A posição era estratégica: próximo ao caminho sinuoso, mas oferecendo apenas as costas a olhos curiosos, como se aquilo não tivesse importância. Mas tinha e isso o arrepiava.

A superfície circular estrategicamente posicionada não chamava atenção no meio de tantas miniaturas de humanos idealizados à base de petróleo e outros bibelôs. Mesmo sendo espelhada, o que permitiria perceber a passagem dela sem olhar diretamente, como o herói fez com a górgona. Alguma coisa ele aprendeu com a mitologia!

Mas a demora foi cruel. Justo nesse dia. O final do inferno. Fim do inverno, início da primavera. Quando o reflexo repentino brilha Eurídice, seu próprio reflexo o fez se virar sem pensar para confirmar a imagem com a visão direta, como se os olhos não fossem também espelhos e intermediários. Era a única coisa que não poderia ter feito, exatamente como o tocador de lira. Ele não aprendeu nada com a mitologia!

A atenção era a perdição, a salvação seria o desprezo. Adiara assim o encontro com Eurídice. A forma diante de si era gelo, piche e espinho. Frio, escuridão e dor. Enquanto via/ouvia/sentia/cheirava/provava a ninfa caminhar resignada de volta ao inferno acompanhada de seus demônios pessoais (dele, dela, de ambos, tanto faz), soube que desperdiçara sua chance. Outra lição da mitologia: a oportunidade é uma flecha; uma vez disparada, não pode mais ser agarrada.

Outra chance, se existisse, teria que aguardar o término de um longo inverno para acontecer. E ele não tinha certeza se sobreviveria a clima tão rigoroso por tanto tempo... sozinho.

31.7.10

Tô velho demais pra essa merda

Perguntaram qual era meu arroba.

Demorei 2,8 segundos pra entender que estavam falando do tal microblog/rede social virtual/egotrip coletiva.

Expliquei que não tenho > que tenho, mas não uso [1] > que tenho outro que uso, mas é coletivo, do site pro qual escrevo, então que não é só meu [2]. Da próxima vez direi só que não tenho.

Já tenho sérios problemas para administrar o tempo. Imagina se tivesse que ficar acompanhando os hábitos alimentares e a tentativa fracassada de humorismo de dúzias de pessoas. Não, obrigado. Lamento aos amigos e aliados que embarcaram nessa, mas vocês têm lugar reservado no meu Buzz. Só acompanho (pelo Reader) os que realmente valem a pena [3].

Nunca pensei que chegaria o dia em que seria um sujeito old school por ter um "web log". Mas é isso mesmo. O mundo é dos jovens, com suas modernidades e aparelhinhos eletrônicos que não entendo.

Enviado do meu iPad.

A quem interessar:
1 - Contas que criei somente para impedir que fossem usadas indevidamente e aproveito para trocar mensagens com quem trocou e-mail por mensagem direta - Nerd Reverso e Ex-quase-futuro. Pra quem quiser a sensação zen de seguir um perfil vazio.
2 - Conta do Melhores do Mundo. Identifico minhas mensagens com "[NR]".
3 - Tanto quanto um site de LOLcats: Shit my dad Says; sua conseqüência nerd, Shit my Darth Says; God Damn Batman.

30.7.10

20.7.10

Assincronicidade

Quando estamos em um determinado estado mental, sofrendo ou jubilando a vida, ponderando possibilidades, mapeando vias antes de encarar a encruzilhada, é comum vermos ressonância de nossos pensamentos em quase tudo com o que temos contato: clima, números, horóscopo, mas principalmente obras culturais. É a tal sincronicidade.

Mas e quando ocorre o contrário? Ou melhor, quando não há ligação alguma, nem mesmo de negação ou inversão semântica? Todos estão no clima de um tolo Dia do Amigo, mas as amizades continuam inercialmente as mesmas, não há algo a celebrar, conquistar ou lamentar.

