9.5.05

Metafísica do segredo

"Existem dois tipos de pessoas: as que guardam um segredo e as que não guardam."
Este texto poderia ter começado com a frase acima (na verdade começou, só que era só um exemplo, por isso as aspas), mas então seria um péssimo texto. Aliás, desconfie de qualquer texto que apresente uma frase no esquema "existem n tipos de pessoas", logo seguido da especificação de cada um desses tipos. É uma generalização absurda, que não pode ser aplicada na realidade. Dito isso, sigamos adiante.
Segredos são uma particularidade interessante do que chamamos "condição humana". A forma como as pessoas lidam com os segredos (próprios e alheios) varia de acordo com o entendimento que cada um tem de sua utilidade, motivando frases como a que abre o texto e títulos arrogantes como o que pode ser lido acima.
Muita gente mal sabe conceituar um segredo. Contam um fato pra algumas pessoas e não pra outras e acham que criaram um segredo. Isso poderia ser chamado no máximo de "informação privilegiada". Outros acham que segredo deve ser algo vergonhoso, por isso mantemos para nós mesmos. Sim, existem esqueletos no armário que permanecem secretos, mas o conceito do segredo é bem mais abrangente que isso.
O que acho engraçado mesmo é uma certa noção comum de que segredos devem ser compartilhados, de preferência com um único confidente. Há até uma frase famosa que diz que "não há segredos entre três pessoas". Concordo, mas acredito que dificilmente um segredo escutado/lido por uma única pessoa seja garantido eternamente. Bons segredos repousam em ouvidos de confiança. Ótimos segredos são aqueles que jamais foram compartilhados. Levados para o túmulo. Mesmo esses, entretanto, não são infalíveis. Um testamento, uma carta, um objeto, um curioso no lugar e na hora certos, são registros que podem desvendar um ótimo mistério.
E existem os segredos perfeitos. Perfeitos porque não podem ser desvendados. Perfeitos porque jamais deixarão de ser segredos. Ocultos entre momentos, escritos em eletricidade. Que nunca se tornaram sons ou letras, que não tiveram a chance de ser matéria. Pensamentos descartados, idéias esquecidas. Levados pelo tempo, que tudo devora.

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