25.10.05

Frase do dia

"O roteiro de David Hayter é muito próximo de como eu imagino alguém fazendo um filme de Watchmen. Não que eu queira vê-lo. Minha história é uma história em quadrinhos. Não um filme, nem um romance. Foi criada de uma maneira específica e desenhada para ser lida de uma certa forma: numa poltrona confortável, ao lado de uma lareira, com um copo de café quente. Pessoalmente, acho que é perfeita para uma noite de sábado." - Alan Moore

9.10.05

F-1 ou 1-F

Na madrugada de sábado, o clima propiciou uma situação muito interessante na classificação para o grid de largada da Fórmula-1. Como esperado, as equipes menores fizeram tempos ruins, enquanto que as equipes médias fizeram tempos um pouco melhores. Porém, antes dos grandes entrarem, caiu um toró em Suzuka que fez entrar água nos planos das equipes de ponta.

Com isso, o grid passou a apresentar uma situação incomum: equipes médias na frente, equipes de ponta logo atrás. As duas possibilidades de corrida passaram a depender da previsão do tempo, a mesma que acertadamente disse que choveria nos últimos minutos do treino de classificação: se chovesse, teríamos uma corrida propensa a acidentes e lances espetacularmente perigosos, algo interessante para o público, porém não muito esportivo; no caso de céu claro (o palpite dos bons meteorologistas japoneses), seria uma corrida de recuperação para os grandes, com muitas ultrapassagens e disputas por posições.

Domingo de sol (lá, pois aqui ainda era madrugada), a corrida ocorre como esperado ou até melhor. Grandes ultrapassagens, acidentes sem feridos, o trabalho nos boxes ajudando a ganhar posições, tudo o que uma corrida automobilística tem de mais empolgante. Um grande prêmio muito interessante, tanto pra quem vê quanto pros competidores. Com direito a uma fantástica ultrapassagem na penúltima volta que valeu o primeiro lugar. Entre as corridas que vi esse ano (metade do campeonato, acho), essa foi sem dúvida a melhor. O que faz pensar...

Será que não seria interessante se os carros de ponta saíssem sempre de trás? Como em alguns videogames em que não há um treino de classificação e a ordem do grid na corrida seguinte é simplesmente a ordem invertida de chegada do GP anterior? Sei que um dos grandes atrativos da F1 ao longo dos anos foram os treinos de classificação, onde podíamos acompanhar o máximo desempenho do conjunto piloto+carro numa pista vazia. Ayrton Senna era um especialista nesse tipo de desafio, sempre procurando a volta perfeita. Nos últimos anos, entretanto, as limitações da categoria (sejam financeiras, sejam as do regulamento) tornaram a classificação um evento burocrático, sonolento até. Não seria o momento de trocar um treino chato e uma corrida pouco empolgante por um único espetáculo disputado e imprevisível, onde os bons pilotos teriam constantemente a chance de provar que são realmente bons? O público certamente agradeceria.

4.10.05

Veja que palhaçada!

Como a maioria já deve saber, a revista Veja publicou uma "matéria" sobre o referendo que teremos em breve apoiando o não. Coloquei as aspas porque o tal texto pode ser chamado de várias coisas, menos de matéria jornalística. Uma matéria pressupõe expor os fatos, de preferência analisando as causas e conseqüências desses fatos de forma mais completa possível, para deixar que o leitor forme a sua própria opinião sobre o assunto.

A Veja não só deturpou completamente a ética jornalística, como fez isso de forma muito perigosa. Talvez na ânsia de mostrar que ainda tem influência e peso nas decisões do país, a revista abraçou um dos lados do referendo e atacou o outro impiedosamente. Não há discussão racional que resista a um bombardeio sofismático em larga escala. O resultado disso, pelo menos pra quem souber fazer uma leitura crítica, é um texto sem credibilidade. Pior, mesmo os poucos argumentos coerentes no texto se perdem diante das distorções e manipulações dos fatos.

Não pensem que estou defendendo o sim. Estou apenas dizendo que uma matéria equilibrada mostraria os principais prós e contras de se votar sim ou não. Se a maioria da população entender que o não é melhor para o país que o sim, então que assim seja. Mas é a vontade do povo que deve decidir isso, não o conselho editorial de uma revista semanal.

Peço que não confundam minha crítica à revista com uma crítica a todos os que defendem o seu lado. Desde que claramente identificados, os grupos a favor de sim e não podem e devem tentar vender o seu peixe (inclusive em horário político na TV). Naturalmente, ambos apresentam elementos racionais, apelativos e fantasiosos em seus argumentos.

Os elementos racionais são aqueles comprovados e verificáveis, como fatos, números e estatísticas. Eles são a parte "chata" que garante alguma credibilidade aos argumentos. Elementos apelativos trabalham o lado emocional do leitor/espectador e podem ou não corresponder à verdade factual, pois costumam ser exagerados para chamar a atenção. Isso porque esses elementos utilizam os medos e desejos do público para tentar se firmar no seu inconsciente, como faz a publicidade.

