27.3.04

Editando e andando

A crise assola os quadrinhos. Ouço/leio isso desde que comecei a ler. E a culpa recai sempre nas mesmas coisas e pessoas: a concorrência com o cinema, a TV a cabo e o videogame (já perceberam que a concorrência nunca é com os livros? Estranho!); o parco número de leitores no país; histórias de baixa qualidade, o baixo poder aquisitivo da população.
Esses são apenas alguns motivos. Cada um deles renderia um texto sobre o assunto, mas quero falar de um dado que não costuma ser apontado: a baixa qualidade da produção editorial e da edição propriamente dita.
Muito se fala a respeito da (baixa) qualidade das histórias. Mas as próprias editoras afundam revistas com boas histórias por más decisões editoriais ou mesmo pela pura e simples falta de cuidado com as histórias. Por isso, farei uma breve análise de duas revistas que apresentam esse problema. Em uma, o problema não é tão grave, mas pode ter algumas conseqüências. Na outra a coisa se complica, e é fácil notar que a revista terá problemas com isso.


A primeira "vítima" é Homem-Aranha #27, da editora Panini Comics, deste mês. É importante notar que ela saiu no mês indicado/anunciado, dado importante numa revista mensal. A revista é do tipo "mix", juntando na edição nacional diferentes revistas originais (nesse caso, dos EUA). Esse tipo de revista tem vários pontos positivos e negativos, mas a Panini evitou alguns deles ao concentrar na publicação apenas revistas com alguma relação com o universo do personagem principal. Homem-Aranha #27 custa R$ 6,00, possui formato americano e 100 páginas, reunindo quatro histórias, mais as capas originais, seção de cartas, anúncios e checklist.
Não vejo maiores problemas editoriais dentro da revista e considero o título principal (Amazing Spider-Man, escrito por J. Michael Straczynski) de boa qualidade. O problema aqui é com a capa. Na sua última reforma gráfica, a Panini colocou uma marca semi-transparente na capa que ocupa a maior parte da sua borda esquerda. O objetivo deve ter sido criar uma identidade visual para as revistas (os designers podem explicar isso melhor), mas pessoalmente acho que foi uma péssima escolha. Isso gerou diminuição da largura dos títulos e poluição visual do desenho da capa. Na capa deste mês, isso gera um problema. Desenhada por J. Scott Campbell (que já não possui uma arte tradicional), a capa é dividida diagonalmente em duas, além de apresentar elementos que "sujam" a cena, como flocos de neve e vapor. No geral, Campbell criou uma ótima composição, mas foi prejudicado pelo título, pela já citada marca "de identificação", pelo código de barras (obrigatório) e pela "chamada" desnecessária abaixo do título. Essa última é, pra mim, o maior problema dessa capa e, ao contrário dos outros problemas apresentados, é de inteira responsabilidade do editor. A chamada apresenta o texto "A ameaça do Escavador" que, francamente, não é chamativo pra ninguém. O vilão surgiu na edição passada, tem um nome coerente, mas nada assustador e, o pior de tudo, não tem relação nenhuma (nem na forma, nem no conteúdo) com a capa.
Seria muito interessante se a revista trouxesse o mínimo de poluição visual possível na capa. A ilustração de Campbell ilustra uma situação icônica das histórias do Homem-aranha: a dicotomia entre o dever do herói e a preocupação da esposa que espera o marido voltar. A situação é apresentada pelo desenho; palavras são desnecessárias. Deixem as "chamadas" para as cenas de ação.


Se na primeira revista analisada, os problemas se concentravam na capa, aqui eles se generalizam. Freqüência Global #1, da editora Pandora Books, foi lançada em dezembro do ano passado, mas era anunciada para novembro, inclusive com indicações dentro da revista. O primeiro erro já está aí. Atrasar de uma edição para outra é algo que acaba acontecendo de vez em quando. Atrasar a primeira edição (que pode ser lançada quando a editora quiser) já demonstra falta de cuidado. Se considerarmos que a revista tem distribuição exclusiva em poucos pontos de venda (23, em todo o país), uma facilidade maior para a editora, agrava ainda mais o erro.
Freqüência Global é uma revista de 28 páginas em formato americano e corresponde à revista Global Frequency #1, escrita por Warren Ellis. A revista apresenta a história original, um editorial, um texto explicativo e apenas um anúncio, na última capa. O preço sugerido pela editora (não há preço na capa da revista) é R$ 7,90. Acontece que a revista é distribuída exclusivamente por uma rede de lojas especializadas (cujo logotipo está impresso na capa, com mais destaque que a própria editora), o que garante que o preço sugerido seja o preço mínimo praticado.
O preço, por si, é algo sem explicação. Talvez a baixa tiragem e o papel especial (igual ao da capa, talvez?) utilizado nas páginas sirvam como desculpa. A baixa tiragem é um tiro no pé, restringindo o público e impossibilitando outros mercados. Se o objetivo é uma série adulta de quadrinhos de ficção, por que não aumentar a tiragem e colocar o produto em livrarias? Além disso, a distribuição restrita (um dos motivos para a baixa tiragem) sai muito mais barata que uma distribuição normal e isso deveria se refletir no preço da revista. Já o papel, sem dúvida melhor que o das revistas comuns, acaba se tornando um duplo problema, ao tornar a revista mais cara e atrapalhar a qualidade da leitura, pois em várias páginas uma ou mais cores estão tremidas ou desalinhadas com as demais. Erro da parte gráfica, certamente, mas deixa uma questão: se a gráfica e/ou a técnica de impressão escolhida não eram adequadas para trabalhar com esse tipo de papel, então por que não mudaram o papel? Mais uma vez, um equívoco editorial faz o leitor sair prejudicado.
Passando para o conteúdo, chegamos ao mérito da revista. Warren Ellis, autor da excelente série Planetary, constrói uma bela história fechada, apesar de apresentar vários elementos que serão importantes para as edições seguintes. A tradução foi bem feita e não encontrei nenhum erro de português nos balões ou recordatórios. Já nos textos complementares...
Você abre a revista e começa a ler a primeira frase do editorial. "Há bilhões de anos um cataclismo varreu da terra os dinossauros que, até então, reinavam absolutos no planeta". Bilhões? BILHÕES?? Mas os dinossauros desapareceram há cerca de 65 milhões de anos! Há bilhões de anos nem existiam dinossauros. A vida na Terra tem cerca de um bilhão de anos. Mesmo o planeta tem poucos bilhões de anos de idade. A primeira frase do editorial da primeira edição de uma publicação voltada para um público minimamente letrado deve ser mais cuidadosa. Mesmo que não tenha sido um erro de conceito, mas de revisão (o que espero ser o caso), é um erro de pelo menos 900 milhões de anos.
No texto final a falha é ainda pior. Num texto de autoria do editor, fala-se em pesquisas científicas e fatos (reais ou não) relacionados ao teletransporte. O texto é muito bem escrito, exceto por um grave erro conceitual, na passagem que diz "Para alguns estudiosos, esses casos são a manifestação de um sentido que vai além dos quatro já conhecidos" (grifo meu). Vamos contar? Visão, audição, olfato, tato e paladar. São cinco, se não me engano. Existem pessoas que não possuem todos os cinco sentidos, mas todos eles são conhecidos há muito (muito!) tempo. Para provar que o erro não ocorreu por mera distração, o "olho" do texto apresenta a mesma passagem, com o mesmo erro.
Resumindo, uma ótima história em uma edição ruim, cara e com erros difíceis de engolir. Resultado: essa é uma revista que não voltarei a comprar. E quero ver se alguém vai dizer que agora a culpa também é do leitor.