27.3.04

O primeiro e-mail a gente nunca deleta

Sei que o Ex-quase-futuro é uma porcaria. Mas tento fazer essa porcaria da melhor forma possível. E parece que os esforços estão dando resultados. Recebi recentemente o primeiro e-mail de um leitor do blog. O leitor a ter essa honra (?) foi o Castrezana, cujo blog é uma das minhas paradas diárias. No e-mail, ele me sugeria que, colocando um sistema de comentários, talvez o número de visitas aumentasse. Não me importo tanto com o número de visitas, mas gostaria de receber um retorno (o famoso "feedback") daqueles que por ventura caírem neste blog perdido no tempo-espaço.
Pensando na sugestão dele e vendo o exemplo de outros blogs, tô pensando em enxertar um sistema de comentários aqui em fase de teste. Se os comentários acrescentarem algo (em resposta dos leitores, não em visitas), ficam por aqui. Se não for o caso, ignorem esse papo todo.
Abaixo, segue um trecho do e-mail que mandei pro Castrezana, com algumas coisas que notei ao visitar outros blogs. Sei que alguns podem achar as observações óbvias, mas podem ajudar quem está começando e quer ter mais visitas.

"O que torna um blog visitado:
a) Comentários: eles garantem o feedback rápido e hoje em dia ninguém tem tempo e/ou disposição pra ficar mandando e-mail só por causa de um post. Os comentários muitas vezes viram mini-fóruns sobre o post a que se referem, fazendo os leitores retornarem mais vezes;
b) Freqüência: nos dias que postei com freqüência (pelo menos um post por dia), o número de visitas se estabilizou no máximo. Mas, como dá pra perceber nas datas dos posts, não sou lá muito regular e logo a média começa a baixar de novo. O leitor não volta se achar que o blog está abandonado;
c) Imagens: não precisam ser elaboradas e bem-feitas, pode ser só 'recorta-e-cola' da internet mesmo. Muita gente só lê um texto se tiver uma imagem legal do lado. E também já detectei outra função importante das imagens: na primeira visita a um blog, as pessoas procuram dar uma olhada nas imagens pra ver se aquele site combina com elas ou não. Se na primeira visita a um blog, dou de cara com uma foto do Leonardo DiCaprio com a legenda abaixo dizendo 'my lindinhu', obviamente não visitarei esse blog novamente;
d) Mulher nua: imagens ou pelo menos links para imagens. Mulheres famosas ou 'na moda' garantem muitos acessos."

É claro que existem outras técnicas, mas a maioria delas peca contra a boa educação na Rede, então prefiro nem comentar. Enquanto os comentários não aparecerem (ou depois que eles se forem), podem se comunicar através do Ex-quase-mail.

Batalha dos planetas

Matéria originalmente publicada no jornal O Globo do dia 18/03/04.
"Descoberta de Sedna ameaça fazer Plutão perder o status de planeta

LONDRES. Em vez de aumentar a lista de planetas do Sistema Solar, Sedna, o mundo gelado cuja descoberta foi anunciada esta semana, poderá reduzir essa relação. O status de Sedna, que poderia ser considerado o décimo planeta, começará a ser discutido este mês por um grupo de trabalho da União Internacional de Astronomia.
O grupo tem a difícil tarefa de estabelecer o tamanho mínimo para um astro ser considerado um planeta. A discussão reside no fato de que Sedna não é muito menor do que Plutão, o nono e mais distante planeta do Sistema Solar. Em 1999 Plutão quase foi rebaixado à categoria de planetóide por cientistas que o consideravam pequeno demais para ser um planeta. Agora, astrônomos dizem que se Plutão com 2.360 quilômetros de diâmetro é um planeta, Sedna, com 1.770 quilômetros, também deveria ser.
Da mesma forma, se Sedna for considerado pequeno demais, Plutão deveria ir com ele para o grupo dos planetóides (a grosso modo, asteróides gigantes), deixando o Sistema Solar com apenas oito planetas."

