23.7.06

Pagando pra ver

Quando os multiplex multiplicaram, a fórmula do sucesso parecia óbvia. Com várias salas, os cinemas poderiam receber mais espectadores num intervalo de tempo menor, gerando mais lucro, mas administrando todo o conjunto de salas como um único prédio/instalação/complexo, diminuindo os custos. Teoricamente, passado o baque do investimento inicial, o cinema poderia cobrar menos e lucrar mais, batendo facilmente o então simples (ou duplo, no máximo) cinema de rua. Na prática não foi bem assim.

Geralmente instalados em shoppings, os multiplex usavam a desculpa do conforto do estacionamento e da segurança do prédio para aumentar o preço dos ingressos. Mas essas "vantagens" (na verdade, pré-requisitos na visão da classe média apavorada) são do próprio shopping, não do cinema. Mesmo o aluguel do espaço é mínimo para os cinemas se comparado (proporcionalmente) ao valor cobrado das outras lojas, pois um multiplex é chamariz de público e recebe muitos incentivos da administração dos shoppings.

Temos visto o preço dos ingressos aumentar em velocidade absurda nos últimos anos, sem que isso seja acompanhado de uma melhoria no serviço. Pelo contrário, o número de trailers passou de aconselháveis/agradáveis dois ou três para até oito trailers antes de um filme, o que esgota a paciência de boa parte dos espectadores. E agora vemos a proliferação de uma praga: anúncios comerciais no cinema.

Os comerciais da TV aberta podem ser encarados, na pior das hipóteses, como um mal necessário. Uma vez que o espectador não paga pelo conteúdo, é o dinheiro dos anunciantes que financia as produções televisivas. Óbvio que a empresa não patrocina um programa por amor à arte; ela espera que o círculo se feche com o espectador comprando o produto anunciado no intervalo de seu programa favorito. Por aí já dá pra sacar que esse raciocínio já fica estranho quando falamos de TV por assinatura. Se pago (caro) pelo conteúdo, porque ainda sou forçado a ver anúncios? No cinema, então, isso parece um absurdo. Mas é o que vem acontecendo.

O Cinemark, por exemplo, tem exibido cerca de cinco comerciais antes do filme, descontando o anúncio institucional e o aviso da seguradora do cinema (compreensíveis, portanto fora da conta). Se considerarmos os numerosos trailers, temos muito mais tempo que o mais demorado dos intervalos da TV aberta. Seria de se esperar que tamanha renda extra fizesse diminuir o preço do ingresso, mas eles continuam cobrando absurdos 17 reais (se juntar o dinheiro do ônibus, é o preço de compra do filme em DVD). Se só nisso a conta não fecha, coloque aí o extra que o cinema deve cobrar dos anunciantes pela garantia de que o anúncio será visto (ao contrário da TV, no cinema o espectador não pode mudar de canal - e ainda paga por isso) e por não existir nem o custo (financeiro e criativo) de fazer um novo anúncio, pois quase sempre são os mesmos comerciais veiculados na TV.

Encher uma sessão de cinema com anúncios é um ótimo negócio para os donos de cinema e para os anunciantes, sem dúvida. Quem sai perdendo é o público de cinema, claro, mas quem se importa com os espectadores? E daí que estamos pagando o triplo do que deveria ser o preço do ingresso pra ver anúncios que não queremos? O que importa é que cinema é a maior diversão, desde que você tenha dinheiro suficiente pra achar tudo isso divertido.