13.12.06

É possível (?)

Somos um país rico, repleto de potencialidades. À diferença de outras nações, o Brasil dispõe de recursos que nos permitem virar a página do passado e entrar numa era de bem-estar. Não temos o engessamento das estruturas sociais do mundo desenvolvido do Norte, por isso dispomos de melhores condições de mudar.

Não padecemos a pobreza da maior parte dos países africanos, com isso temos recursos para enfrentar a pobreza e a desigualdade.

O Brasil é o quinto país em extensão territorial e em população no mundo. Temos 14% da água doce do planeta e grandes extensões de terras agricultáveis. Com riqueza do solo, fartura da água e abundância de sol, podemos ser o celeiro do mundo, além de alimentar bem nossa gente. Somos ricos em reservas de ferro, manganês, ouro e diversos outros minérios.

Temos uma renda nacional de cerca de 2 trilhões de reais por ano, 5% da renda mundial; uma indústria com capacidade para produzir tudo aquilo de que o Brasil precisa para competir, no campo internacional, em diversos setores. Temos um perfil de ciência e tecnologia com bom potencial de crescimento.

Somos um dos países mais bem aquinhoados em energia. Depois de 50 anos de sistemáticos investimentos, obtivemos a auto-suficiência de petróleo, ainda que por algumas décadas. O Brasil é o país que detém a mais avançada tecnologia de exploração de petróleo e gás em águas profundas. Conhecemos, como poucos, a tecnologia para produção de biocombustíveis. Já iniciamos experiências importantes na exploração de energias alternativas, como a eólica e a solar. E temos a possibilidade de ampliar a exploração da energia nuclear, quando puder ser produzida com segurança.

Nossa matriz energética, diferente da maior parte dos países emergentes, é fundada majoritariamente em energia renovável e não-poluidora.

Temos 4 milhões de jovens no curso superior; classe operária organizada; sociedade civil participante; moeda estável, pela primeira vez em décadas; plena liberdade democrática; imprensa livre. É pouco para um país rico como o nosso, mas é bastante como base para criar um Brasil diferente.


O trecho acima está no programa de governo do ex-candidato Cristovam Buarque. O texto ressalta o imenso potencial do país, tentando mostrar que é possível sair do buraco. Entretanto, é inevitável pensar em outra questão a partir do trecho: com todos os aspectos positivos apontados, como ainda estamos no buraco?

O otimista programa de governo considera que a culpa do atraso é de decisões ruins em momentos-chave de nossa história. O pessimista que vos escreve acredita que a culpa é do caráter das pessoas, lembrando uma velha piadinha sobre o assunto.

Entretanto, mesmo um pessimista há de reconhecer o grau de esclarecimento do programa de governo do ex-candidato. Apesar de assumidamente otimista, não há planos mirabolantes e tudo é proposto de forma equilibrada. Uma coisa muito interessante ao ler o programa é notar como as medidas propostas abrangem todos os lados de um mesmo problema. Por exemplo, ao imaginar as conseqüências de determinada medida de educação, combinada com outra de trabalho, é quase natural visualizar uma conseqüência para a área de habitação, que efetivamente aparece no programa quando se menciona o assunto.

É como acompanhar a montagem de um gigantesco quebra-cabeça barroco: no início tudo parece muito pequeno, confuso e de eficácia duvidosa, mas aos poucos é possível perceber que com um número suficiente de peças estratégicas em lugares estratégicos, as outras encaixam naturalmente nos lugares certos.

A opção de considerar a educação como peça estratégica é mais do que compreensível, é óbvia. O efeito bola de neve da educação em todas as outras atividades de um país é evidente a médio e longo prazo. O olhar a longo prazo é visível não somente nas metas que chegam a 2022, mas no fato de declarar a continuidade de iniciativas eficientes de governos anteriores e mesmo do atual, demonstrando um grau de maturidade política raro por aqui (ainda mais se lembrarmos que estamos falando do brizolista PDT).

A população em geral não acreditou na opção proposta pela candidatura de Cristovam Buarque. Mas seu programa de governo é um ótimo parâmetro para a avaliação do governo federal nos próximos anos. O texto completo, grande mas muito interessante, pode ser baixado aqui.

17.11.06

Cuidado! Obras!

Como os poucos infelizes a passar por aqui (sim, tem gente que lê isso aqui, o meu contador prova que vocês estão aí) já devem ter percebido, o EQF está passando por algumas mudanças. O culpado é a Google, que, como parte dos seus planos de dominação mundial [inserir risada maligna de sua preferência], comprou o Blogger e inventou o tal de Blogger beta.

Pra quem ainda não sabe, o Blogger beta é igualzinho ao Blogger antigo, só tem uma linguagem mais complicada que permite algumas firulas que não eram possíveis antes. O custo disso é apenas sacrificar o antigo layout e perder madrugadas pra personalizar um blog inteiro novamente.

Assim como o Blogger, esse novo visual também é "beta", portanto pode ser modificado, reformulado ou mesmo sacrificado a qualquer momento. O Haloscan, por exemplo, coloquei fazendo uma gambiarra que surpreendentemente deu certo. É bacana por manter os comentários antigos, mas talvez suma num futuro próximo.

Aproveito a reforma pra aplicar tags/labels/rótulos/categorias (ou seja lá como você chama isso) a todos os textos antigos, entre outros pequenos consertos. E, falando em consertos, também vejo muitos erros que deixei passar antes e estou ajeitando os mais graves, apesar da minha política de alterar o mínimo possível textos passados.

E alguns avisos chatos. Links antigos não levam a lugar nenhum agora; provavelmente eles ficarão assim (nada dura para sempre, o tempo destrói tudo, entropia, etc.). As mudanças que fiz no template geraram a aparência desejada no Firefox e no Opera; não sei o resultado no Safari (Castrezana, are you there?); no Internet Explorer, o layout aparece defeituoso. Se algum usuário do IE souber como mudar isso sem estragar a aparência nos outros navegadores, é só avisar. Caso contrário, mudem para um navegador decente; é um favor que vocês fazem a si mesmos.

Se alguém está recebendo diversos avisos de atualizações pelo RSS/Atom, é porque estou aplicando as tags em posts antigos. Ignorem ou aproveitem para ler os textos que ainda não leram; garanto que são bem melhores que os atuais, o que parece ser uma tendência (culpa da entropia, acho).

26.10.06

dPod

Então você curte gadgets de custo astronômico e séries de animação impopulares? Você não é o único. Um maluco de um fórum sobre Daria (é, existe tal coisa) fez uma versão do famoso anúncio do iPod incluindo personagens do desenho. Confira abaixo os cartazes e o vídeo:




21.10.06

Uma imagem vale mais que mil palavras

(...se você for nerd o suficiente pra decodificá-la)

Thank you, Warren Ellis.

14.10.06

Terrorismo eleitoral

Durante a campanha presidencial de 2002, o PT marqueteiro (remember "Lulinha Paz e Amor") lançou a frase de efeito "a esperança venceu o medo". Com uma idéia simples, a frase explanava o engodo emocional usado por muitos partidos e candidatos de situação, ao tentar conseguir votos provocando/alimentando o medo de mudança no eleitor.

O modo mais fácil era dizer que a candidatura do novo, do desconhecido, era um risco, que o candidato-alvo, se eleito, rasgaria a Constituição e que o céu cairia sobre nossas cabeças. A natureza humana e o medo instintivo do desconhecido faziam o resto.

"A esperança venceu o medo" é ótima, pois não serviu apenas para ajudar um candidato ou partido, mas também ajudou a desconstruir ideologicamente esse tipo de bravata apelativa e manipuladora. Dali por diante, imaginei, ninguém mais iria praticar esse tipo de terrorismo eleitoral.

2006. A nova frase de efeito é "não troco o certo pelo duvidoso". O PT, agora na situação, mostra que não aprendeu (ou esqueceu deliberadamente) a lição dada por si mesmo anos antes e retoma, com gana jihadiana, o terrorismo eleitoral. O novo/desconhecido volta a ser uma ameaça. O governo atual pode não ser grande coisa, mas a alternativa é aparentemente catastrófica, segundo a propaganda petista. O candidato da oposição vai tomar o dinheiro dos pobres, vai privatizar até a pia da cozinha do congresso, vai vender o país e ainda embrulhar pra presente. Tudo isso é possível porque ele é o outro, o inédito, portanto capaz das maiores atrocidades.

Causa revolta não apenas esse vale-tudo capaz de inverter a ideologia eleitoral de um partido simplesmente pela busca da manutenção do poder (do qual a propaganda é apenas uma das facetas), mas também a própria esquizofrenia do discurso. Se em dado momento, Alckmin é vendido como o perigo indecifrável, em outros é vantajoso para o PT ligar o candidato ao governo exercido por seu partido no passado. Somente às medidas ruins desse governo, diga-se de passagem, pois as boas medidas foram apropriadas pelo atual governo, como se dele fossem e só nele tivessem sido exercidas. Apontar a contradição desse discurso, entretanto, automaticamente transforma qualquer pessoa na "elite conspiratória/golpista" que, segundo os xiitas eleitorais, são cães infiéis que merecem ir pro inferno.