Que atitude esnobe essa dos cientistas. Em vez de aceitar mais um planeta no clube, acabam expulsando o sócio mais recente. Aposto que só fazem isso porque não têm concorrência. Se vida inteligente de um outro sistema solar se comunicasse com a Terra, aposto que os cientistas dos dois mundos iam contabilizar qualquer asteróide maiorzinho como planeta só pra ficar com mais que o outro.
Quem se dá bem com esse rebaixamento de Plutão são as crianças ainda no colégio. "Um planeta a menos pra decorar? Beleza! Agora só falta tirarem a divisão da Matemática e tô feito!"
Sem contar que o ex-quase-futuro nono planeta dava o maior trabalho pra montar na feira de ciências, porque ele tinha a órbita oblíqua em relação aos outros e era muito pequeno pra ser mostrado sem nenhum erro de escala.
De malandro na história ficou o Sedna, que sacaneou Plutão, apareceu na imprensa do mundo inteiro e nem teve que usar um nome mitológico. Aliás, com os melhores nomes já utilizados, só ia sobrar para o ex-quase-futuro décimo planeta os nomes de Baco ou Vulcano, o que faria dele o único planeta trekker da história.

Editando e andando

A crise assola os quadrinhos. Ouço/leio isso desde que comecei a ler. E a culpa recai sempre nas mesmas coisas e pessoas: a concorrência com o cinema, a TV a cabo e o videogame (já perceberam que a concorrência nunca é com os livros? Estranho!); o parco número de leitores no país; histórias de baixa qualidade, o baixo poder aquisitivo da população.
Esses são apenas alguns motivos. Cada um deles renderia um texto sobre o assunto, mas quero falar de um dado que não costuma ser apontado: a baixa qualidade da produção editorial e da edição propriamente dita.
Muito se fala a respeito da (baixa) qualidade das histórias. Mas as próprias editoras afundam revistas com boas histórias por más decisões editoriais ou mesmo pela pura e simples falta de cuidado com as histórias. Por isso, farei uma breve análise de duas revistas que apresentam esse problema. Em uma, o problema não é tão grave, mas pode ter algumas conseqüências. Na outra a coisa se complica, e é fácil notar que a revista terá problemas com isso.


A primeira "vítima" é Homem-Aranha #27, da editora Panini Comics, deste mês. É importante notar que ela saiu no mês indicado/anunciado, dado importante numa revista mensal. A revista é do tipo "mix", juntando na edição nacional diferentes revistas originais (nesse caso, dos EUA). Esse tipo de revista tem vários pontos positivos e negativos, mas a Panini evitou alguns deles ao concentrar na publicação apenas revistas com alguma relação com o universo do personagem principal. Homem-Aranha #27 custa R$ 6,00, possui formato americano e 100 páginas, reunindo quatro histórias, mais as capas originais, seção de cartas, anúncios e checklist.
Não vejo maiores problemas editoriais dentro da revista e considero o título principal (Amazing Spider-Man, escrito por J. Michael Straczynski) de boa qualidade. O problema aqui é com a capa. Na sua última reforma gráfica, a Panini colocou uma marca semi-transparente na capa que ocupa a maior parte da sua borda esquerda. O objetivo deve ter sido criar uma identidade visual para as revistas (os designers podem explicar isso melhor), mas pessoalmente acho que foi uma péssima escolha. Isso gerou diminuição da largura dos títulos e poluição visual do desenho da capa. Na capa deste mês, isso gera um problema. Desenhada por J. Scott Campbell (que já não possui uma arte tradicional), a capa é dividida diagonalmente em duas, além de apresentar elementos que "sujam" a cena, como flocos de neve e vapor. No geral, Campbell criou uma ótima composição, mas foi prejudicado pelo título, pela já citada marca "de identificação", pelo código de barras (obrigatório) e pela "chamada" desnecessária abaixo do título. Essa última é, pra mim, o maior problema dessa capa e, ao contrário dos outros problemas apresentados, é de inteira responsabilidade do editor. A chamada apresenta o texto "A ameaça do Escavador" que, francamente, não é chamativo pra ninguém. O vilão surgiu na edição passada, tem um nome coerente, mas nada assustador e, o pior de tudo, não tem relação nenhuma (nem na forma, nem no conteúdo) com a capa.
Seria muito interessante se a revista trouxesse o mínimo de poluição visual possível na capa. A ilustração de Campbell ilustra uma situação icônica das histórias do Homem-aranha: a dicotomia entre o dever do herói e a preocupação da esposa que espera o marido voltar. A situação é apresentada pelo desenho; palavras são desnecessárias. Deixem as "chamadas" para as cenas de ação.


