8.3.04

E os outros 365?

Como o último texto foi a respeito das mulheres, continuo no assunto. Hoje é o "Dia Internacional da Mulher". Os engraçadinhos dizem que não tem problema, "pois os outros 364 dias são nossos". Como estamos em ano bissexto, seriam 365. E onde está o problema? Nas palavras. As palavras mudam tudo. A piadinha machista reflete a realidade. Como esta não é uma data comercial (como Dia das Mães, Dia dos Namorados, etc.), ela deveria ser levada a sério. Acho que isso não acontece, entre outras coisas, por causa do nome da data.
O Dia da Consciência Negra, por exemplo, é um dia específico para a sociedade (brancos, negros e verdes com bolinhas roxas) pensar a posição (ocupada e a ocupar) do negro na sociedade e os problemas que o povo negro enfrenta em um país extremamente racista. Isso não significa que tais pensamentos não devam ser exercitados ao longo do ano, mas a existência de um dia específico para isso traz a discussão para o centro das atenções, principalmente na imprensa.
O Dia da Mulher geralmente é marcado por odes à figura feminina, homenagens e gestos simbólicos. Mas a troca de idéias sobre a posição da mulher na sociedade continua restrita a guetos, sejam eles acadêmicos ou informais. Seria menos prejudicial e mais vantajoso criar algo como o "Dia da Consciência Feminina", quando todos (homens, mulheres e seres indefinidos) reconheceriam o valor (óbvio!) da mulher para a sociedade que (ainda!) a oprime e discutiriam o que pode ser feito mudar esse quadro.
É certo que nem todos participariam de eventos desse tipo (assim como tem muita gente que ignora o Dia da Consciência Negra), mas já serviria para mobilizar parte da sociedade, principalmente através dos meios de comunicação. No mínimo, mudaria a situação atual, na qual o dia de hoje serve para endeusar as mulheres, que são destratadas no resto do ano.
É algo parecido com o Carnaval, onde uma sociedade comportada e conservadora se permite uma liberdade ritualística das regras. Findo o carnaval, volta-se à vida ordinária. Compensa? Só se for como medida de controle. No caso das mulheres, rosas e poesias hoje compensam menores salários e assédio sexual no resto do ano.
Falta equilíbrio. Nem tanto patéticas demonstrações de admiração, nem tanto desprezo e abuso. Discretamente, sem levantar bandeiras e gritar palavras de ordem, aqueles que realmente amam as mulheres (sejam uma, várias, todas ou simplesmente o conceito da mulher) dedicam a elas todos os dias do ano, inclusive hoje.

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