13.10.06

Filho não é propriedade

Uma notícia publicada nO Globo de 6 de outubro tinha como título "Maus-tratos a netos levam a avó a denunciar a própria filha à polícia". O texto falava de uma senhora de 74 anos que denunciou a filha, uma médica de 43 anos, após saber do mais recente ato de violência praticado contra os dois netos, de 10 e 15 anos: um deles teve a mão queimada no fogão, o outro foi agredido com cabo de vassoura.

O repórter creditou a ação da avó (denunciar a filha) ao "amor pelos netos". Seria melhor se o agente causador fosse a noção de justiça. A atitude "inusitada" da notícia (uma mãe que entrega a filha pra polícia) só causa espanto no leitor por essa noção deturpada de que laços familiares estão acima da justiça e da lei, portanto, acima da própria idéia de sociedade.

Uma das lições mais óbvias da sociedade contemporânea é que os filhos devem ser criados para o mundo, não para seus próprios genitores. Pais são pessoas que devem se esforçar para criar um ser humano melhor que eles mesmos, não uma cópia de si, nem uma criatura capaz ter a vida sonhada por seu criador. Teoricamente, a diferença entre cada genitor está naquilo que cada um considera ser "um ser humano melhor". Pessoas diferentes educam outras pessoas diferentemente, nada mais natural.

O problema é que muitos pais pensam em filho como "uma pessoa só minha", um pensamento injusto e perigoso, que é compartilhado pelo senso comum. Isso daria aos genitores poderes fora de qualquer cartilha de direitos humanos ou convenção de genebra, tornando essas pessoas autoridades absolutas quanto ao destino de uma pessoa ainda incapaz de agir na sociedade por si mesma, podendo inclusive negar o direito à liberdade e à vida. Não é incomum ver, mesmo nos dias de hoje, mesmo nas cidades ditas cosmopolitas, a omissão geral das autoridades diante de situações de abuso infantil que são consideradas apenas "assuntos de família".

Da mesma forma, o senso comum espera que entre pais e filhos ocorra uma situação de sigilo e cumplicidade que ultrapassa qualquer noção de bom senso, ocultando abusos, infrações e crimes (até hediondos), numa situação de permissividade que beira o absurdo e que explica muitos casos de impunidade e "tragédias" recentes.

A família, entendida na relação nuclear de transmissão de conhecimentos, valores e experiências entre dois seres humanos, é a principal base de formação de qualquer ser humano. E só. Os laços de sigilo e fidelidade dogmáticos que envolvem a "instituição" Família trazem invariavelmente um grande prejuízo para o ser humano em formação e, conseqüentemente, para a sociedade como um todo. Somente cortando esse cordão umbilical invisível teremos relações mais equilibradas, sensatas, saudáveis e socialmente coerentes entre as gerações.

6.10.06

Jornalismo do arco-íris



A chamada acima parece piada, não? Coisa do Casseta & Planeta, talvez um boato do Cocadaboa? Mas o texto é real e está na capa do jornal O Globo de hoje.

O título é justificável pelo desejo de surpreender o leitor com o inusitado, o problema é que nesse caso a leitura desatenta cria uma situação no mínimo... suspeita.

Em outros tempos, chamariam isso de imprensa marrom. Pela natureza da notícia, está mais pra imprensa arco-íris. Depois chamam os jornalistas de safados e a classe fica ofendida. Somos uns safados mesmo!

2.10.06

Quanto mais as coisas mudam...

Os noticiários pós-eleição destacam a renovação de boa parte das cadeiras do congresso. Entretanto, velhos conhecidos, como Maluf e Collor, estão de volta, e os novatos incluem Clodovil e Frank Aguiar (Au!).

No Rio, a renovação da política mostra novas caras com velhos sobrenomes. A atividade política deixa de ser vocação e vira legado. Deixa de ser ocupação temporária e vira (cabide de) emprego.

Nas eleições majoritárias, meus candidatos levaram trozoba. Agora, no segundo turno, resta decidir pelo menos pior, um desgosto necessário. Ao menos nas votações proporcionais meus candidatos foram bem. Pena que estão em péssima companhia.

Pra quem quiser verificar a votação e os eleitos para cada cargo, com divisão de estado e município, uma boa opção é a página do Estadão. Dica do Castrezana.

30.9.06

Sol no domingo

Pensei em fazer um comentário final antes da eleição, mas preferi colocar aqui o ótimo texto do jornalista Luiz Garcia cujo título foi reproduzido acima e o conteúdo, abaixo. O texto foi publicado no jornal O Globo de ontem.

Gostaria de expressar os meus melhores votos de que os seus também o sejam.

Melhores, por exemplo, do que os de quem vota só com raiva. Ou sem raiva alguma.

Tanto quanto uma dose razoável de esperança, sangue-frio, um tanto de indignação cívica pode ajudar bastante o eleitor em suas escolhas. Os eleitores veteranos sabem disso. Quantas vezes você, votante velho de guerra, acreditou em quem parecia fiel intérprete de suas esperanças &mdash e depois pagou com moeda falsa a confiança depositada?

Não é por acaso que o carioca já andou votando em macacos e rinocerontes &mdash mas o caminho mais sensato não parece ser esse. Afinal, o protesto deliberado representado pelo voto em Tião ou Cacareco (para os imberbes: Cacareco era o rinoceronte) é tão desperdiçado quanto aquele no candidato que não presta.

Claro, todo voto é uma aposta. Mas a escolha não precisa ser aleatória como a das dezenas num boleto da Sena. Mesmo o candidato de primeira viagem carrega nas costas alguma bagagem visível de virtudes e defeitos. Cabe ao eleitor fazer força para conhecê-la. Além disso, o próprio comportamento durante a campanha produz uma variedade de pistas sobre como agirá o postulante quando exercer o mandato que nós lhe dermos.

A relação eleitor-candidato lembra um pouco a nossa vida sentimental. Moças e rapazes têm todo o tempo do namoro para saberem com quem estão lidando, antes de dar o passo decisivo. E errar na escolha não será razão para alguém virar eremita e se esconder em cavernas pelo resto da vida. Quanto mais não seja porque o Brasil não tem tantas cavernas assim.

No processo eleitoral, a caverna é o voto nulo ou o voto em qualquer um. Descartadas essas opções do desespero ou do desencanto, resta ao cidadão a decisão óbvia de procurar acertar; quando errar, tentar aprender com o erro.

Votar no candidato certo também não é sinônimo de votar em quem será certamente eleito. Muitos políticos que se revelaram bons representantes precisaram de mais de uma tentativa para chegar lá. Às vezes, o voto paciente é boa decisão.

Última meditação: principalmente nas eleições legislativas, nas quais os candidatos são multidão, é imprudente decidir com base apenas na propaganda gratuita em rádio e TV. Nela, os partidos costumam dar mais exposição aos puxadores de voto e a quem leva dinheiro para os cofres da campanha. Não é muito inteligente fazer a escolha privilegiando os que têm mais tempo no ar e descartando a legião dos coitados que mal conseguem dizer nome e número.

Esse tipo de campanha, ao contrário do que pensou quem a instituiu, faz muito pouco para democratizar a disputa. Para o eleitor atilado, serve apenas para ajudá-lo a decorar os números de candidatos já escolhidos.

Então, é isso aí: vamos lá, com muita convicção, bastante indignação, um tanto de esperança.

Quem sabe, faz sol neste domingo.

Frase do dia

"Se você e eu organizássemos agora um 'Fundo Nacional para Jornalistas Ferrados', pode apostar que, na mesma hora, ia ter alguém, em algum lugar do país, procurando um jeito de desviar o dinheiro." - João Ubaldo Ribeiro

29.9.06

Alckmin, sem saber, compra voto por 50 reais

A frase acima poderia ter sido o título do pequeno box publicado nO Globo de hoje que contou episódio pitoresco da passagem de Alckmin pelo Rio ontem (o candidato veio para o debate televisivo). O título mais ameno ("A loteria que deu sorte ao vendedor") foi pura bondade do jornal.

Resumidamente, um vendedor de bilhetes de loteria pretendia vender ao candidato um caro bilhete (de natureza não-especificada) cujo número terminava com a data de nascimento do tucano: 1952. Alckmin comprou o bilhete (por R$ 50,00!) e ouviu a resposta do vendedor (que encerra o box do jornal):

&mdash O senhor acaba de ganhar o meu voto. Mete bronca no debate, doutor!

Obviamente, não houve uma compra intencional de voto por parte do candidato. Mas o vendedor disse abertamente (e diante do candidato) que vendeu o seu voto, declaração que não foi contestada por Alckmin. Pior ainda é omissão do jornal, ao não alertar que a venda de voto, mesmo que involuntária como no caso em questão, é crime eleitoral.

24.9.06

A ajuda que atrapalha

Um dos poucos políticos que admiro é o deputado Fernando Gabeira, não por seu passado de militância e sua defesa da legalização das drogas, como acredito que aconteça com a maioria dos eleitores gabeirenses, mas por seu combate à corrupção (mais precisamente, aos corruptos) e sua defesa do uso dos recursos ambientais de forma racional e sensata (ou, no dialeto marqueteiro, "sustentável").

