25.7.05

Os bons, os maus e os patéticos

A situação política atual, particularmente a situação envolvendo o presidente, trouxe à memória uma entrevista do John Byrne que saiu na antiga encarnação da Wizard. Ao ser perguntado sobre como via a Marvel e a DC naqueles dias, em que não mais escrevia/desenhava para nenhuma das duas, Byrne disse que a Marvel era "o Mal", enquanto a DC era "apenas patética". E finalizou: "sem dúvida eu prefiro ser patético a ser maléfico".

Com os fatos apresentados até agora, já se sabe que a corrupção chegou a proximidades alarmantes do presidente. As questões que todos vêm se perguntando são: Lula sabia ou não, permitia ou não, participava ou não?

Me parece que a resposta pra isso é parecida com a imagem que Byrne fez das majors americanas. Ou Lula assume que foi um pateta, que deixou de ver/saber/fazer coisas que, como presidente, ele deveria ter visto/sabido/feito; ou assume (para si mesmo, lógico) que agiu de má-fé, mentindo para o eleitorado que o elegeu, sendo omisso (no mínimo) e deixando que a corrupção corresse como correu.

Sendo patético, admite a incompetência, deixa o cargo, enfraquecido politicamente e fortalecido moralmente, e tenta analisar (na distância que favorece a análise) onde acertou, onde errou e onde poderia ter feito mais. Assim, ele poderia, algum dia, ter uma outra chance de consertar as coisas.

Sendo maléfico, utiliza o poder para tentar minimizar os danos, amputa dedos para não perder as mãos, cria bodes expiatórios e sai ileso, ainda mantendo (e reforçando) a imagem de "moralizador" do poder público. Segue para uma reeleição, preso por alianças que não pode desfazer, tendo que manter aqueles que "sabem demais" por perto, por via das dúvidas.

Não concordo com a opinião do Byrne sobre as editoras (acho que nem ele mesmo!), mas também prefiro ser patético.

Da arte de falar bem e não dizer nada (ou fingir que não disse)

Luis Fernando Verissimo, em coluna publicada n'O Globo de ontem, faz um belo texto utilizando temas já batidos (o problema do prazo/a atualidade do texto/o tempo no jornal), mas falando de algo completamente diferente. Mesmo sabendo que não tem o mesmo sabor/valor distante do veículo original, transcrevo a coluna aqui, pois acho que ela é atualizada em poucos dias. Aproveitem!


Hoje, terça

Estou escrevendo isto numa terça-feira. Vou fazer uma viagem, pequena, mas que me obriga a deixar esta matéria pronta. Como se sabe, não há nada que aterrorize mais um jornalista - salvo, em alguns casos, a gramática - do que escrever com antecedência sobre fatos que podem traí-lo, não acontecendo ou acontecendo ao contrário. Como aquele repórter americano designado para escrever sobre a chegada do "Titanic" a Nova York que preferiu deixar o texto que acompanharia as fotos do imponente navio atracando, com foguetes e banda de música, pronto, e ir passar um fim de semana com a namorada - do qual, é claro, nunca mais voltou. Uma história que eu acabei de inventar mas que ilustra bem nosso pavor. Entre o meu hoje (terça-feira) e o seu, leitor, há quase uma semana enfileirada em que, dada a situação brasileira, qualquer coisa pode ter acontecido, e provavelmente aconteceu. Inclusive o naufrágio do governo com poucos sobreviventes. Você não pode deixar de comentar a situação e ao mesmo tempo não sabe como ela será amanhã, o que dirá daqui a cinco ou seis dias. Estamos vivendo (nós que temos que ser pertinentes, e escrever antes) o pesadelo do curto prazo. Ah, escrever com tempo, sobre filósofos ou jardins, para grossas revistas mensais...

Eu poderia recorrer à minha bola de cristal mas ela está com defeito: só mostra o passado. Olho-a e vejo as manifestações contra o Collor que acabaram com o seu impixamento. Sempre achei que o Collor caiu pela empáfia. Não derrubaram um presidente, derrubaram uma pose. Não sei que paralelos podem ser feitos - ou que paralelos surgiram depois da terça-feira em que escrevo - entre Lula e Collor, mas não imagino manifestações com o mesmo tom contra Lula, cuja imagem pública hoje (terça-feira) é mais de desamparo do que qualquer outra atitude. Não dá para ver na minha bola de cristal, mesmo sacudindo-a, quando foi que o clima de então exigiu o desenlace radical da renúncia e o país entrou na lógica do inevitável. Não sei se estamos nesta lógica agora. Outras cenas na bola de cristal têm a ver com a corrupção de então e com os escândalos nunca investigados do passado mais recente, para efeitos de comparação com hoje, mas elas se tornaram irrelevantes diante do clima de derrocada final. A bola de cristal não me ajuda em nada. É o que dá, cristal nacional.