Já os elementos fantasiosos consistem de mentira pura e simples. Lenda urbana, omissão, corrupção de fatos, argumentos sofismáticos. São desaconselháveis numa conversa civilizada, pois são facilmente reconhecíveis por pessoas sensatas, mas acabam sendo utilizados por aqueles que tentam conquistar seu leitor/espectador de qualquer forma ou simplesmente por mal-intencionados que querem garantir o voto dos incautos.

O meu conselho é: procure se informar. Ouça quem defende o sim e o não e procure separar os elementos que realmente são importantes. Desconfie de argumentos "numéricos" vagos que utilizem as expressões "a maioria/minoria", "a maior/menor parte", "quase todos/nenhum". Posso dizer que ambos os lados têm motivos justos, mas também têm grupos interessados financeiramente nas conseqüências do referendo. Não seja maniqueísta achando que o sim só tem adeptos bonzinhos e que só malvados querem o não, ou vice-versa.

Não deixe que ninguém decida por você.

Cara de um...


Mera coincidência? Ou será algo mais?

Tralalá, um estado de espírito

Boa parte do post anterior foi escrito sob a influência do que o Felipe chama de "estado tralalá". Basicamente, foi redigido por alguém bêbado de sono. O redator em estado tralalá acha tudo o que escreve muito engraçado e usa freqüentemente palavras que só existem na própria imaginação.

De qualquer forma, valeu como experiência. E aumenta a minha admiração pelos colegas bêbados (de álcool) que conseguem escrever textos minimamente coerentes. É um feito e tanto.

3.10.05

Cadernos de viagem - Ainda indo

No avião, um desconforto surpreendente. Meu pensamento equivocado era de que a classe "turística" de um vôo internacional teria melhores acomodações. Mas as cadeiras eram apertadas, talvez mais que das companhias nacionais. É claro que pode ser só impressão, já que minha viagem aérea anterior havia sido 25 quilos atrás.

Outro incômodo eram os próprios passageiros, gritadores, espaçosos e desastrados, uma combinação capaz de causar desastres. "Brasileiros", vocês podem pensar, como pensei. E estava errado. Em parte. Obviamente os brasileños são barulhentos e "amigáveis", mas pessoas mal-educadas não escolhem nacionalidade, então também fui atingido por cotovelos espanhóis e... italianos. E foi somente o primeiro de vários contatos - todos desagradáveis - que tive com os moradores da bota durante a viagem.

Depois de acomodado (na medida do possível), fui conferir o guia de programação. O vôo teria dois filmes, algo até então inédito pra mim. O primeiro era um filme americano chamado "Fever Pitch", o título original do livro "Febre de Bola" do Nick Hornby. "Claro, lembro que li que já adaptaram esse filme." Esperava um filme sobre futebol com atores ingleses. Estranhamente vi na tela o nome de Drew Barrymore e um estádio de beisebol. "ah, então deve ter sido só coincidência de nome." E como se respondesse, aparece na tela um "based on a novel by" e o já citado autor inglês. Ah, então é uma segunda adaptação, dessa vez "americanizada", do livro do Hornby. Ok, já haviam feito isso com o Alta Fidelidade, descaracterizando a trama ao mudar o cenário de Londres para Chicago. Mas ainda assim não poderia ser nada recente, pois já teria passado nos cinemas brasileiros. Só ao voltar descobri que era mesmo um filme recente e que não havia nem estreado por aqui.

Acabei vendo o filme. Aqui saiu com algum nome de sessão da tarde, tipo "O jogo do amor" ou coisa assim. Tem a Drew e o Jimmy Fallon, que não é brilhante, mas faz a sua parte. E é uma comédia romântica bem conduzida, tendo os seus bons momentos. Recomendo pra quem não tiver nada pra fazer ou nenhum lugar pra ir, como era o caso. O segundo filme era uma comédia espanhola que não vi por motivo de sono maior. Só sei que também era recente, pois está passando no Festival do Rio agora.

Finalmente chegamos... na Espanha! Esqueci completamente, mas o primeiro lugar em que pisaria fora do Brasil não seria Lisboa, mas Madri, para fazer a escala. E o contato com essa terra estrangeira não poderia ser melhor. Uma cidade plana a perder de vista, que das vastas janelas do aeroporto parecia um horizonte infinito. Pra completar, estávamos lá nas primeiras horas da manhã, vendo o céu arroxeado clarear até que de trás das colinas saísse um sol de desenho animado trazendo as primeiras luzes do dia.

Depois de alguns contratempos com passageiros que ainda não entendiam qual seria a misteriosa função do detector de metais, estávamos no sucatão que nos levaria a Portugal. Apesar do embarque tranqüilo (poucos passageiros), a aparência do avião e os estranhos sons que ele fazia eram preocupantes, mesmo que o vôo fosse curto. Mas não foi dessa vez que entrei nas estatísticas de acidentes aéreos e chegamos sem problemas em solo português.