A censura direta e aberta ao ex-presidente da câmara foi um dos únicos momentos da última legislação em que me senti realmente representado por um representante. Quando todos os demais parlamentares pareciam entorpecidos, Gabeira incorporou a indignação que a classe política e a população em geral deveriam demonstrar com maior freqüência.

Por tudo isso, é ainda mais estranho ver uma revista como a Veja fazer uma reportagem de capa elogiando o deputado/candidato. É o tipo de "apoio" que não parece muito vantajoso do ponto de vista ético. Dizer que é apoiado pela Veja parece algo tão desejável ao Gabeira quanto o Lula dizer que recebe o apoio do ex-presidente Collor. Ou seja, por mais que a revista semanal possa ser uma força geradora de votos, dificilmente ter a imagem atrelada a um veículo tão tendencioso pode ser visto como algo positivo a alguém com convicções morais tão firmes.

Por melhor que seja o histórico do político, fica sempre a impressão de que alguém elogiado por esse tipo de publicação não pode ser alguém digno de voto. A solução é uma afirmação com uma observação obrigatória: voto no Gabeira, apesar da Veja.

18.9.06

A cara-de-pau dos publicitários

Depois de romper com a agência publicitária de Marcos Valério, o Banco do Brasil abriu nova licitação para contratar duas novas agências. A novidade é que um dos critérios de escolha é o preço do serviço (medida sensata que deve ser seguida por outras empresas públicas). Segundo O Globo de ontem, as agências publicitárias tiveram a ousadia de reclamar, dizendo, entre outras coisas, que "temem que o preço acabe se sobrepondo ao talento".

Esse raciocínio simplista (pra não dizer "idiota") não leva em consideração uma série de aspectos um tanto óbvios:

a) O principal, o dinheiro que o BB gasta em publicidade é público, ou seja, é meu, seu, nosso. Por isso, nada mais justo que controlar os gastos, evitando o que puder ser evitado. Agências que cobram preços absurdos por um trabalho que outras poderiam fazer cobrando menos certamente é algo que pode ser evitado;

b) As empresas públicas não são a maioria dos clientes publicitários, nem os principais. Empresas privadas podem reservar o percentual que bem entenderem de sua receita e fazer quantos contratos publicitários de cifras astronômicas quiserem. Ou seja, a decisão não afeta o mercado de anunciantes como um todo, só fecha a torneira do dinheiro público que escorria ralo publicitário abaixo;

c) Tudo é mais fácil pra quem tem mais dinheiro. É fácil fazer um anúncio cheio de gente famosa e efeitos especiais quando a agência está montada na grana. Difícil é fazer um bom anúncio com poucos recursos. Para o bom profissional, a limitação orçamentária passa a ser um desafio e um incentivo. O mau profissional vive do passado, lucrando em cima da própria fama.

Já esperava essa palhaçada dos publicitários e marqueteiros. Surpreendente mesmo é o fato de só agora as empresas públicas começarem a prestar atenção em como gastam o dinheiro da população.

17.9.06

Não se pode julgar um livro pela capa fama

O Globo de hoje publicou uma matéria de página inteira (mais meia página de entrevista) com Aécio Neves, com direito a uma grande foto de forte conteúdo simbólico e os mais rasgados elogios ao candidato. Não seria arriscado dizer que o veículo já escolheu seu candidato pra 2010. Mas o que realmente me atraiu no texto foi uma passagem sem muito destaque:

Ao assumir o governo, em 2002, Aécio adotou uma máxima do mestre da ciência política, o florentino Nicolau Maquiavel: é preciso fazer todo o mal de uma vez só para que, provado em menos tempo, pareça menos amargo. Nos primeiros meses de gestão, ele adotou medidas impopulares em Minas. Enxugou a folha de pagamento, cortou cargos comissionados e reduziu o número de secretarias. Com uma receita simples, gastava apenas o que arrecadava, regra que o estado não cumpria havia dez anos. Para comemorar, fez um grande carnaval midiático e chamou a "façanha" de déficit zero.

O que me surpreendeu no trecho acima não foi a medida tomada pelo político mineiro, mas a adequada citação de Maquiavel. Na mídia e principalmente no senso comum, o escritor só costuma ser evocado como anti-exemplo ou má influência, o que é não apenas um erro, como um grande desserviço.

Considero O Príncipe parte de uma tríade de livros (os outros dois são A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e A Revolução dos Bichos, de George Orwell) que deveria ser lida o mais cedo possível, ou seja, assim que o entendimento de leitura da pessoa seja o suficiente para realizar a tarefa. A idade ideal seria entre 10 e 12 anos, quando a pessoa ainda não está voluntariamente inserida num contexto político (embora já esteja há muito imersa na ideologia que vai definir sua vida, seja por confirmação ou negação). Nessa idade, o leitor provavelmente vai encarar toda a situação como teórica, não-aplicável a si mesmo, o que o permite se colocar nas diversas posições apresentadas, olhar cada informação por diversos pontos de vista. Mais tarde, aí sim esse leitor realizaria uma segunda leitura, já com suas posições políticas amadurecidas e com o conhecimento histórico que lhe permitisse reconhecer citações e alegorias.

A idéia aqui é evitar o tipo de leitura viciada que as pessoas fazem dessas três obras. O Príncipe não é um livro que ensina o governante a ser mau e oprimir os governados. É, na verdade, uma obra que apresenta informações valiosas sobre as particularidades do ato (hábito?) de governar que, se apreendidas tanto por governantes quanto por governados, tornaria muito mais fácil o trato entre as partes, ou seja, a tal cidadania tão em falta por aqui.

Da mesma forma, fico espantado pelo fato de A Arte da Guerra ser divulgado como um tratado bélico, sendo vendido como livro de técnicas de administração. O lance aqui não é ganhar a briga, não é abater o oponente. A beleza do livro está em colocar de forma sucinta (e em alguns momentos poética) a natureza das relações de poder e de conflito com as quais o ser humano se depara a todo momento. A conclusão é que quase todo enfrentamento é precipitado e quase todo conflito é desnecessário. Nos dias atuais, um título como A arte da diplomacia seria mais justo ao conteúdo do livro.

A contaminação histórica é o principal problema na leitura de A Revolução dos Bichos. A revolução que se transforma em regime totalitário logo remete às experiências comunistas testemunhadas pelo autor. Mas o livro de Orwell não trata somente de uma única experiência histórica. Usando com maestria o recurso da fábula, o escritor conta uma história universal, atemporal, sobre o abuso da autoridade e os riscos (e tentações) que o poder oferece. Nesse sentido, é uma visão pessimista que complementa o utilitarismo de Maquiavel. Reduzir essa grande obra à mera alegoria ideológica é uma injustiça contra Orwell e contra a própria Literatura.

10.9.06

Frase do dia

"Um país que tem algo escrito em sua bandeira não tem direito a ter analfabetos." - Cristovam Buarque (publicada n'O Globo de hoje)

7.9.06

Sobre o voto nulo

O tal "voto-nulo" sempre é mencionado como uma entidade mítica, capaz de fazer milagres e varrer do país os corruptos que nós, eleitores omissos, negligentes e preguiçosos, deixamos ocuparem os cargos públicos.

Vejo por aí muitas dúvidas sobre a possibilidade do voto-nulo de anular as eleições de forma intempestiva em sua fúria divina com trombetas tocando ao fundo. Pra tentar esclarecer isso, nada melhor que o FAQ de quem dita as regras das eleições, o TSE:

15. Se mais de 50% dos votos forem nulos ou anulados, faz-se nova eleição?

Esse questionamento, relacionado à interpretação do art. 224 do Código Eleitoral, terá respostas distintas, conforme a ocorrência das seguintes situações:

a) Votos anulados pela Justiça Eleitoral:
Se a nulidade atingir mais da metade dos votos, faz-se nova eleição somente quando a anulação é realizada pela Justiça Eleitoral, nos seguintes casos: falsidade; fraude; coação; interferência do poder econômico e desvio ou abuso do poder de autoridade em desfavor da liberdade do voto; emprego de processo de propaganda ou captação de sufrágios vedado por lei.
A nova eleição deve ser convocada dentro do prazo de 20 a 40 dias.

b) Votos anulados pelo eleitor, por vontade própria ou por erro:
Não se faz nova eleição. Segundo decisão proferida no Recurso Especial nº 25.937/2006, os votos anulados pelo eleitor, por vontade própria ou por erro, não se confundem com os votos anulados pela Justiça Eleitoral em decorrência de ilícitos. Como os votos nulos dos eleitores são diferentes dos votos anulados pela Justiça Eleitoral, as duas categorias não podem ser somadas e, portanto, uma eleição só será invalidada se tiver mais de 50% dos votos anulados somente pela Justiça Eleitoral.

Pra quem duvida, confira o FAQ no site do TSE.