Enfim, consegui escrever uma crônica sem risco. Serve tanto para o "Titanic" chegar ou não chegar.

Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio

O espírito do homem de bem acaba por chegar a seus limites, o que se expressa em dezenas de formas, até mesmo evitando esses assuntos, por uma questão de sobrevivência psicológica e emocional, pois, afinal, para muitos, já soçobraram os valores, as crenças e os padrões incorporados à sua formação, o que pode tornar a vida insuportável.

O trecho acima é da coluna do xará Ubaldo, publicada esse domingo n'O Globo.
Apesar de não concordar com alguns termos (o "homem de bem", por exemplo, parece um ser mitológico, podendo ser trocado por "homem comum" ou "cidadão médio"), o colunista diz com todas as palavras (pelo menos todas as necessárias) o que estamos pensando nesse momento delicado. O texto completo pode/deve ser lido clicando aqui (precisa ser cadastrado pra ler).

6.7.05

Quem é Donna Troy?


Saiu no Fanboy uma matéria que explica a cronologia atual do Gavião Negro/Falcão da Noite/Hawkman. Tendo uma das cronologias mais castigadas pelas diversas reformulações ao longo dos anos (tão confusa quanto a da Moça-Maravilha ou até mais), o personagem só passou a fazer algum sentido ao ser reformulado por Geoff Johns. E por "fazer sentido" entenda-se reencarnações, alienígenas, fusões de mente e outras estripulias que se encaixam no conceito de "normalidade" do Universo DC. Mais fanboy, impossível.

2.7.05

Morcego não é um rato com asas

Que tipo de filme é Batman Begins? Um "filme de super-herói"? Uma adaptação de quadrinhos? Uma adaptação e só? Nos últimos anos, essas três definições têm sido tratadas erroneamente como sinônimos e, pior ainda, como gênero.

Um "filme de super-herói" é um filme em que o tipo conhecido como "mocinho" ou "herói" apresenta habilidades visivelmente sobre-humanas ou sobrenaturais. Essas habilidades o diferenciam do herói comum, que conta com capacidades humanas acentuadas, num tipo de licença poética típica do cinema. O "filme de super-herói" NÃO é um gênero, ou mesmo um subgênero. Apesar desse tipo de personagem ser mais apropriado a filmes de aventura, nada impede que exista um super-herói em uma comédia ou drama.

"Adaptação de quadrinhos" não significa que tem super-herói no filme e também não é um gênero. Esse caso é ainda mais óbvio, visto que os próprios quadrinhos são divididos em gêneros. Talvez a maior parte dos americanos ache que só existem os quadrinhos de super-herói (esses sim podendo ser considerados um subgênero com características reconhecíveis, pelo menos até os anos 80), mas aqui todos nós conhecemos pelo menos mais um gênero de quadrinho, o infantil. Claro que a força desse gênero contribuiu para o pensamento-padrão "gibi é coisa de criança", mas isso não vem ao caso. O que importa é que a adaptação de quadrinhos não precisa ser um filme de super-herói, e vice-versa.

Por último, quero desmentir a maior besteira que vem sendo re-repetida por aí. "Adaptação" NÃO é um gênero. Primeiro porque toda adaptação vem de outra mídia/arte que tem os seus próprios gêneros. Obviamente, as adaptações de uma tragédia grega e de um conto humorístico dificilmente pertenceriam ao mesmo gênero de filme. Segundo, as adaptações de quadrinhos estão na moda, mas o cinema já vive de adaptações (de romances, contos, peças, óperas, musicais) desde que nasceu. Os programas de TV e os quadrinhos só foram tardiamente descobertos, mas as adaptações (principalmente de livros) sempre foram grande parte das produções cinematográficas. Terceiro, as adaptações não possuem a obrigação de pertencer ao gênero da obra original. Nada impede que aventuras medievais sejam adaptadas como humor pastelão. Portanto, "adaptação" quer dizer que houve uma transposição de mídias e somente isso, não tendo relação alguma com o gênero do produto final.

