20.1.06

Planetary in Rio



Antes de tudo, você já leu Planetary?
A série é escrita por Warren Ellis e desenhada por John Cassaday e tem a famosa periodicidade "sai quando der", o que significa 24 edições de 1999 pra cá. Resumidamente, a série é uma ficção científica que mostra uma equipe encarregada de descobrir, vigiar e proteger os mistérios do mundo. Basicamente, eles são um Anti-Arquivo-X, mas trabalhando em escala (adivinhe só!) planetária.

Planetary é o que se pode chamar de "caldo cultural", misturando ficção científica clássica, pulps, comics, cinema, teorias físicas e metafísicas e personagens cheios de atitude cool com um passado obscuro. Entretanto, não é uma série pop como outras que você tem lido. Você não vai ver os personagens citando filmes ou seriados da moda, ou falando de pessoas famosas da atualidade. As referências da série (e acredite, são muitas) estão mais profundamente inseridas, vindo à tona principalmente na segunda ou terceira leitura. Sim, porque cada edição de Planetary pede pra ser lida várias vezes, de preferência com pausas para reflexão entre elas. Pior (melhor) ainda, as edições seguintes afetam a leitura das anteriores retroativamente. Assim, cada vez que sai uma nova edição, lá vai o leitor ler toda a série de novo.

E a nova edição em questão é a número 24. Uma versão em português já está disponível no Rapadura Açucarada, feita por Eudes e Shadowboss e com minha humilde tradução, mas você também pode baixá-la aqui (abre um pop-up chato de anúncio quando começa o download, mas é só fechar). Entretanto, méritos da tradução à parte, recomendo (pra quem souber, claro) a leitura em inglês, pois o Ellis é ótimo na escolha das palavras e muitos dos sentidos se perdem na mudança de idioma.

Essa revista é especial por vários motivos. O mais importante, essa é a primeira edição que apresenta ao leitor mais respostas que perguntas. Exato, a única em 24 edições a ter mais revelações do que novos mistérios, o que não deixa de ser surpreendente quando pensamos em Planetary. O motivo da natureza diferente da história e outra razão por ela ser especial é que essa é uma edição de virada, uma última oportunidade de pegar fôlego antes do pega pra capar do arco final (a série deve acabar na edição 26 ou 27).

Por último, a história se passa inteiramente no Rio de Janeiro, onde fica o escritório brasileiro do Planetary, ou melhor da "organização planetário". E (vejam que surpresa!) a cidade não parece a Floresta Amazônica. Pelo contrário, parece que houve um bom trabalho de pesquisa de imagens por parte do ótimo Cassaday e o Rio de Planetary é mais realista que muitos Rios retratados por brasileiros. Mesmo o prédio fictício da organização, em formato de bala e extremamente fálico, parece maravilhosamente apropriado à cidade.

Aliás, é interessante ver a evolução da arte de John Cassaday desde as primeiras edições de Planetary. Como a arte foi puxando mais pro realismo sem perder o estilo (coisa que me desagrada no estilo foto-realístico do Brian Hitch em Supremos, por exemplo; o cara era muito melhor em Authority!). Sabe aquela arte que deixa todos babando em Astonishing X-Men? Pois aqui ele desenha a mesma arte sensacional, mas com um roteiro à altura. A começar pela capa, sempre uma obra de arte, dessa vez replicando um dos Guias Planetary, justificada não somente pela natureza reveladora da edição, como também porque a maior parte da ação se passa em uma das bibliotecas de Elijah Snow, que contém muitos guias similares.

Sobre a história em si, ela trata basicamente de pôr as cartas na mesa. Snow se reúne com seus dois operativos numa conversa em que todas as teorias que ele desenvolveu nas ultimas edições são enfim verbalizadas, não sem um certo receio, o que provoca cenas hilárias do Snow saindo da conversa através de comentários que beiram o absurdo. Graças a isso, a história que poderia ser pesada, acaba alternando momentos de grandes revelações, piadinhas e a boa e velha atitude cool, que ainda está lá, porém misturada com uma certa dose de vendetta, como nesta cena. Entre as revelações, as verdadeiras intenções por trás do exílio de Jacob Greene e a tortura de William Leather, o que Snow descobriu na psicodélica viagem na casa da Melanctha e a natureza da rivalidade entre o Planetary e os Quatro, com direito ao Snow fazendo pouco da famosa frase de efeito da série. A ação tarda mas aparece, menos que o normal, e é claro que sobra pros brasileiros, coitados. No último quadrinho, um sorriso enigmático deixa tudo ainda mais incerto (não há nada que deixe um leitor mais ansioso pela próxima edição do que terminar a história com um sorriso enigmático).

Por fim, a guerra é declarada, agora é ver quem vai sobrar de pé (se é que vai sobrar alguém). E justamente quando muitas das peças se encaixaram, foi revelado que o quebra-cabeças era maior do que imaginávamos, com o surgimento de novos mistérios ainda mais intrigantes, o que me leva a perguntar: como o Ellis vai resolver isso tudo de forma coerente em duas ou três edições?

Não sei a resposta, mas essa é justamente a graça de Planetary.

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