Se isso é justo ou não, é algo a ser discutido. Mas é a regra que vale para essas eleições, queiram os partidários da divindade voto-nulo ou não.

Muitos sites por aí, por desconhecimento ou má-fé, apresentam os vários poderes sobrenaturais do voto-nulo, inclusive a nada confiável Wikipédia em língua portuguesa (pelo menos até o "fechamento" deste texto).

Pela interpretação do TSE, o voto voluntariamente anulado não representa mais uma recusa ao sistema (e há muito já não representava uma recusa aos candidatos), mas simplesmente um não-voto, a ausência do voto, equiparando seu valor político ao do voto branco (que é zero, já que este já perdeu seu peso político desde 1997).

Resumindo, agora nós temos uma eleição à prova de anarquistas eleitorais. Acredito que ainda seja vulnerável a um anarco-terrorista estilo V, mas aí já é outra história. O que interessa aqui é como ele afeta a eleição em geral.

O efeito do voto nulo é sentido principalmente nas eleições proporcionais, aquelas com muitas vagas, candidatos a perder de vista e umas regras estranhas que ninguém entende. E é exatamente aí que mora o perigo. Os partidos ocupam as cadeiras de acordo com a sua votação e com o tal "quociente eleitoral" (um número mágico com poderes tão incríveis quanto a divindade voto-nulo). Sem entrar nos cálculos chatos, quanto maior o número de votos válidos, maior o quociente eleitoral; quanto maior o quociente, mais votos um candidato precisa obter pra se eleger.

Vamos ao exemplo:
"Lá em cima temos os campeões de votação, os caras das cabeças, os que conseguem votos pra se eleger e ainda ganham votos pro partido. Não é desses que vamos falar, mas sim dos caras lá de baixo.

"João Corrupto é um político de um partido médio, que já fez os cálculos e sabe que, com a votação que espera ganhar aliada à abstenção de votos (votos brancos, nulos e as faltas propriamente ditas), ele deve passar raspando no número mínimo de votos pra ser eleito.

"Você e seu bando de amigos, todos 'cidadãos conscientes', vão anular o voto como um grande gesto obsceno para a 'classe política', e acham que isso vai deixar pessoas como o João Corrupto tristes, quando é isso que elas querem que você pense.

"Mas digamos que você simpatize com o candidato Zé Honesto. Ele não é perfeito, vocês concordam nas grandes questões, mas não em todas. Você decide dar um voto de confiança (literalmente). Já seu amigo, mais desanimado que você, decide votar no Mané Faz-pouco, que não é muito ativo nas grandes questões, mas é indicado por outros políticos e pela imprensa como pessoa íntegra. Um terceiro amigo decide votar na Maria Responsa, uma candidata com pouca representação política que procura se eleger para aprovar um único projeto (que tanto ela quanto seu amigo consideram importante), mesmo que demore quatro anos pra conseguir colocá-lo na pauta de votação.

"O resultado disso tudo? Nenhum dos candidatos de vocês foi eleito. Mas, que surpresa!, João Corrupto também não foi. O número de votos válidos acabou sendo maior que o esperado e ele não atingiu a quantidade de votos necessária para se eleger.

"Sendo otimista, se você e seus amigos votassem no Zé Honesto, talvez ainda assim ele não fosse eleito, mas provavelmente esses votos ajudariam o partido dele (que não deve ser tão ruim, já que tem Zé Honesto em suas fileiras) a eleger mais um candidato. Sendo pessimista, a vaga que vocês tiraram de João Corrupto provavelmente iria para um dos grandes partidos com votação expressiva e poderia eleger um candidato pouco representativo (ou seja, com votação absoluta menor que a de João Corrupto). Capisce?"

Um voto a mais em um candidato não tão ruim é um voto a menos no candidato muito ruim. Quando a população de classe média anula o voto, aumenta o valor do voto conquistado por clientelismo, paternalismo e outras formas de demagogia.
O voto consciente é uma arma. O voto nulo é um termo de rendição.

6.9.06

Por que não suporto advogados

Em artigo opinativo intitulado "Ninho da serpente", o advogado Luiz Paulo Viveiros de Castro, que, salvo improvável homônimo, presta serviço profissional ao candidato Marcelo Crivella, critica a polêmica medida do TRE-RJ de impugnar certas candidaturas baseadas em precedentes que não condizem com o comportamento de um parlamentar.

Com razão, o autor do artigo aponta que o justo desejo de impedir que pessoas de comportamento questionável (pra dizer o mínimo) sejam eleitas como representantes do eleitor brasileiro não justifica o desprezo de um direito básico como a presunção da inocência. Como quase todo advogado ao defender um argumento, o autor declarou isso com muito mais veemência, é claro.

Tanta veemência o levou a comparar a medida a um famoso parecer sobre o AI-5, uma comparação de escalas incompatíveis (novamente, pra dizer o mínimo).

Mas, na ânsia de fechar o caso (novamente, como quase todo advogado) com um argumento imbatível, o autor comete a infeliz frase "Quanto à alegação de que é pioneira e corajosa novidade a substituição dos princípios legais pelo atendimento ao clamor popular, é bom lembrar que outro julgador adotou essa prática: Pôncio Pilatos."

Não sou especialista em "direito bíblico" (uma expressão contraditória em si), mas acredito que a suposta (suposta porque a Bíblia não é um documento histórico) escolha popular não era a "substituição dos princípios legais", mas simplesmente uma tradição da época (mesmo que já em desuso). E tradição, como qualquer advogado sabe, é algo considerado pelo Direito até os dias atuais. Portanto, o que Pilatos supostamente fez foi usar um recurso que a lei vigente lhe permitia, uma "brecha na lei", se preferir chamar assim, para conseguir o veredicto que mais lhe interessava. Exatamente como já fizeram/tentam fazer alguns nomes que o TRE tentou cassar.

Se há uma lição deixada pelo caso "Mãos Limpas" (parafraseando o péssimo gosto da PF ao batizar suas operações), é a de que a lei pode ser manipulada por quem possui o poder, com ou sem a interferência da população.

5.9.06

A notícia que não aconteceu

(Nota explicativa: recentemente ganhei uma assinatura do jornal do falecido Doutor Roberto, então me permitirei bancar São Dines e brincar de Observatório por uns tempos)

Recentemente O Globo promoveu uma série de entrevistas com os candidatos a presidente. Em vez de formuladas por jornalistas da área de política, as perguntas seriam feitas pelos colunistas do jornal, jornalistas ou não. Uma metodologia questionável, mas compreensível tendo em vista o leitor moderninho-acomodado-zona-sul do periódico, que precisa sempre de uma novidade, uma trend diferente pra prestar atenção em algo que não seja futebol.

Enfim, convidados foram os candidatos, entrevistados foram os candidatos. Mas o presidente-candidato resolveu não comparecer. Atitude reprovável, impensada até, que merecia um editorial crítico. E assim foi feito. No espaço da página dois chamado "Por dentro do Globo", um texto opinativo comentou (com uma certa dose de escárnio) a ausência de Lula à entrevista. Assunto encerrado? Longe disso.

O mesmo texto age como chamada para uma página inteira contendo apenas "as perguntas que seriam feitas ao candidato". Ou seja, perguntas não-respondidas, não-perguntas, jornalisticamente injustificáveis (portanto impublicáveis), porém devidamente creditadas, cada uma por um dos colunistas.

O que o jornal fez é uma inversão dos valores jornalísticos, colocando o jornalista/colunista acima da matéria jornalística. E daí que não o fato não aconteceu? Temos nossos colunistas-celebridades (pelos quais pagamos bem caro, por sinal) e é só isso que importa para o nosso público. Tivesse pago pelo jornal, pediria meu dinheiro de volta.

Se entrevistas imaginárias, sem necessidade de resposta, valerem como matéria jornalística, faço uma não-entrevista com Jesus Cristo e ganho um Prêmio Esso da vida:

JC, se você pudesse conversar com qualquer personalidade, viva ou morta, quem você escolheria?

4.9.06

O fim está próximo

Parece piada, mas é verdade. Rodrigo Fonseca entrevista Arnaldo Jabor sobre as "psicopatias do poder" (sic) no caderno Prosa & Verso.

Pros leitores de quadrinhos, isso seria o equivalente a uma HQ adulta escrita por Jeph Loeb e desenhada por Rob Liefeld. Podem chamar de praga do Egito, selo do Apocalipse ou qualquer mau presságio bíblico de sua preferência. Mas que é um sinal do fim dos tempos, isso é.

2.9.06

Alienar é possível

365 dias sem ler NoMínimo.
Antes disso, já tinha parado com o Observatório da Imprensa.
No início ocorreram crises de abstinência.
Mas, como diz o pessoal do AA, a gente vence o vício um dia de cada vez.
Não posso dizer que estou limpo.
Um jornal e um telejornal diários ainda fazem parte da rotina. Mas nesses casos o teor toxicológico é quase inexistente, diluído em diversão e inutilidades.
A parte mais difícil é se reintegrar à sociedade. Qualquer coisa no comportamento ou na fala pode revelar a condição de ex-viciado.
Informação é uma droga. Mas é possível vencer o vício.

