8.8.04

Olhos tortos através dos espelhos

Muita gente não percebe que sou estrábico. Não absurdamente vesgo, mas quando cansado ou com sono, o desvio dos olhos pode ser percebido facilmente. Quando era criança, fui durante um tempo no oftalmologista para fazer exercícios que resolvessem o problema. Os olhos estavam sendo treinados para ficar alinhados.
De uns tempos (mais recentes) pra cá, tenho a impressão de que o tal treinamento tinha data de validade. Durante longas leituras, seja em papel ou no computador, começa a ficar difícil concentrar a visão em um único ponto e o esforço para buscar um ponto focal causa uma incômoda dor-de-cabeça.
Forçando mais um pouco, a partir daí, chego a um estágio interessante. Por não conseguir mais focalizar um ponto específico, começo a obter imagens e sensações de luz de forma difusa. Com uma TV ligada, as mensagens textuais se perdem, mas também somem as imagens que carregam as mensagens; a televisão passa a ser apenas uma fonte de luz inconstante que ilumina partes do ambiente à sua volta. Em suma, deixo de decodificar os símbolos que construímos e passo a descodificar todos esses textos e imagens. É uma pequena "trapaça" que ajuda a ver como alguém não-imerso na cultura (possivelmente) perceberia o nosso mundo de poluição sensorial.
O melhor de tudo é, claro, sentir o alívio de retornar dessa "viagem". Não só pelo fim da dor dentro do crânio, mas também por voltar a interpretar o mundo através dos códigos (necessidade vital para quem tenta traduzir a vida em textos e imagens, mesmo sabendo ser impossível). E, por que não, interpretar a própria trapaça. Aí podemos confirmar o que Carroll já sabia: na ausência de interpretação, um espelho é uma janela.

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