13.12.06

É possível (?)

Somos um país rico, repleto de potencialidades. À diferença de outras nações, o Brasil dispõe de recursos que nos permitem virar a página do passado e entrar numa era de bem-estar. Não temos o engessamento das estruturas sociais do mundo desenvolvido do Norte, por isso dispomos de melhores condições de mudar.

Não padecemos a pobreza da maior parte dos países africanos, com isso temos recursos para enfrentar a pobreza e a desigualdade.

O Brasil é o quinto país em extensão territorial e em população no mundo. Temos 14% da água doce do planeta e grandes extensões de terras agricultáveis. Com riqueza do solo, fartura da água e abundância de sol, podemos ser o celeiro do mundo, além de alimentar bem nossa gente. Somos ricos em reservas de ferro, manganês, ouro e diversos outros minérios.

Temos uma renda nacional de cerca de 2 trilhões de reais por ano, 5% da renda mundial; uma indústria com capacidade para produzir tudo aquilo de que o Brasil precisa para competir, no campo internacional, em diversos setores. Temos um perfil de ciência e tecnologia com bom potencial de crescimento.

Somos um dos países mais bem aquinhoados em energia. Depois de 50 anos de sistemáticos investimentos, obtivemos a auto-suficiência de petróleo, ainda que por algumas décadas. O Brasil é o país que detém a mais avançada tecnologia de exploração de petróleo e gás em águas profundas. Conhecemos, como poucos, a tecnologia para produção de biocombustíveis. Já iniciamos experiências importantes na exploração de energias alternativas, como a eólica e a solar. E temos a possibilidade de ampliar a exploração da energia nuclear, quando puder ser produzida com segurança.

Nossa matriz energética, diferente da maior parte dos países emergentes, é fundada majoritariamente em energia renovável e não-poluidora.

Temos 4 milhões de jovens no curso superior; classe operária organizada; sociedade civil participante; moeda estável, pela primeira vez em décadas; plena liberdade democrática; imprensa livre. É pouco para um país rico como o nosso, mas é bastante como base para criar um Brasil diferente.


O trecho acima está no programa de governo do ex-candidato Cristovam Buarque. O texto ressalta o imenso potencial do país, tentando mostrar que é possível sair do buraco. Entretanto, é inevitável pensar em outra questão a partir do trecho: com todos os aspectos positivos apontados, como ainda estamos no buraco?

O otimista programa de governo considera que a culpa do atraso é de decisões ruins em momentos-chave de nossa história. O pessimista que vos escreve acredita que a culpa é do caráter das pessoas, lembrando uma velha piadinha sobre o assunto.

Entretanto, mesmo um pessimista há de reconhecer o grau de esclarecimento do programa de governo do ex-candidato. Apesar de assumidamente otimista, não há planos mirabolantes e tudo é proposto de forma equilibrada. Uma coisa muito interessante ao ler o programa é notar como as medidas propostas abrangem todos os lados de um mesmo problema. Por exemplo, ao imaginar as conseqüências de determinada medida de educação, combinada com outra de trabalho, é quase natural visualizar uma conseqüência para a área de habitação, que efetivamente aparece no programa quando se menciona o assunto.

É como acompanhar a montagem de um gigantesco quebra-cabeça barroco: no início tudo parece muito pequeno, confuso e de eficácia duvidosa, mas aos poucos é possível perceber que com um número suficiente de peças estratégicas em lugares estratégicos, as outras encaixam naturalmente nos lugares certos.

A opção de considerar a educação como peça estratégica é mais do que compreensível, é óbvia. O efeito bola de neve da educação em todas as outras atividades de um país é evidente a médio e longo prazo. O olhar a longo prazo é visível não somente nas metas que chegam a 2022, mas no fato de declarar a continuidade de iniciativas eficientes de governos anteriores e mesmo do atual, demonstrando um grau de maturidade política raro por aqui (ainda mais se lembrarmos que estamos falando do brizolista PDT).

A população em geral não acreditou na opção proposta pela candidatura de Cristovam Buarque. Mas seu programa de governo é um ótimo parâmetro para a avaliação do governo federal nos próximos anos. O texto completo, grande mas muito interessante, pode ser baixado aqui.