24.8.06

Frases surdas para ouvidos mudos

Seu amor de mãe foi além de todos os limites.

Pode até parecer uma chamada de um filme sobre relações incestuosas, mas é a tagline de Zuzu Angel.
É por essas e outras que sempre digo que esses publicitários e marqueteiros em geral não valem nem os óculos retangulares que usam.

10.8.06

A entrevista do Jornal Nacional com o candidato Cristovam Buarque.

1ª parte:


2ª parte:


As entrevistas com os outros candidatos podem ser vistas no blog Tevê Aberta.

8.8.06

Enquanto isso, na Terra dos Sonhos...

(Dois amigos se encontram na rua por acaso)
- E aí, cara!
- Fala, moleque!
- Há quanto tempo!
- Pois é!
- Que surpresa te encontrar por aqui...
- Surpresa por quê? Moramos no mesmo prédio e estamos pertinho da nossa rua...
- É verdade... (ao ver algo, muda bruscamente do tom normal de conversa para um cochicho) Ih, olha só quem vem ali!
(Vindo pela rua na direção deles, pode-se ver um sujeito careca e forte, com cerca de 45 anos, acompanhando de um rapaz adolescente com longos cabelos loiros parafinados e um casal de crianças que aparentam ser gêmeos por volta dos 8 anos. Todos eles usam roupão do tipo que criança coloca quando sai da aula de natação. Os dois amigos ficam em silêncio até que toda a família, já tendo passado por eles, esteja uns 20 metros distante)
- Definitivamente, não voto nesse cara pra presidente!
- Definitivamente!

23.7.06

Pagando pra ver

Quando os multiplex multiplicaram, a fórmula do sucesso parecia óbvia. Com várias salas, os cinemas poderiam receber mais espectadores num intervalo de tempo menor, gerando mais lucro, mas administrando todo o conjunto de salas como um único prédio/instalação/complexo, diminuindo os custos. Teoricamente, passado o baque do investimento inicial, o cinema poderia cobrar menos e lucrar mais, batendo facilmente o então simples (ou duplo, no máximo) cinema de rua. Na prática não foi bem assim.

Geralmente instalados em shoppings, os multiplex usavam a desculpa do conforto do estacionamento e da segurança do prédio para aumentar o preço dos ingressos. Mas essas "vantagens" (na verdade, pré-requisitos na visão da classe média apavorada) são do próprio shopping, não do cinema. Mesmo o aluguel do espaço é mínimo para os cinemas se comparado (proporcionalmente) ao valor cobrado das outras lojas, pois um multiplex é chamariz de público e recebe muitos incentivos da administração dos shoppings.

Temos visto o preço dos ingressos aumentar em velocidade absurda nos últimos anos, sem que isso seja acompanhado de uma melhoria no serviço. Pelo contrário, o número de trailers passou de aconselháveis/agradáveis dois ou três para até oito trailers antes de um filme, o que esgota a paciência de boa parte dos espectadores. E agora vemos a proliferação de uma praga: anúncios comerciais no cinema.

Os comerciais da TV aberta podem ser encarados, na pior das hipóteses, como um mal necessário. Uma vez que o espectador não paga pelo conteúdo, é o dinheiro dos anunciantes que financia as produções televisivas. Óbvio que a empresa não patrocina um programa por amor à arte; ela espera que o círculo se feche com o espectador comprando o produto anunciado no intervalo de seu programa favorito. Por aí já dá pra sacar que esse raciocínio já fica estranho quando falamos de TV por assinatura. Se pago (caro) pelo conteúdo, porque ainda sou forçado a ver anúncios? No cinema, então, isso parece um absurdo. Mas é o que vem acontecendo.

O Cinemark, por exemplo, tem exibido cerca de cinco comerciais antes do filme, descontando o anúncio institucional e o aviso da seguradora do cinema (compreensíveis, portanto fora da conta). Se considerarmos os numerosos trailers, temos muito mais tempo que o mais demorado dos intervalos da TV aberta. Seria de se esperar que tamanha renda extra fizesse diminuir o preço do ingresso, mas eles continuam cobrando absurdos 17 reais (se juntar o dinheiro do ônibus, é o preço de compra do filme em DVD). Se só nisso a conta não fecha, coloque aí o extra que o cinema deve cobrar dos anunciantes pela garantia de que o anúncio será visto (ao contrário da TV, no cinema o espectador não pode mudar de canal - e ainda paga por isso) e por não existir nem o custo (financeiro e criativo) de fazer um novo anúncio, pois quase sempre são os mesmos comerciais veiculados na TV.

Encher uma sessão de cinema com anúncios é um ótimo negócio para os donos de cinema e para os anunciantes, sem dúvida. Quem sai perdendo é o público de cinema, claro, mas quem se importa com os espectadores? E daí que estamos pagando o triplo do que deveria ser o preço do ingresso pra ver anúncios que não queremos? O que importa é que cinema é a maior diversão, desde que você tenha dinheiro suficiente pra achar tudo isso divertido.

4.5.06

TV? Pra quê?

O pensamento já corria nas entrelinhas dos blogs faz tempo, mas o Mr Manson (como sempre) foi o primeiro a cantar a pedra abertamente.

Recebi um e-mail recente sobre um protesto no qual deveríamos desligar a TV. Então pensei que já não assisto TV regularmente faz tempo. Quando assisto, é desenho animado e olhe lá.

Tudo o que pode gerar algum interesse na televisão pode ser visto/lido/ouvido melhor na internet. Escolhemos quando e como ver somente aquilo que queremos ver. Com filmes, seriados e noticiários, isso já acontecia há um bom tempo. Agora, sites como o YouTube armazenam também todo o conteúdo trash da TV aberta, aquilo que você quer ver quando não tem vontade de pensar. Prova disso, os melhores (piores?) momentos do Ídolos estão lá, é só procurar.

A internet agora é realmente o bicho-papão da mídia. Se antes, para a alegria dos entusiastas da "Era do Conhecimento", ela apresentava o melhor conteúdo, agora todo e qualquer conteúdo, por mais idiota que seja (ou até mesmo por isso), está na rede.

É muito fácil pros possuidores de banda larga dizer "vamos desligar a TV por uma semana". Duvido que essas pessoas consigam ficar uma semana sem internet. A máquina de fazer burro agora é outra.

22.4.06

Não se vê na Globo



No último post sobre comerciais, falei somente sobre maus exemplos, o que pode fazer alguns pensarem que detesto qualquer anúncio, o que não é verdade. Detesto os anúncios ruins.

Recentemente, descobri um vídeo, já antigo, que mostra que mesmo comerciais institucionais auto-referentes, que geralmente são um porre, podem ser interessantes. O filme mostra um homem no fim do expediente que, na pressa de chegar em casa, atravessa a cidade por cima dos telhados através de uma série de belos movimentos. No fim, descobrimos o motivo da pressa: ele queria chegar logo pra assistir à BBC One. Esse anúncio, "Rush Hour", foi veiculado em 2002. Nenhum dos canais brasileiros tem um anúncio auto-referente que preste, mesmo quatro anos depois.

Já os "belos movimentos" citados fazem parte de uma prática (esportiva?) conhecida como "Le Parkour" (ou "free-running"), que tem no ator de "Rush Hour", David Belle, um de seus maiores representantes. O parkour seria uma mistura de corrida, escalada, artes marciais, ginástica olímpica, acrobacia e balé, resultando numa corrida de obstáculos urbana em que grandes proezas físicas parecem suaves saltos no ar.

Os leitores de quadrinhos provavelmente já conhecem o parkour, ou pelo menos ouviram falar dele, já que uma das edições de Freqüência Global, de Warren Ellis, é centrada numa personagem que utiliza seu conhecimento de parkour pra atravessar a cidade a tempo de desarmar uma bomba. Aliás, só achei o comercial da BBC porque soube no documentário Jump London que Le Parkour estava sendo muito utilizado em anúncios por sua capacidade de exibir movimentos (teoricamente) sobre-humanos sem uso de efeitos especiais. Justamente o contrário da nossa publicidade escrava da computação gráfica.

21.4.06

Hinduístas de trem

Nada do que se vê (ou ouve) em um bom filme está lá por acaso. Então qual seria o motivo que levou Spike Lee a abrir O Plano Perfeito (clique aqui para ler a crítica) com uma música um tanto estranha, um dance meio indiano? Ainda não sei a resposta. Não vi qualquer ligação da canção com a trama ou com algum detalhe específico dentro dela.

Mais tarde, descobri que a música (cujo nome é Chaiyya Chaiyya) fazia parte de um sucesso do cinema de Bollywood. Acabei achando a abertura desse filme (Dil Se..), praticamente um videoclipe da música. Apesar da idéia interessante de rodar o clipe em cima de um trem em movimento, a interpretação dos atores/cantores (com destaque para o cantor com uma jaqueta enorme daquelas que o Jaspion usava) e a coreografia (uma mistura de dança do ventre com passinhos de boy band) tornam tudo involuntariamente engraçado. Hilário, até.

