23.2.04

Só um assobio

Nunca gostei de assobiar. E nunca soube por quê. Não gosto de assobios em geral. Não me incomoda a visão meio patética de ver as pessoas fazendo biquinho e soprando forte ou mesmo aqueles que colocam os dedos (sujos?) na boca para o assobio sair mais alto. O que incomoda mesmo é o som do assobio. Meu amigo Jorginho assobia muito bem (e alto!). Quando ele quer me irritar, começa a assobiar pra mim. Ele diz que numa vida passada eu devo ter sido um cão treinado e agora tenho raiva dos assobios. Mas não era raiva o que eu sentia quando ouvia o som. Era algo estranho, uma certa angústia... Até que um dia eu descobri. Férias do meu pai e meu avô veio nos visitar. Desde muito pequeno, quando eu estava junto com os dois, nós sempre caíamos numa conversa em que compartilhávamos histórias de cada geração. Seu Walter, claro, é quem tinha mais histórias a contar, e sempre as mais interessantes. Meu pai diz que o passado é mais romântico. Acho que o vovô é que sabe contar muito bem. Ele sabe o que a platéia quer. Muitas das histórias eu já tinha decorado, mas ouvi-lo contando era sempre muito agradável. Naquele dia, ele contou uma história triste da qual eu não me lembrava, mas que já havia escutado na minha infância. Ela falava da época da guerra, 'a maior de todas as guerras', e sobre o medo que cercava a todos. A cidade era bombardeada o tempo todo. Dia ou noite, sol ou chuva, as únicas constantes eram as explosões e os incêndios. No meio daquela cacofonia de gritos, choros e sirenes, um barulho nos aterrorizava e congelava nossas espinhas. Não era o som dos aviões. Apesar de ensurdecedor, o barulho dos aviões era constante e tanto o nosso lado quanto o deles voava sem nos ameaçar a maior parte do tempo. O terror vinha do som suave do assobio. Soava para nós como o girar do tambor da roleta russa. Quando começava, baixo e distante, todos procurávamos nos proteger. Se ficava mais alto e próximo, também aumentava o nosso temor. Os assobios eram o canto das bombas que choviam sobre nós. Quando ele cessava, levando muitas vidas consigo, a explosão era de alívio e dor. Era a felicidade por estar vivo e a culpa por ter sobrevivido. A morte havia assobiado em outra porta mais uma vez. O terror passara, pelo menos até o assobio seguinte.

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