A música que resolveu grudar hoje na cabeça (graças a esse post do MdM - e cuidado que gruda mesmo!) depois de um atraso explicável pelas novas referências ao joguinho nos posts e podcasts mais recentes, mas cuja letra não reflete qualquer situação problemática ou desejo atual; a canção martela a mente insistentemente apenas por sua estrutura em looping.

A leitura do aguardado último volume de Scott Pilgrim, acompanhando suas complicações afetivas pós-adolescentes visualmente anabolizadas pela estética dos mangás e videogames com o mesmo grau de identificação e empatia que histórias de detetive ou exploração do espaço mereceriam.

A ausência de envolvimento com esses elementos poderia ser angustiante pra quem busca um sentido, uma revelação em tudo à sua volta. Mas, surpreendentemente, experimentar essa assincronicidade tem sido divertido, talvez mais do que deveria, quase um guilty pleasure.

Talvez cada pessoa seja mesmo o centro em torno do qual o universo gira, mas é bom saber que é possível sair dessa posição para dar um passeio e até assistir às rotações e translações por outro ângulo sem se preocupar com as trajetórias.

5.6.10

Daft Punk + Star Wars = Flawless Victory

Poderia contar no que consiste o vídeo, que outras personalidades pop estão nele, mas nada disso importa depois de ver o Daft Punk entrando na cantina de Mos Eisley:



Óbvio que já está nos meus favoritos do YouTube.

Vi no OMEdI.

3.6.10

A Morte deveria parecer Louise Brooks

O Gaiman postou um vídeo muito interessante de um programa sobre Sandman. Exibido há 17 anos, já na reta final da série, o vídeo mostra pequenas entrevistas com Gaiman e muitos dos profissionais que contribuíram para o sucesso do gibi.

Digitalizado a partir de uma gravação de videocassete, a qualidade de imagem e som é péssima. Então por que assistir a uma velharia dessas?

Primeiro, porque revela algumas informações interessantes, como a do título deste texto (que lembro vagamente de já ter lido em algum lugar, porém numa época em que não fazia idéia de quem seria Louise Brooks mais do que “atriz das antigas, got it”). Segundo, para ver grandes nomes das HQs 17 anos mais novos, usando roupas estranhas e cabelos ridículos (mullets!) e confirmar que não é necessário ser cool e se vestir como um babaca metido a rockstar para ser um artista de qualidade.

1.6.10

Mais uma com TV

Depois de ficar desligada por semanas, a TV foi ligada numa madrugada de insônia produtiva para ver Family Guy (quem só tem TV aberta precisa aproveitar os raros bons programas sempre que a oportunidade aparece). No intervalo, o lembrete de que em poucas horas começaria uma corrida de Fórmula-1, que já estava negligenciada há algum tempo (desde que Felipe Massa perdeu a liderança do campeonato, para ser mais preciso).

Após o desenho animado (reprise, mas de um bom episódio), dormir e acordar com hora marcada no domingo. Faltando 15 minutos pra largada, narrador falando besteira, resolvi zapear. Pica-Pau original na Record (episódio dos rachadores); Chaves no SBT (episódio no restaurante com o Jaiminho). Duas boas opções.

[Sim, ainda passa Chaves no SBT. Aliás, parece que o Silvio tem o prazer sádico de colocar o seriado em horários em que ninguém consegue se programar pra assistir. O mexicano vaga como um fantasma pela programação e pode aparecer nove da manhã de domingo, meio-dia de quarta ou três da madrugada de sábado. Na mesma semana. E depois passar em horários completamente diferentes na semana seguinte. Pra ver Chaves, só deixando a TV ligada 24/7 no SBT (o Ministério da Saúde não recomenda) ou ligando a TV aleatoriamente nos horários mais variados possíveis e contar com a sorte.]