Se alguém quiser ver essa maravilha do humor é só clicar aqui. Engraçado mesmo é que Chaiyya Chaiyya tornou a trilha sonora de O Plano Perfeito um sucesso de vendas e parece estar despertando o interesse de parte do público dos EUA para o cinema indiano. Obra de um planejamento cuidadoso ou um inesperado sucesso aleatório?

16.4.06

De pêlo branquinho...

A Páscoa sempre traz consigo aquela velha e estranha figura mitológica do mamífero que distribui ovos. Mas o que será que o Coelho da Páscoa faz nos outros 364 dias do ano? Para saber a resposta, é só clicar aqui e assistir a esse vídeo revelador (que roubei do Castrezana). Recomendo que liguem o som (os efeitos sonoros são ótimos) e preparem-se pra dar umas boas risadas.

15.4.06

If I only had a brain

Não faz muito tempo, a TV exibiu um comercial da Fiat que parafraseava a clássica cena de treinamento em Rocky, com um carro no lugar do lutador. Uma idéia idiota que gerou um anúncio idiota.

Agora a Honda segue a mesma linha, num comercial que mostra um sujeito (provavelmente under influence) dirigindo por uma estrada de tijolos amarelos num mundo technicolor ao som de "Over the Rainbow".

Que os anúncios de automóveis vendem uma idéia e não um carro, estamos todos cansados de saber (mas não conformados, espero). Que os anúncios nacionais têm sido cada vez menos criativos e instigantes (preferindo ser catchy e apelativos), é uma triste realidade. Mas daí a querer vender carro através de (péssimas) citações a filmes famosos sem relação alguma com qualquer tipo de veículo, já é algo no mínimo constrangedor.
Deixem o Cinema em paz, por favor!

22.3.06

Sessão tripla

Comentários sobre três filmes vistos em seqüência.

Cão de Briga (Danny the Dog)
Um filme com vários nomes. Saiu nos EUA como "Unleashed" (será que acharam "Danny the Dog" forte demais?). Aqui, o nome "Cão de Briga" dá a impressão de que vão colocar o Jet Li pra lutar com cachorros. Pode até ter sido uma boa escolha do ponto de vista comercial (aproveitando notícias então recentes sobre redes de briga de cães), mas foi uma escolha infeliz por não fazer justiça ao filme. Achei que a trama ficaria mais no lance filosófico estilo "até que ponto o humano é humano", mas acabou sendo algo mais leve, o que foi bom para o filme. E Morgan Freeman rouba a cena sempre que aparece.

Menina de Ouro (Million Dollar Baby)
O grande vencedor do Oscar de 2005... não sei como. Ray e Em busca da Terra do Nunca eram filmes melhores. A direção de Ray foi muito melhor (e imagino que a dos outros indicados também tenha sido). Não que o filme seja ruim; ele é bom, sem dúvida. Mas não foi o melhor de 2004. E o lance da eutanásia, que gerou tantas notícias e protestos, não foi nada demais. No filme, o ato é tratado como um crime terrível e um pecado imperdoável (textualmente, já que o personagem é religioso). Foi até conservador demais. E Morgan Freeman rouba a cena sempre que aparece.

Huckabees (I Huckabees)
Com o infeliz subtítulo "A vida é uma comédia" (pior que esse, só "O hóspede maldito"), o filme é mais uma daquelas comédias dramáticas com elenco inchado e várias histórias com algo em comum. Achei que poderia ser algo como o enjoativo Simplesmente Amor, mas segue a linha do "mundo absurdo" de muitas comédias recentes, sendo a referência mais óbvia Os Excêntricos Tenenbaums. Parando pra pensar, essa moda do "mundo absurdo" (re)começou com Quero ser John Malkovich e desde então vem gerando bons filmes. Dessa vez, a graça é em cima de terapia, idéias existencialistas e teorias metafísicas. Não é um grande filme, mas tem seus bons momentos. E Morgan Freeman não aparece, mas se aparecesse roubaria a cena.

13.3.06

Levando quem? Pra onde?

Um vídeo publicado no Jovem Nerd revela a resposta a essas perguntas (e garanto que você não irá esquecer). Aparentemente, esse filminho já vem rodando a internet faz tempo, mas imagino que muita gente não o conheça. Então clique aqui pra ver; ou clique com o botão direito aqui (escolha a opção "salvar link como...") pra baixar com a imagem original em widescreen, porém menor.
Mas tomem cuidado: depois de ouvir uma vez, a musiquinha não sai da cabeça de jeito nenhum. Depois não digam que não avisei.

10.3.06

Se o Google é Deus, o Winamp é o profeta

Roubei essa brincadeira no blog dela, que por sua vez roubou dela. O jogo é o seguinte: carregue seu Winamp com músicas, muitas músicas; coloque no shuffle; faça as perguntas abaixo em voz alta e aperte play. As respostas serão os nomes das músicas.
Como regra adicional, decidi que pelo menos a primeira música deveria fazer algum sentido, mesmo que esdrúxulo.

Como o mundo me enxerga?
Música: Lost in Space
Artista: Lighthouse Family
Comentário: "Perigo! Perigo!"

Vou ter uma vida feliz?
Música: Rap da Polícia
Artista: Café com Bobagem
Comentário: Me visitem na prisão, por favor.

O que meus amigos realmente pensam de mim?
Música: Funk da Pamonha
Artista: Rodney Dy
Comentário: Pamonha são vocês, desgraçados!

As pessoas têm desejos sexuais secretos por mim?
Música: You're Standing on my Neck (Daria Theme Song)
Artista: Splendora
Comentário: Obrigado, mas prefiro que continue secreto.

Como posso me fazer feliz?
Música: Sweetest Operator
Artista: Lighthouse Family
Comentário: Não diz muito, já que operator tem muitos sentidos; só sei que preciso ser um bem doce.

O que devo fazer da minha vida?
Música: O dia em que a Terra Parou
Artista: Raul Seixas
Comentário: Agir como se a Terra inteira estivesse parada? Legal. E um trecho da letra diz "naquele dia ninguém saiu de casa"; bom, já faço isso de vez em quando...

Por que a vida tem que ter tanta dor?
Música: Rap do Trabalhador
Artista: Magalhaeze
Comentário: Se alguém entende de dor, é o trabalhador. Trabalho É dor. De qualquer forma, a culpa deve ser do Cesar Maia, que quebrou a firma.

Como posso maximizar meu prazer durante o sexo?
Música: A Spoonful of Sugar
Artista: Mary Poppins Soundtrack
Comentário: A tal colher de açúcar na verdade servia pra turbinar o sexo? Essa Mary Poppins, quem diria...

Vou ter filhos?
Música: Ending
Artista: Sonic the Hedgehog
Comentário: Das duas uma: ou terei filhos no fim da vida; ou ficarei até o fim da vida correndo como um porco-espinho maluco atrás dos pirralhos que querem roubar meus anéis de ouro conquistados com tanto suor matando um Robotnik por dia.

Vou morrer feliz?
Música: Shouldn't be Like This (According to Fairness)
Artista: Tunde
Comentário: Putz, agora fiquei triste...

Qual seria um bom conselho para mim?
Música: Chicks dig Giant Robots
Artista: Ragtime Revolutionaries
Comentário: Nice!

O que é a felicidade?
Música: Un'Emergenza d'Amore
Artista: Laura Pausini
Comentário: Ok, a felicidade é uma música brega. Próxima pergunta!

Qual é meu fetiche favorito?
Música: I Can't Stop Loving you
Artista: Ray Charles
Comentário: É a pura verdade!

Como serei lembrado?
Música: Pastor João e a Igreja Invisível
Artista: Raul Seixas
Comentário: Opa! Podem começar a mandar o dízimo agora mesmo!

9.3.06

Frase do dia

"Nós temos uma cultura de achar o máximo ser hospitaleiro. Mas hospitalidade tem limite. O limite da hospitalidade é a ética." - Ana Paula Felizardo, ao Jornal da Globo, sobre a condescendência em relação à prostituição infantil (mas serve pra várias outras situações em nossa sociedade).

24.2.06

Você já viu isso antes

O que acontece quando uma série de animação inovadora vira um live-action em Hollywood? A resposta é Aeon Flux (ou "Æon Flux"), um filme sem identidade que fica no meio-termo; melhor que um filme de ação comum, mas nada surpreendente ou memorável.

Pra começar, um aviso importante: se você é fã xiita da série animada, NÃO vá ao cinema ver este filme. A versão cinematográfica lembra apenas vagamente a obra de Peter Chung, de modo semelhante ao que aconteceu em Constantine. Se o nome do personagem de Keanu Reeves fosse "Zé das Couves", o filme não seria ruim. Se pensarmos nele como uma adaptação, então ele é vergonhoso. O mesmo ocorre aqui, com o agravante da retirada de toda a temática original da série. Se você quiser mesmo ver esse filme, pense que o nome da protagonista é "Maria Futurista" e a decepção será menor.