Se na primeira revista analisada, os problemas se concentravam na capa, aqui eles se generalizam. Freqüência Global #1, da editora Pandora Books, foi lançada em dezembro do ano passado, mas era anunciada para novembro, inclusive com indicações dentro da revista. O primeiro erro já está aí. Atrasar de uma edição para outra é algo que acaba acontecendo de vez em quando. Atrasar a primeira edição (que pode ser lançada quando a editora quiser) já demonstra falta de cuidado. Se considerarmos que a revista tem distribuição exclusiva em poucos pontos de venda (23, em todo o país), uma facilidade maior para a editora, agrava ainda mais o erro.
Freqüência Global é uma revista de 28 páginas em formato americano e corresponde à revista Global Frequency #1, escrita por Warren Ellis. A revista apresenta a história original, um editorial, um texto explicativo e apenas um anúncio, na última capa. O preço sugerido pela editora (não há preço na capa da revista) é R$ 7,90. Acontece que a revista é distribuída exclusivamente por uma rede de lojas especializadas (cujo logotipo está impresso na capa, com mais destaque que a própria editora), o que garante que o preço sugerido seja o preço mínimo praticado.
O preço, por si, é algo sem explicação. Talvez a baixa tiragem e o papel especial (igual ao da capa, talvez?) utilizado nas páginas sirvam como desculpa. A baixa tiragem é um tiro no pé, restringindo o público e impossibilitando outros mercados. Se o objetivo é uma série adulta de quadrinhos de ficção, por que não aumentar a tiragem e colocar o produto em livrarias? Além disso, a distribuição restrita (um dos motivos para a baixa tiragem) sai muito mais barata que uma distribuição normal e isso deveria se refletir no preço da revista. Já o papel, sem dúvida melhor que o das revistas comuns, acaba se tornando um duplo problema, ao tornar a revista mais cara e atrapalhar a qualidade da leitura, pois em várias páginas uma ou mais cores estão tremidas ou desalinhadas com as demais. Erro da parte gráfica, certamente, mas deixa uma questão: se a gráfica e/ou a técnica de impressão escolhida não eram adequadas para trabalhar com esse tipo de papel, então por que não mudaram o papel? Mais uma vez, um equívoco editorial faz o leitor sair prejudicado.
Passando para o conteúdo, chegamos ao mérito da revista. Warren Ellis, autor da excelente série Planetary, constrói uma bela história fechada, apesar de apresentar vários elementos que serão importantes para as edições seguintes. A tradução foi bem feita e não encontrei nenhum erro de português nos balões ou recordatórios. Já nos textos complementares...
Você abre a revista e começa a ler a primeira frase do editorial. "Há bilhões de anos um cataclismo varreu da terra os dinossauros que, até então, reinavam absolutos no planeta". Bilhões? BILHÕES?? Mas os dinossauros desapareceram há cerca de 65 milhões de anos! Há bilhões de anos nem existiam dinossauros. A vida na Terra tem cerca de um bilhão de anos. Mesmo o planeta tem poucos bilhões de anos de idade. A primeira frase do editorial da primeira edição de uma publicação voltada para um público minimamente letrado deve ser mais cuidadosa. Mesmo que não tenha sido um erro de conceito, mas de revisão (o que espero ser o caso), é um erro de pelo menos 900 milhões de anos.
No texto final a falha é ainda pior. Num texto de autoria do editor, fala-se em pesquisas científicas e fatos (reais ou não) relacionados ao teletransporte. O texto é muito bem escrito, exceto por um grave erro conceitual, na passagem que diz "Para alguns estudiosos, esses casos são a manifestação de um sentido que vai além dos quatro já conhecidos" (grifo meu). Vamos contar? Visão, audição, olfato, tato e paladar. São cinco, se não me engano. Existem pessoas que não possuem todos os cinco sentidos, mas todos eles são conhecidos há muito (muito!) tempo. Para provar que o erro não ocorreu por mera distração, o "olho" do texto apresenta a mesma passagem, com o mesmo erro.
Resumindo, uma ótima história em uma edição ruim, cara e com erros difíceis de engolir. Resultado: essa é uma revista que não voltarei a comprar. E quero ver se alguém vai dizer que agora a culpa também é do leitor.

