7.6.04

Ponto de ruptura

Ele não demonstrava sentimentos. Até mostrava aqueles pequenos sentimentos: alegria, tristeza, frustração, entusiasmo. Mas não os grandes. Nada amava "de todo o coração", nada odiava "do fundo da alma". E vivia assim.
Fé? É para os tolos. Vingança? É para os fracos. Estava além disso. Estava acima disso.

Um dia se apaixonou. Seu mundo controlado quase se desfez. Ele, que não acreditava em perfeição, conhecera um ser humano perfeito. Ele, que tanto prezava sua independência, passara a colocar as necessidades e desejos de outro ser acima das suas. Estava feliz. Feliz e confuso. Num lapso de lucidez, rompeu o relacionamento. Recuperou o controle das próprias emoções. Era novamente o ser que almejava ser.

Certa vez, sofreu grande violência. Veio o ímpeto de eliminar o outro, sempre o outro. Mas se agisse como o outro, seria como o outro. Não era o que queria. Fez o que era devido e correto. Era como que ele era.
Centrado, controlado, exemplar. Assim os outros o consideravam. Ele não via mérito algum em ser como era. Apenas pensava que essa era a forma de existir. Funcionava assim. Aí veio o tapa na cara.

Tapas não são um gesto comum nos dias de hoje. Salvo alguns ébrios mais atrevidos, não é comum ver pessoas levando tapas por aí. Em uma rua qualquer, em um dia qualquer, ele viu um tapa. A cidade nos inunda de barulhos, mas aquele golpe emitiu um som que calou todos os sons. A cidade não se calou, as pessoas não se calaram, mas naquele momento o tapa foi tudo o que ele ouviu. E tudo o que ele viu foi uma mãe batendo em uma filha.

Ao som daquele tapa, algo nele se quebrou. Talvez a culpa seja da cidade barulhenta. Talvez das pessoas que ignoravam a cena. Algo nele se rompeu. A criança não esboçou reação maior do que um grito de dor não emitido e uma lágrima contrária à sua vontade. Ela estava acostumada com o gesto. Ele sentia emoções misturadas, confusas. A mãe não expressava raiva, tristeza, remorso ou vergonha. O tapa era um gesto banal, habitual. Ele havia atingido o ponto de ruptura. Não havia amor ou ódio que justificasse aquele gesto. Não era motivado por fé ou vingança. Era gratuito, algo sem sentido no meio de tantas coisas sem sentido. Quando ele achava que ia implodir em dor, tudo passou.

A confusão não mais existia. Não havia mais dúvidas. Algo nele se rompeu, talvez para sempre, mas isso agora parecia natural. Tinha as idéias claras e percebeu imediatamente o que deveria fazer. Andou os metros que o separavam da mãe e acertou ela. Várias vezes. Só parou quando a mulher parou de reagir, então deitou delicadamente seu corpo desacordado no chão. Foi até a menina, parada e chocada, e disse uma única palavra:
- Chore.
E ela chorou. Como se não escutasse o próprio choro há anos. Como se nunca tivesse chorado.
Enquanto seguia seu caminho, ele ligou para chamar a ambulância e ouviu o choro já distante. E percebeu que não estava alegre ou triste, mas se sentia capaz de demonstrar esses e muitos outros sentimentos. Sabia que era uma pessoa diferente de antes. Algo nele mudara definitivamente e ele seria assim a partir daquele momento. Pois assim ele era.

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