Zapeando entre os três canais até a volta de apresentação dos carros, começa novo episódio do Pica-Pau. Putz, é aquele com a “Rapsódia Húngara #2” do Liszt. Mas vão dar a largada agora. Mas é o Pica-Pau clássico. Mas já tenho o episódio no iPod. Em que posição o Massa vai sair? Oitavo, pouca probabilidade de vitória.

Notas de piano vindas do som da TV reverberam pelo quarto.

30.5.10

Coisas que só a TV aberta de domingo faz por você

Passando pela sala pra pegar (mais) uma caneca de café (quinta ou sétima do dia? Perdi a conta...) pra continuar escrevendo. TV ligada no programa do Gugu. Ele explica que está montando um novo grupo. Não diz do quê. Supõe-se ser grupo musical, mas o resto da declaração mostra que classificar isso como "musical" poderia lhe render um processo por propaganda enganosa.

Para participar da seleção, basta se inscrever pelo site que aparece na tela. O apresentador garante que "qualquer um" pode participar. Num tom que coloca em elipse "ao contrário de outros concursos do tipo", diz que "você não precisa saber cantar, tocar instrumento musical ou mesmo dançar" (precisa do quê, então, cara-pálida?) e fecha com "nós vamos ensinar tudo pra você!".

Gotas pingadas, café mexido e sorriso aberto pela a piada involuntária, deixo o aparelho falando, volto para o quarto e, antes de voltar a produzir a sério (nem tanto, já que é pro MdM), escrevo este texto relembrando que isso já foi feito antes pelo mesmo apresentador/empresário e fico pensando na piada previsível e inevitável de que uma versão "inconformista" do Polegar deveria se chamar Dedo do Meio.

De volta ao trabalho!

2.5.10

Welcome to Joe’s apartment

Voltando da corrida, exausto, vejo na parede do banheiro a criatura pequena e asquerosa. Quando percebo sua presença, ela pára.

Contemplando sua imobilidade, vem à mente o verso (ainda sem música) “Eu olhei pra ela” e, imediatamente, “Ela olhou pra mim” e, com aquela pausa que provavelmente levou apenas um milésimo de segundo, mas que parece eterna na lembrança do pensamento, “Ofereci a ela um pedaço de pudim”.

O estranhamento/questionamento sobre a origem dos versos é atropelado pelo reconhecimento/lembrança da música. [A rememoração tão nítida de algo tão tolo e sem importância também traz à mente um dos grandes medos em relação à crescente falta de controle sobre os processos mentais, particularmente sobre as recordações: receio no fim da vida não lembrar os nomes de entes queridos, mas saber a letra de alguma canção da Xuxa.]

Penso na época em que conheci a música, no filme cuja citação intitula este texto (e cujo cenário-título lembra uma versão exagerada de minha própria moradia) e, óbvio, no autor da obra que inspirou a canção. Surgem três reflexões aparentemente simultâneas (ou simultaneamente percebidas).

- Conheci a música muito antes de conhecer o escritor. Mais ainda, ouvi falar do autor pela primeira vez através da música, e ainda demoraria alguns anos antes de descobrir quem era o tal de Kakfa. Conseqüência de ter nascido/crescido no auge da cultura de citação/paráfrase pós-moderna pré-internet [e aqui percebo que a quantidade absurda de outros exemplos torna qualquer outra exemplificação desnecessária pra quem viveu a época].

- Talvez por causa da música, pelo excesso de adaptações/citações que tornam a trama pasteurizadamente conhecida ou pela simples falta do momento ideal, ainda não li A Metamorfose. Suspeito que não conseguirei evitar que a canção do Inimigos do Rei seja uma trilha sonora mental constante durante a leitura.

- Num exercício de imaginação, tenho a impressão de que o escritor gostaria da [ou pelo menos teria algum grau de simpatia pela] canção. Nem que fosse por confirmar algo que já receava. Também acho que, se vivesse hoje, seria um redator do Zorra Total, mas isso já é outra história.

2.1.10