Alguém pode ter estranhado a menção a filme de ação ali em cima, mas é isso mesmo. A "ficção científica" é apenas o pano de fundo, assim como foi em Minority Report, por exemplo. Mas ambos são mesmo filmes de ação. Outra característica interessante (não sei se "interessante" é bem a palavra) é justamente essa semelhança com outros filmes, por vários motivos. Já citei dois, e a lista só cresce até o fim do texto.

A Maria Futurista de Charlize Theron tem pouco a ver com a personagem do desenho da MTV, lembrando mais a personagem de Kate Beckinsale em Underwold e, obviamente, a Trinity de Matrix, a matriz de todas essas réplicas (desculpem, não resisti). Entretanto, ela também tem muito de Batman (o tradicional "você pisca e eu desapareço"), de Homem-Aranha (o jeito de escalar paredes e mergulhar de lugares altos parece decalcado do filme do Amigão da Vizinhança), misturados com muito Cirque du Soleil (depois descobri que a Charlize realmente teve aula de saltos com eles) e até um pouco do mestre Chuck Norris (ela solta uns Roundhouse Kicks a torto e a direito no decorrer do filme). Seria mais interessante se tentassem emular o padrão de movimento da personagem animada, que era bem específico e não "lembrava" outros personagens.



A ligação entre o original e adaptação, por sinal, é sempre problemática. A começar pela cena inicial, uma tentativa constrangedora de transportar para o cinema a famosa vinheta em que Aeon captura uma mosca com os cílios. Enquanto a semelhança do olho com uma planta carnívora na vinheta serve perfeitamente pra passar a idéia do quanto a personagem é letal, a versão filmada parece mostrar alguém que tem cola no olho. A sensação geral no cinema foi de estranheza. Acho que algumas pessoas tiveram a impressão de que a Charlize iria comer a mosca.

A pseudo-FC é a seguinte: em 2011, uma doença (Gripe do Frango?) extermina 99% da população mundial. A cura é descoberta por um cientista chamado Trevor Goodchild, que se torna o líder da população restante. 400 anos depois, cinco milhões de pessoas vivem isoladas do mundo exterior na última cidade humana, Bregna, considerada o paraíso, exceto por alguns "probleminhas". Alguns cidadãos estão desaparecendo, quase toda a população tem sonhos estranhos e a "Dinastia Goodchild" finge que nada acontece. Contra o governo estão os monicanos, um grupo paramilitar (terrorista?) contrário a um Estado que tudo vê e tudo pode, porém nada faz pelos cidadãos. A premissa não é ruim, certo? Poderia render um filme anárquico e tudo mais, não é? Mas fica só nisso mesmo.

Alguns conceitos são até mostrados de forma eficiente, como os bioimplantes (que parecem ter os mesmos efeitos da picada de uma aranha geneticamente modificada) e uma sala secreta onde se entra ao mudar o comprimento de onda da sala comum. Os cenários também são lindos, tudo muito mudernoso, apesar de meio asséptico demais, lembrando um pouco A Ilha (e as semelhanças com esse filme horrível não param por aí). Mas isso não salva o filme, principalmente a segunda metade.



Pra não dizer que não falei de flores, existe uma personagem que tem mãos no lugar dos pés e é bem divertida. No desenho, ela era chamada de Scaphandra, mas no filme o seu nome é Sithandra (Sith-andra?), talvez como homenagem a Star Wars, sei lá. Vale também a curta participação da fofinha Amelia Warner, que faz Una, a irmã de Aeon. Sim, ela tem irmã, o Trevor Goodchild também tem um irmão. Sim, é uma idéia idiota, mas a Una é legal!

Pronto pros spoilers? Então selecione a área abaixo para ler.

Um dos grandes charmes de Aeon Flux era a relação completamente ambígua entre ela e o Trevor. Uma hora eles eram inimigos, outra hora amantes, às vezes os dois. No filme, isso é jogado fora. Primeiro eles são inimigos, depois amantes. E só. Aliás, esquece o "amantes". O sexo (como imagem e como idéia) é quase inexistente no filme e a única relação existente é tão asséptica quanto os cenários.

Além do sexo, o próprio Goodchild foi "sacrificado", perdendo toda a sua personalidade de cientista (louco?) narcisista com toques de vilão de James Bond. No filme ele é um bonzinho humanista e todo o lado mau foi jogado no irmão, criando dois estereótipos que somados não dão nem um personagem razoável.

A outra semelhança com A Ilha está no plot sobre clones que sonham com memórias do original. Mas isso é muito mal utilizado tanto lá quanto cá. A questão da clonagem ainda deixa uma situação mal explicada; se Trevor e o irmão estiveram se clonando esse tempo todo, então o governante de Bregna sempre se chamou "Trevor"? Tipo, sete gerações com o pai chamando o filho de Trevor não parece algo meio insano? Ou será que a população sabia que os irmãos Goodchild eram clones e só não sabiam que eles clonavam todo mundo? Se for assim, será que alguém nunca pensou "por que eles não clonam mais ninguém"?

As "homenagens" a filmes conhecidos também incluem Missão Impossível, Jurassic Park, Matrix (acho que essa é bem óbvia, só faltou dizer "Guns. Lots of guns."), MIB e algo de O Quinto Elemento no clima de algumas cenas. O filme segue tanto o padrão hollywoodiano que termina em uma narração que te dá a "moral da história" caso você tenha dormido a maior parte do filme. Só serviu mesmo pra dar saudades do Liquid Television...

12.2.06

Frase do dia

Um velho chinês certa vez disse: "O problema do vidro é que às vezes ele quebra".

27.1.06

Gotham City Contra o Crime

Sei que a maioria dos leitores habituais (ou seja, quem passa aqui mais de uma vez por ano) já conhece o Melhores do Mundo e sabe que eventualmente colaboro com eles, fazendo revisão de texto e um ou outro review de quadrinhos.

Para os desavisados, seguem aí os dois últimos textos que fiz pro MDM (sob minha identidade nada secreta): DC Especial #5 e DC Especial #8, ambos encadernados da ótima série Gotham Central. Como o texto foi feito pra um site (teoricamente) noticioso, não pro Ex-quase-futuro, uma certa mudança de tom é perceptível.

Quem quiser opinar, fique à vontade.

26.1.06

Superman is a dick

Você conhece vários sites sobre capas e cenas engraçadas de HQs, certo? Eles mostram algumas cenas fora de contexto ou capas antigas que se tornam hilárias quando vistas em retrospecto.

Agora conheça Superdickery.com (conheci via Omedi), um site que reúne cenas famosas como esta e esta, mas que tem como mote a frase "Superman is a dick" (numa tradução livre, "Super-Homem é um escroto"), devido ao espantoso número de capas que apresentam o Homem de Aço sendo maldoso, cruel ou simplesmente... escroto. Sempre com um sorrisinho no rosto, é claro.

Vale a pena perder horas navegando e rindo com as inúmeras ilustrações do site e os ótimos comentários do autor. Entre as galerias temáticas, além da tradicional "Superman is a dick", há também uma específica sobre os hábitos sadomasoquistas da Mulher-Maravilha, propagandas exageradamente exageradas e a clássica "Seduction of the Innocent", mostrando que no fim das contas Wertham estava certo.

Separei algumas das melhores imagens pra vocês. Divirtam-se!

Super-Homem negando água aos sedentos
"Eu jamais casaria com alguém tão idiota!"
Escroto desde a primeira aparição
E ele faz isso rindo. RINDO!
Vai dizer que você não faria isso também?
Negando água aos sedentos (de novo!)
Batman também é escroto
Jor-El também é escroto
A capa mais ridícula do mundo
Mulher-Maravilha e suas preferências peculiares
Tia May, arauto de Galactus
Nem pergunte!
A bat-metralhadora
Uma contradição conceitual
Perspectiva, o que é isso?
Tem gosto pra tudo
As provas são irrefutáveis
Além do nome ambíguo da revista, o título de uma das histórias é "The KY fingers of fear"
Quem criou o nome desses personagens tinha sérios distúrbios psicológicos
O que Peter faz no quarto?
BWA-HA-HAHA-HAHA

20.1.06

Planetary in Rio



Antes de tudo, você já leu Planetary?
A série é escrita por Warren Ellis e desenhada por John Cassaday e tem a famosa periodicidade "sai quando der", o que significa 24 edições de 1999 pra cá. Resumidamente, a série é uma ficção científica que mostra uma equipe encarregada de descobrir, vigiar e proteger os mistérios do mundo. Basicamente, eles são um Anti-Arquivo-X, mas trabalhando em escala (adivinhe só!) planetária.

Planetary é o que se pode chamar de "caldo cultural", misturando ficção científica clássica, pulps, comics, cinema, teorias físicas e metafísicas e personagens cheios de atitude cool com um passado obscuro. Entretanto, não é uma série pop como outras que você tem lido. Você não vai ver os personagens citando filmes ou seriados da moda, ou falando de pessoas famosas da atualidade. As referências da série (e acredite, são muitas) estão mais profundamente inseridas, vindo à tona principalmente na segunda ou terceira leitura. Sim, porque cada edição de Planetary pede pra ser lida várias vezes, de preferência com pausas para reflexão entre elas. Pior (melhor) ainda, as edições seguintes afetam a leitura das anteriores retroativamente. Assim, cada vez que sai uma nova edição, lá vai o leitor ler toda a série de novo.

