2.7.05

O samba do morcego doido

Então vamos ver... Qui-Gon Jinn transforma o vilão do Shaft no Psicopata Americano. Este volta para os EUA e, com ajuda do motorista de Miss Daisy, consegue umas trapizongas que vão fazer os bandidos terem medo dele. Aí ele se apaixona pela namorada do Dawson, chama o Drácula pra ser seu aliado, tem um dos Safados como mordomo e luta contra um dos últimos londrinos a sobreviver ao Extermínio. No final, ele descobre que Ra's Al Ghul não era um Samurai, mas um jedi. É isso?


Batman Begins é melhor que os outros quatro filmes? Isso é fácil. O filme definitivo do Batman? Ainda não foi dessa vez. O melhor filme de super-herói? Ora, nem super ele é. Esses e outros apontamentos são motivados pela euforia dos fãs ou pelo simplismo dos críticos. Não quero fazer uma crítica, analisar a história, a interpretação ou os efeitos especiais. Qualquer infeliz que lê isso aqui já leu críticas em outros lugares. Só vou comentar os pontos acima.

É o melhor filme do Batman?
Sem dúvida. Melhor que isso, só se filmassem Cavaleiro das Trevas, já que Begins é basicamente a Ano Um. Isso porque entre as quatro grandes histórias do Batman, Asilo Arkham e A Piada Mortal são estruturalmente próprias dos quadrinhos e não teriam tanta graça em outra mídia. Não que os outros não aproveitem os recursos narrativos dos quadrinhos, mas os roteiros de Miller são cinematográficos por natureza, parecendo quase storyboards, o que já facilita a transposição para as telas.

Mas seria o filme ideal do Batman?
Não pra mim. Falta emoção, sobram truques fáceis de roteiro. Culpa do Goyer, talvez, já que o Nolan fez muito bem a sua parte. Quando vi Homem-Aranha pela segunda vez, entrei no cinema com o objetivo de observar os detalhes técnicos do filme. Não consegui, pois novamente fui envolvido pela trama. Já em Begins, na primeira exibição, que deveria ser emocional, acabei percebendo detalhes como a trilha sonora e a iluminação. O uniforme borrachudo, as pequenas lições de moral, a insistência numa frase de efeito que mais parecia frase de auto-ajuda, tudo isso desviou a atenção do filme, deixando ao final da projeção aquela sensação de "faltou alguma coisa". Quem sabe em Cavaleiro das Trevas as coisas melhorem...

O melhor do gênero "super-herói"?
É uma pergunta que não se aplica. Primeiro, porque "super-herói" não é gênero (mais sobre isso no próximo post). Segundo, porque, definitivamente, Begins não é um filme de super-herói. Ainda bem. Como muitos heróis de Hollywood, Batman vive em uma "realidade fantástica", não na fantasia. Seus feitos são "improvavelmente possíveis", não impossíveis. Grosso modo, o Batman é como o Robin Hood, os super-heróis são como o Legolas. É a diferença, nada sutil, entre o que é quase inacreditável e o que é francamente inacreditável. E foi ótimo que optassem por essa abordagem, não somente tornando Gotham uma cidade "quase real", mas também fazendo com que toda a parafernália utilizada pelo morcego seja algo que "poderia existir". A única furada dessa abordagem é a amplamente comentada máquina de microondas, cujo funcionamento absurdo é mais parecido com a "ciência das HQs", algo do qual o filme parecia fugir até então. Num filme de fantasia propriamente dito, passaria sem problemas. Em Begins acaba entalando na garganta num momento-chave da trama.

Nenhum comentário:

Postar um comentário