25.7.05

Da arte de falar bem e não dizer nada (ou fingir que não disse)

Luis Fernando Verissimo, em coluna publicada n'O Globo de ontem, faz um belo texto utilizando temas já batidos (o problema do prazo/a atualidade do texto/o tempo no jornal), mas falando de algo completamente diferente. Mesmo sabendo que não tem o mesmo sabor/valor distante do veículo original, transcrevo a coluna aqui, pois acho que ela é atualizada em poucos dias. Aproveitem!


Hoje, terça

Estou escrevendo isto numa terça-feira. Vou fazer uma viagem, pequena, mas que me obriga a deixar esta matéria pronta. Como se sabe, não há nada que aterrorize mais um jornalista - salvo, em alguns casos, a gramática - do que escrever com antecedência sobre fatos que podem traí-lo, não acontecendo ou acontecendo ao contrário. Como aquele repórter americano designado para escrever sobre a chegada do "Titanic" a Nova York que preferiu deixar o texto que acompanharia as fotos do imponente navio atracando, com foguetes e banda de música, pronto, e ir passar um fim de semana com a namorada - do qual, é claro, nunca mais voltou. Uma história que eu acabei de inventar mas que ilustra bem nosso pavor. Entre o meu hoje (terça-feira) e o seu, leitor, há quase uma semana enfileirada em que, dada a situação brasileira, qualquer coisa pode ter acontecido, e provavelmente aconteceu. Inclusive o naufrágio do governo com poucos sobreviventes. Você não pode deixar de comentar a situação e ao mesmo tempo não sabe como ela será amanhã, o que dirá daqui a cinco ou seis dias. Estamos vivendo (nós que temos que ser pertinentes, e escrever antes) o pesadelo do curto prazo. Ah, escrever com tempo, sobre filósofos ou jardins, para grossas revistas mensais...

Eu poderia recorrer à minha bola de cristal mas ela está com defeito: só mostra o passado. Olho-a e vejo as manifestações contra o Collor que acabaram com o seu impixamento. Sempre achei que o Collor caiu pela empáfia. Não derrubaram um presidente, derrubaram uma pose. Não sei que paralelos podem ser feitos - ou que paralelos surgiram depois da terça-feira em que escrevo - entre Lula e Collor, mas não imagino manifestações com o mesmo tom contra Lula, cuja imagem pública hoje (terça-feira) é mais de desamparo do que qualquer outra atitude. Não dá para ver na minha bola de cristal, mesmo sacudindo-a, quando foi que o clima de então exigiu o desenlace radical da renúncia e o país entrou na lógica do inevitável. Não sei se estamos nesta lógica agora. Outras cenas na bola de cristal têm a ver com a corrupção de então e com os escândalos nunca investigados do passado mais recente, para efeitos de comparação com hoje, mas elas se tornaram irrelevantes diante do clima de derrocada final. A bola de cristal não me ajuda em nada. É o que dá, cristal nacional.

Enfim, consegui escrever uma crônica sem risco. Serve tanto para o "Titanic" chegar ou não chegar.

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