13.10.06

Filho não é propriedade

Uma notícia publicada nO Globo de 6 de outubro tinha como título "Maus-tratos a netos levam a avó a denunciar a própria filha à polícia". O texto falava de uma senhora de 74 anos que denunciou a filha, uma médica de 43 anos, após saber do mais recente ato de violência praticado contra os dois netos, de 10 e 15 anos: um deles teve a mão queimada no fogão, o outro foi agredido com cabo de vassoura.

O repórter creditou a ação da avó (denunciar a filha) ao "amor pelos netos". Seria melhor se o agente causador fosse a noção de justiça. A atitude "inusitada" da notícia (uma mãe que entrega a filha pra polícia) só causa espanto no leitor por essa noção deturpada de que laços familiares estão acima da justiça e da lei, portanto, acima da própria idéia de sociedade.

Uma das lições mais óbvias da sociedade contemporânea é que os filhos devem ser criados para o mundo, não para seus próprios genitores. Pais são pessoas que devem se esforçar para criar um ser humano melhor que eles mesmos, não uma cópia de si, nem uma criatura capaz ter a vida sonhada por seu criador. Teoricamente, a diferença entre cada genitor está naquilo que cada um considera ser "um ser humano melhor". Pessoas diferentes educam outras pessoas diferentemente, nada mais natural.

O problema é que muitos pais pensam em filho como "uma pessoa só minha", um pensamento injusto e perigoso, que é compartilhado pelo senso comum. Isso daria aos genitores poderes fora de qualquer cartilha de direitos humanos ou convenção de genebra, tornando essas pessoas autoridades absolutas quanto ao destino de uma pessoa ainda incapaz de agir na sociedade por si mesma, podendo inclusive negar o direito à liberdade e à vida. Não é incomum ver, mesmo nos dias de hoje, mesmo nas cidades ditas cosmopolitas, a omissão geral das autoridades diante de situações de abuso infantil que são consideradas apenas "assuntos de família".

Da mesma forma, o senso comum espera que entre pais e filhos ocorra uma situação de sigilo e cumplicidade que ultrapassa qualquer noção de bom senso, ocultando abusos, infrações e crimes (até hediondos), numa situação de permissividade que beira o absurdo e que explica muitos casos de impunidade e "tragédias" recentes.

A família, entendida na relação nuclear de transmissão de conhecimentos, valores e experiências entre dois seres humanos, é a principal base de formação de qualquer ser humano. E só. Os laços de sigilo e fidelidade dogmáticos que envolvem a "instituição" Família trazem invariavelmente um grande prejuízo para o ser humano em formação e, conseqüentemente, para a sociedade como um todo. Somente cortando esse cordão umbilical invisível teremos relações mais equilibradas, sensatas, saudáveis e socialmente coerentes entre as gerações.

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