O que se poderia dizer de Begins, então? Certamente é uma adaptação de quadrinhos, mas o herói que aparece ali não é "super", portanto foge da alcunha "filme de super-herói". E o gênero? Uma mistura de elementos de vários gêneros, como a maioria dos filmes atualmente. Basicamente é uma aventura e uma fantasia, com boas doses de ação e policial. Não por acaso, esses gêneros são a essência dos pulps de onde vieram as maiores influências para a criação do Batman. Portanto, o que o filme faz é trazer o personagem de volta às origens e faz isso muito bem.

O samba do morcego doido

Então vamos ver... Qui-Gon Jinn transforma o vilão do Shaft no Psicopata Americano. Este volta para os EUA e, com ajuda do motorista de Miss Daisy, consegue umas trapizongas que vão fazer os bandidos terem medo dele. Aí ele se apaixona pela namorada do Dawson, chama o Drácula pra ser seu aliado, tem um dos Safados como mordomo e luta contra um dos últimos londrinos a sobreviver ao Extermínio. No final, ele descobre que Ra's Al Ghul não era um Samurai, mas um jedi. É isso?


Batman Begins é melhor que os outros quatro filmes? Isso é fácil. O filme definitivo do Batman? Ainda não foi dessa vez. O melhor filme de super-herói? Ora, nem super ele é. Esses e outros apontamentos são motivados pela euforia dos fãs ou pelo simplismo dos críticos. Não quero fazer uma crítica, analisar a história, a interpretação ou os efeitos especiais. Qualquer infeliz que lê isso aqui já leu críticas em outros lugares. Só vou comentar os pontos acima.

É o melhor filme do Batman?
Sem dúvida. Melhor que isso, só se filmassem Cavaleiro das Trevas, já que Begins é basicamente a Ano Um. Isso porque entre as quatro grandes histórias do Batman, Asilo Arkham e A Piada Mortal são estruturalmente próprias dos quadrinhos e não teriam tanta graça em outra mídia. Não que os outros não aproveitem os recursos narrativos dos quadrinhos, mas os roteiros de Miller são cinematográficos por natureza, parecendo quase storyboards, o que já facilita a transposição para as telas.

Mas seria o filme ideal do Batman?
Não pra mim. Falta emoção, sobram truques fáceis de roteiro. Culpa do Goyer, talvez, já que o Nolan fez muito bem a sua parte. Quando vi Homem-Aranha pela segunda vez, entrei no cinema com o objetivo de observar os detalhes técnicos do filme. Não consegui, pois novamente fui envolvido pela trama. Já em Begins, na primeira exibição, que deveria ser emocional, acabei percebendo detalhes como a trilha sonora e a iluminação. O uniforme borrachudo, as pequenas lições de moral, a insistência numa frase de efeito que mais parecia frase de auto-ajuda, tudo isso desviou a atenção do filme, deixando ao final da projeção aquela sensação de "faltou alguma coisa". Quem sabe em Cavaleiro das Trevas as coisas melhorem...

O melhor do gênero "super-herói"?
É uma pergunta que não se aplica. Primeiro, porque "super-herói" não é gênero (mais sobre isso no próximo post). Segundo, porque, definitivamente, Begins não é um filme de super-herói. Ainda bem. Como muitos heróis de Hollywood, Batman vive em uma "realidade fantástica", não na fantasia. Seus feitos são "improvavelmente possíveis", não impossíveis. Grosso modo, o Batman é como o Robin Hood, os super-heróis são como o Legolas. É a diferença, nada sutil, entre o que é quase inacreditável e o que é francamente inacreditável. E foi ótimo que optassem por essa abordagem, não somente tornando Gotham uma cidade "quase real", mas também fazendo com que toda a parafernália utilizada pelo morcego seja algo que "poderia existir". A única furada dessa abordagem é a amplamente comentada máquina de microondas, cujo funcionamento absurdo é mais parecido com a "ciência das HQs", algo do qual o filme parecia fugir até então. Num filme de fantasia propriamente dito, passaria sem problemas. Em Begins acaba entalando na garganta num momento-chave da trama.