E a nova edição em questão é a número 24. Uma versão em português já está disponível no Rapadura Açucarada, feita por Eudes e Shadowboss e com minha humilde tradução, mas você também pode baixá-la aqui (abre um pop-up chato de anúncio quando começa o download, mas é só fechar). Entretanto, méritos da tradução à parte, recomendo (pra quem souber, claro) a leitura em inglês, pois o Ellis é ótimo na escolha das palavras e muitos dos sentidos se perdem na mudança de idioma.

Essa revista é especial por vários motivos. O mais importante, essa é a primeira edição que apresenta ao leitor mais respostas que perguntas. Exato, a única em 24 edições a ter mais revelações do que novos mistérios, o que não deixa de ser surpreendente quando pensamos em Planetary. O motivo da natureza diferente da história e outra razão por ela ser especial é que essa é uma edição de virada, uma última oportunidade de pegar fôlego antes do pega pra capar do arco final (a série deve acabar na edição 26 ou 27).

Por último, a história se passa inteiramente no Rio de Janeiro, onde fica o escritório brasileiro do Planetary, ou melhor da "organização planetário". E (vejam que surpresa!) a cidade não parece a Floresta Amazônica. Pelo contrário, parece que houve um bom trabalho de pesquisa de imagens por parte do ótimo Cassaday e o Rio de Planetary é mais realista que muitos Rios retratados por brasileiros. Mesmo o prédio fictício da organização, em formato de bala e extremamente fálico, parece maravilhosamente apropriado à cidade.

Aliás, é interessante ver a evolução da arte de John Cassaday desde as primeiras edições de Planetary. Como a arte foi puxando mais pro realismo sem perder o estilo (coisa que me desagrada no estilo foto-realístico do Brian Hitch em Supremos, por exemplo; o cara era muito melhor em Authority!). Sabe aquela arte que deixa todos babando em Astonishing X-Men? Pois aqui ele desenha a mesma arte sensacional, mas com um roteiro à altura. A começar pela capa, sempre uma obra de arte, dessa vez replicando um dos Guias Planetary, justificada não somente pela natureza reveladora da edição, como também porque a maior parte da ação se passa em uma das bibliotecas de Elijah Snow, que contém muitos guias similares.

Sobre a história em si, ela trata basicamente de pôr as cartas na mesa. Snow se reúne com seus dois operativos numa conversa em que todas as teorias que ele desenvolveu nas ultimas edições são enfim verbalizadas, não sem um certo receio, o que provoca cenas hilárias do Snow saindo da conversa através de comentários que beiram o absurdo. Graças a isso, a história que poderia ser pesada, acaba alternando momentos de grandes revelações, piadinhas e a boa e velha atitude cool, que ainda está lá, porém misturada com uma certa dose de vendetta, como nesta cena. Entre as revelações, as verdadeiras intenções por trás do exílio de Jacob Greene e a tortura de William Leather, o que Snow descobriu na psicodélica viagem na casa da Melanctha e a natureza da rivalidade entre o Planetary e os Quatro, com direito ao Snow fazendo pouco da famosa frase de efeito da série. A ação tarda mas aparece, menos que o normal, e é claro que sobra pros brasileiros, coitados. No último quadrinho, um sorriso enigmático deixa tudo ainda mais incerto (não há nada que deixe um leitor mais ansioso pela próxima edição do que terminar a história com um sorriso enigmático).

Por fim, a guerra é declarada, agora é ver quem vai sobrar de pé (se é que vai sobrar alguém). E justamente quando muitas das peças se encaixaram, foi revelado que o quebra-cabeças era maior do que imaginávamos, com o surgimento de novos mistérios ainda mais intrigantes, o que me leva a perguntar: como o Ellis vai resolver isso tudo de forma coerente em duas ou três edições?

Não sei a resposta, mas essa é justamente a graça de Planetary.

12.1.06

Resoluções automáticas

Para quem quer fazer uma lista de resoluções, mas não consegue pensar em nada, recebi um link para "The Amazing New Year's Resolution Generator!" que pode servir pra você.

Com as opções de escolha entre começar ou parar uma atividade, as resoluções geradas vão das mais tradicionais às mais inusitadas. Segue abaixo uma lista com algumas das resoluções estranhas que vi por lá (sintam-se à vontade pra usar caso sirvam).

Vou começar a culpar os outros a partir de agora.
Vou parar de ligar para minha mãe todo dia.
Vou começar a usar cueca a partir de agora.
Vou parar de levitar a partir de agora.
Vou começar a fazer caretas para estranhos novamente.
Vou parar de beber tequila todo dia.
Vou começar a beijar estranhos agora mesmo.
Vou parar de cair na porrada com meu gato todo dia.
Vou começar a usar sabão novamente.
Vou parar de falar com os mortos a partir de agora.

11.1.06

Hugo para principiantes

Que o Laerte é o melhor autor de tirinhas do país não é novidade, tampouco que ele é versátil como político brasileiro. Ainda assim, o álbum Hugo Para Principiantes foi uma boa surpresa.

Assim como os "Piratas do Tietê", "Hugo" acabou abrangendo muito mais que sua proposta inicial (se não me engano, ele foi criado pro caderno de informática da Folha). Mas se o "piratas" virou um rótulo bem "universal", Hugo ainda é basicamente (mas não somente) "o mané com computador", sendo um personagem que tem tudo a ver com a internet e, conseqüentemente, com os internautas.

E se Overman e os Gatos são meus personagens favoritos do Laerte, o Hugo é o que mais diretamente faz graça da nossa relação mítico-religiosa com o computador (essa caixa mágica a qual nos apegamos sem motivo).
Separei abaixo três tirinhas que mereciam comentários.


Pessoas com índole violênta conhecem bem o poder de persuasão de um martelo.

Nunca imaginei que um coroa como o Laerte uma dia faria uma (boa) piada com o Pikachu. Surpreendemte!

Depois do último post, foi bom ler essa tirinha e ver que não sou o único que une de forma ridícula tramas pré-existentes.

10.1.06

Strong as Kieth can be

O Ministério da Saúde adverte: muito sol na cabeça pode causar sonhos bizarros.
Um estúpido homem-macaco encontra uma misteriosa rainha da selva e seu enorme guardião roxo.
Se fizessem um filme/longa animado sobre isso, seria sucesso garantido. Quem não pagaria pra ver algo assim?

9.1.06

Resoluções (atrasadas) para 2006

Droga, não ganhei na Mega-Sena! Portanto, o blog continua.
Segue a lista das coisas que provavelmente não conseguirei fazer em 2006.

1. Ganhar algum dinheiro.
Não importa como, desde que não seja ilegal. Pode ser trabalhando (ARGH!), mas não teria problema se fosse uma herança que um tio zilionário do futuro de outra dimensão deixou pra mim.

2. Aproveitar melhor o tempo.
Um repeteco mais que justificável. Se o dia tem 24 horas, tem alguém com mais, porque no meu tem cada vez menos. E, por favor, sem palhaçadas do tipo "reengenharia do tempo", que inventaram pra você bater ponto não só no trabalho, mas em casa também.

3. Desistir de enfiar juízo na cabeça das pessoas.
Ainda vou acabar levando um tiro por causa disso. Sério.

4. Ler os "clássicos".
Esqueça o "cânone ocidental", meus clássicos são bem pessoais. Já consegui algumas fontes interessantes tanto de literatura quanto de quadrinhos. Conforme for lendo durante o ano, vou recomendando a vocês.

5. Ver os "clássicos".
2005 foi um dos anos que estive mais "afastado" dos filmes, seja cinema, VHS ou DVD. Mesmo que ausência tenha sido por uma boa causa (ou pelo menos uma causa "necessária", já que não se pode dizer que a monografia é uma coisa boa), a lista de "sempre quis ver esse filme" só cresceu. Pra este ano, menos pipoca, mais mofo de VHS.

6. Escrever é preciso. Publicar não é preciso.
Estou mesmo enferrujado. Textos como este demoram a ser escritos e ainda passam por inúmeras revisões. Acho que é hora de tentar ser um pouco mais cru, menos elaborado. Largar um pouco o vício do editor de texto e do hipertexto.

7. Ser mais exigente com meus amigos.
Não sei se é a idade, mas tenho sido menos crítico em relação aos atos das pessoas à minha volta. Detesto ser complacente com os outros, pois não quero que sejam comigo.

8. Criar uma rotina de exercícios.
Três dificuldades aí. Exercício já não é uma palavra agradável. Rotina é algo que não consigo fazer dar certo. Implícito, há o tempo, sempre escasso. Mas a idade vai chegando e é melhor tentar que ficar parado.

9. Aprender algo novo.
Não importa que seja uma profissão, uma língua ou um jogo de cartas, desde que tenha alguma importância prática. Já passei da cota de cultura inútil e conhecimentos gerais.

10. Ganhar na Mega-Sena acumulada.
Porque a esperança é a penúltima que morre.