"Moço, onde estão os quadrinhos?"

Algumas das pessoas que passaram aqui nessa porcaria recentemente me conheceram por causa de uma das coisas que mais me interessam: quadrinhos. Essas pessoas provavelmente se perguntaram por que não se fala muito em quadrinhos por aqui.
Inicialmente, era por causa do projeto Cultura Interativa, site pro qual escrevia diversos textos, inclusive uma coluna sobre quadrinhos. Então, resolvi deixar as idéias sobre os quadrinhos lá e sobre todo o resto aqui.
O que mudou? Principalmente, o fato da página estar fora do ar. Mas tem mais coisa. Estamos preparando a volta do Cultura Interativa e a minha função dentro do site sofrerá alterações. Além disso, muita coisa não tem o perfil para entrar na coluna e outras são idéias datadas, que só valem para uma semana ou mesmo um dia específico. Por fim, são muitas as pequenas idéias que se perdem, mas que dariam um pequeno post. O resultado disso tudo é que vou falar um pouco mais sobre quadrinhos aqui. Vamos ver no que dá.

8.3.04

E os outros 365?

Como o último texto foi a respeito das mulheres, continuo no assunto. Hoje é o "Dia Internacional da Mulher". Os engraçadinhos dizem que não tem problema, "pois os outros 364 dias são nossos". Como estamos em ano bissexto, seriam 365. E onde está o problema? Nas palavras. As palavras mudam tudo. A piadinha machista reflete a realidade. Como esta não é uma data comercial (como Dia das Mães, Dia dos Namorados, etc.), ela deveria ser levada a sério. Acho que isso não acontece, entre outras coisas, por causa do nome da data.
O Dia da Consciência Negra, por exemplo, é um dia específico para a sociedade (brancos, negros e verdes com bolinhas roxas) pensar a posição (ocupada e a ocupar) do negro na sociedade e os problemas que o povo negro enfrenta em um país extremamente racista. Isso não significa que tais pensamentos não devam ser exercitados ao longo do ano, mas a existência de um dia específico para isso traz a discussão para o centro das atenções, principalmente na imprensa.
O Dia da Mulher geralmente é marcado por odes à figura feminina, homenagens e gestos simbólicos. Mas a troca de idéias sobre a posição da mulher na sociedade continua restrita a guetos, sejam eles acadêmicos ou informais. Seria menos prejudicial e mais vantajoso criar algo como o "Dia da Consciência Feminina", quando todos (homens, mulheres e seres indefinidos) reconheceriam o valor (óbvio!) da mulher para a sociedade que (ainda!) a oprime e discutiriam o que pode ser feito mudar esse quadro.
É certo que nem todos participariam de eventos desse tipo (assim como tem muita gente que ignora o Dia da Consciência Negra), mas já serviria para mobilizar parte da sociedade, principalmente através dos meios de comunicação. No mínimo, mudaria a situação atual, na qual o dia de hoje serve para endeusar as mulheres, que são destratadas no resto do ano.
É algo parecido com o Carnaval, onde uma sociedade comportada e conservadora se permite uma liberdade ritualística das regras. Findo o carnaval, volta-se à vida ordinária. Compensa? Só se for como medida de controle. No caso das mulheres, rosas e poesias hoje compensam menores salários e assédio sexual no resto do ano.
Falta equilíbrio. Nem tanto patéticas demonstrações de admiração, nem tanto desprezo e abuso. Discretamente, sem levantar bandeiras e gritar palavras de ordem, aqueles que realmente amam as mulheres (sejam uma, várias, todas ou simplesmente o conceito da mulher) dedicam a elas todos os dias do ano, inclusive hoje.