24.2.06

Você já viu isso antes

O que acontece quando uma série de animação inovadora vira um live-action em Hollywood? A resposta é Aeon Flux (ou "Æon Flux"), um filme sem identidade que fica no meio-termo; melhor que um filme de ação comum, mas nada surpreendente ou memorável.

Pra começar, um aviso importante: se você é fã xiita da série animada, NÃO vá ao cinema ver este filme. A versão cinematográfica lembra apenas vagamente a obra de Peter Chung, de modo semelhante ao que aconteceu em Constantine. Se o nome do personagem de Keanu Reeves fosse "Zé das Couves", o filme não seria ruim. Se pensarmos nele como uma adaptação, então ele é vergonhoso. O mesmo ocorre aqui, com o agravante da retirada de toda a temática original da série. Se você quiser mesmo ver esse filme, pense que o nome da protagonista é "Maria Futurista" e a decepção será menor.

Alguém pode ter estranhado a menção a filme de ação ali em cima, mas é isso mesmo. A "ficção científica" é apenas o pano de fundo, assim como foi em Minority Report, por exemplo. Mas ambos são mesmo filmes de ação. Outra característica interessante (não sei se "interessante" é bem a palavra) é justamente essa semelhança com outros filmes, por vários motivos. Já citei dois, e a lista só cresce até o fim do texto.

A Maria Futurista de Charlize Theron tem pouco a ver com a personagem do desenho da MTV, lembrando mais a personagem de Kate Beckinsale em Underwold e, obviamente, a Trinity de Matrix, a matriz de todas essas réplicas (desculpem, não resisti). Entretanto, ela também tem muito de Batman (o tradicional "você pisca e eu desapareço"), de Homem-Aranha (o jeito de escalar paredes e mergulhar de lugares altos parece decalcado do filme do Amigão da Vizinhança), misturados com muito Cirque du Soleil (depois descobri que a Charlize realmente teve aula de saltos com eles) e até um pouco do mestre Chuck Norris (ela solta uns Roundhouse Kicks a torto e a direito no decorrer do filme). Seria mais interessante se tentassem emular o padrão de movimento da personagem animada, que era bem específico e não "lembrava" outros personagens.



A ligação entre o original e adaptação, por sinal, é sempre problemática. A começar pela cena inicial, uma tentativa constrangedora de transportar para o cinema a famosa vinheta em que Aeon captura uma mosca com os cílios. Enquanto a semelhança do olho com uma planta carnívora na vinheta serve perfeitamente pra passar a idéia do quanto a personagem é letal, a versão filmada parece mostrar alguém que tem cola no olho. A sensação geral no cinema foi de estranheza. Acho que algumas pessoas tiveram a impressão de que a Charlize iria comer a mosca.

A pseudo-FC é a seguinte: em 2011, uma doença (Gripe do Frango?) extermina 99% da população mundial. A cura é descoberta por um cientista chamado Trevor Goodchild, que se torna o líder da população restante. 400 anos depois, cinco milhões de pessoas vivem isoladas do mundo exterior na última cidade humana, Bregna, considerada o paraíso, exceto por alguns "probleminhas". Alguns cidadãos estão desaparecendo, quase toda a população tem sonhos estranhos e a "Dinastia Goodchild" finge que nada acontece. Contra o governo estão os monicanos, um grupo paramilitar (terrorista?) contrário a um Estado que tudo vê e tudo pode, porém nada faz pelos cidadãos. A premissa não é ruim, certo? Poderia render um filme anárquico e tudo mais, não é? Mas fica só nisso mesmo.

Alguns conceitos são até mostrados de forma eficiente, como os bioimplantes (que parecem ter os mesmos efeitos da picada de uma aranha geneticamente modificada) e uma sala secreta onde se entra ao mudar o comprimento de onda da sala comum. Os cenários também são lindos, tudo muito mudernoso, apesar de meio asséptico demais, lembrando um pouco A Ilha (e as semelhanças com esse filme horrível não param por aí). Mas isso não salva o filme, principalmente a segunda metade.



Pra não dizer que não falei de flores, existe uma personagem que tem mãos no lugar dos pés e é bem divertida. No desenho, ela era chamada de Scaphandra, mas no filme o seu nome é Sithandra (Sith-andra?), talvez como homenagem a Star Wars, sei lá. Vale também a curta participação da fofinha Amelia Warner, que faz Una, a irmã de Aeon. Sim, ela tem irmã, o Trevor Goodchild também tem um irmão. Sim, é uma idéia idiota, mas a Una é legal!

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Um dos grandes charmes de Aeon Flux era a relação completamente ambígua entre ela e o Trevor. Uma hora eles eram inimigos, outra hora amantes, às vezes os dois. No filme, isso é jogado fora. Primeiro eles são inimigos, depois amantes. E só. Aliás, esquece o "amantes". O sexo (como imagem e como idéia) é quase inexistente no filme e a única relação existente é tão asséptica quanto os cenários.

Além do sexo, o próprio Goodchild foi "sacrificado", perdendo toda a sua personalidade de cientista (louco?) narcisista com toques de vilão de James Bond. No filme ele é um bonzinho humanista e todo o lado mau foi jogado no irmão, criando dois estereótipos que somados não dão nem um personagem razoável.

A outra semelhança com A Ilha está no plot sobre clones que sonham com memórias do original. Mas isso é muito mal utilizado tanto lá quanto cá. A questão da clonagem ainda deixa uma situação mal explicada; se Trevor e o irmão estiveram se clonando esse tempo todo, então o governante de Bregna sempre se chamou "Trevor"? Tipo, sete gerações com o pai chamando o filho de Trevor não parece algo meio insano? Ou será que a população sabia que os irmãos Goodchild eram clones e só não sabiam que eles clonavam todo mundo? Se for assim, será que alguém nunca pensou "por que eles não clonam mais ninguém"?

As "homenagens" a filmes conhecidos também incluem Missão Impossível, Jurassic Park, Matrix (acho que essa é bem óbvia, só faltou dizer "Guns. Lots of guns."), MIB e algo de O Quinto Elemento no clima de algumas cenas. O filme segue tanto o padrão hollywoodiano que termina em uma narração que te dá a "moral da história" caso você tenha dormido a maior parte do filme. Só serviu mesmo pra dar saudades do Liquid Television...

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