17.9.06

Não se pode julgar um livro pela capa fama

O Globo de hoje publicou uma matéria de página inteira (mais meia página de entrevista) com Aécio Neves, com direito a uma grande foto de forte conteúdo simbólico e os mais rasgados elogios ao candidato. Não seria arriscado dizer que o veículo já escolheu seu candidato pra 2010. Mas o que realmente me atraiu no texto foi uma passagem sem muito destaque:

Ao assumir o governo, em 2002, Aécio adotou uma máxima do mestre da ciência política, o florentino Nicolau Maquiavel: é preciso fazer todo o mal de uma vez só para que, provado em menos tempo, pareça menos amargo. Nos primeiros meses de gestão, ele adotou medidas impopulares em Minas. Enxugou a folha de pagamento, cortou cargos comissionados e reduziu o número de secretarias. Com uma receita simples, gastava apenas o que arrecadava, regra que o estado não cumpria havia dez anos. Para comemorar, fez um grande carnaval midiático e chamou a "façanha" de déficit zero.

O que me surpreendeu no trecho acima não foi a medida tomada pelo político mineiro, mas a adequada citação de Maquiavel. Na mídia e principalmente no senso comum, o escritor só costuma ser evocado como anti-exemplo ou má influência, o que é não apenas um erro, como um grande desserviço.

Considero O Príncipe parte de uma tríade de livros (os outros dois são A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e A Revolução dos Bichos, de George Orwell) que deveria ser lida o mais cedo possível, ou seja, assim que o entendimento de leitura da pessoa seja o suficiente para realizar a tarefa. A idade ideal seria entre 10 e 12 anos, quando a pessoa ainda não está voluntariamente inserida num contexto político (embora já esteja há muito imersa na ideologia que vai definir sua vida, seja por confirmação ou negação). Nessa idade, o leitor provavelmente vai encarar toda a situação como teórica, não-aplicável a si mesmo, o que o permite se colocar nas diversas posições apresentadas, olhar cada informação por diversos pontos de vista. Mais tarde, aí sim esse leitor realizaria uma segunda leitura, já com suas posições políticas amadurecidas e com o conhecimento histórico que lhe permitisse reconhecer citações e alegorias.

A idéia aqui é evitar o tipo de leitura viciada que as pessoas fazem dessas três obras. O Príncipe não é um livro que ensina o governante a ser mau e oprimir os governados. É, na verdade, uma obra que apresenta informações valiosas sobre as particularidades do ato (hábito?) de governar que, se apreendidas tanto por governantes quanto por governados, tornaria muito mais fácil o trato entre as partes, ou seja, a tal cidadania tão em falta por aqui.

Da mesma forma, fico espantado pelo fato de A Arte da Guerra ser divulgado como um tratado bélico, sendo vendido como livro de técnicas de administração. O lance aqui não é ganhar a briga, não é abater o oponente. A beleza do livro está em colocar de forma sucinta (e em alguns momentos poética) a natureza das relações de poder e de conflito com as quais o ser humano se depara a todo momento. A conclusão é que quase todo enfrentamento é precipitado e quase todo conflito é desnecessário. Nos dias atuais, um título como A arte da diplomacia seria mais justo ao conteúdo do livro.

A contaminação histórica é o principal problema na leitura de A Revolução dos Bichos. A revolução que se transforma em regime totalitário logo remete às experiências comunistas testemunhadas pelo autor. Mas o livro de Orwell não trata somente de uma única experiência histórica. Usando com maestria o recurso da fábula, o escritor conta uma história universal, atemporal, sobre o abuso da autoridade e os riscos (e tentações) que o poder oferece. Nesse sentido, é uma visão pessimista que complementa o utilitarismo de Maquiavel. Reduzir essa grande obra à mera alegoria ideológica é uma injustiça contra Orwell e contra a própria Literatura.

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