5.9.06

A notícia que não aconteceu

(Nota explicativa: recentemente ganhei uma assinatura do jornal do falecido Doutor Roberto, então me permitirei bancar São Dines e brincar de Observatório por uns tempos)

Recentemente O Globo promoveu uma série de entrevistas com os candidatos a presidente. Em vez de formuladas por jornalistas da área de política, as perguntas seriam feitas pelos colunistas do jornal, jornalistas ou não. Uma metodologia questionável, mas compreensível tendo em vista o leitor moderninho-acomodado-zona-sul do periódico, que precisa sempre de uma novidade, uma trend diferente pra prestar atenção em algo que não seja futebol.

Enfim, convidados foram os candidatos, entrevistados foram os candidatos. Mas o presidente-candidato resolveu não comparecer. Atitude reprovável, impensada até, que merecia um editorial crítico. E assim foi feito. No espaço da página dois chamado "Por dentro do Globo", um texto opinativo comentou (com uma certa dose de escárnio) a ausência de Lula à entrevista. Assunto encerrado? Longe disso.

O mesmo texto age como chamada para uma página inteira contendo apenas "as perguntas que seriam feitas ao candidato". Ou seja, perguntas não-respondidas, não-perguntas, jornalisticamente injustificáveis (portanto impublicáveis), porém devidamente creditadas, cada uma por um dos colunistas.

O que o jornal fez é uma inversão dos valores jornalísticos, colocando o jornalista/colunista acima da matéria jornalística. E daí que não o fato não aconteceu? Temos nossos colunistas-celebridades (pelos quais pagamos bem caro, por sinal) e é só isso que importa para o nosso público. Tivesse pago pelo jornal, pediria meu dinheiro de volta.

Se entrevistas imaginárias, sem necessidade de resposta, valerem como matéria jornalística, faço uma não-entrevista com Jesus Cristo e ganho um Prêmio Esso da vida:

JC, se você pudesse conversar com qualquer personalidade, viva ou morta, quem você escolheria?

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