4.10.05

Veja que palhaçada!

Como a maioria já deve saber, a revista Veja publicou uma "matéria" sobre o referendo que teremos em breve apoiando o não. Coloquei as aspas porque o tal texto pode ser chamado de várias coisas, menos de matéria jornalística. Uma matéria pressupõe expor os fatos, de preferência analisando as causas e conseqüências desses fatos de forma mais completa possível, para deixar que o leitor forme a sua própria opinião sobre o assunto.

A Veja não só deturpou completamente a ética jornalística, como fez isso de forma muito perigosa. Talvez na ânsia de mostrar que ainda tem influência e peso nas decisões do país, a revista abraçou um dos lados do referendo e atacou o outro impiedosamente. Não há discussão racional que resista a um bombardeio sofismático em larga escala. O resultado disso, pelo menos pra quem souber fazer uma leitura crítica, é um texto sem credibilidade. Pior, mesmo os poucos argumentos coerentes no texto se perdem diante das distorções e manipulações dos fatos.

Não pensem que estou defendendo o sim. Estou apenas dizendo que uma matéria equilibrada mostraria os principais prós e contras de se votar sim ou não. Se a maioria da população entender que o não é melhor para o país que o sim, então que assim seja. Mas é a vontade do povo que deve decidir isso, não o conselho editorial de uma revista semanal.

Peço que não confundam minha crítica à revista com uma crítica a todos os que defendem o seu lado. Desde que claramente identificados, os grupos a favor de sim e não podem e devem tentar vender o seu peixe (inclusive em horário político na TV). Naturalmente, ambos apresentam elementos racionais, apelativos e fantasiosos em seus argumentos.

Os elementos racionais são aqueles comprovados e verificáveis, como fatos, números e estatísticas. Eles são a parte "chata" que garante alguma credibilidade aos argumentos. Elementos apelativos trabalham o lado emocional do leitor/espectador e podem ou não corresponder à verdade factual, pois costumam ser exagerados para chamar a atenção. Isso porque esses elementos utilizam os medos e desejos do público para tentar se firmar no seu inconsciente, como faz a publicidade.

Já os elementos fantasiosos consistem de mentira pura e simples. Lenda urbana, omissão, corrupção de fatos, argumentos sofismáticos. São desaconselháveis numa conversa civilizada, pois são facilmente reconhecíveis por pessoas sensatas, mas acabam sendo utilizados por aqueles que tentam conquistar seu leitor/espectador de qualquer forma ou simplesmente por mal-intencionados que querem garantir o voto dos incautos.

O meu conselho é: procure se informar. Ouça quem defende o sim e o não e procure separar os elementos que realmente são importantes. Desconfie de argumentos "numéricos" vagos que utilizem as expressões "a maioria/minoria", "a maior/menor parte", "quase todos/nenhum". Posso dizer que ambos os lados têm motivos justos, mas também têm grupos interessados financeiramente nas conseqüências do referendo. Não seja maniqueísta achando que o sim só tem adeptos bonzinhos e que só malvados querem o não, ou vice-versa.

Não deixe que ninguém decida por você.

Nenhum comentário:

Postar um comentário