23.2.04

Fichas cadentes

Sempre me impressiono com o poder da comunicação e da linguagem. Um exemplo disso é que uma definição muitas vezes sobrevive ao próprio objeto que define. Um exemplo recente é a expressão "cair a ficha". Alguns dos mais novos podem nem ter usado a ficha telefônica e só devem conhecê-la através dos filmes. Pois ao contrário dos dias de hoje, em que uma coisa funciona ou está quebrada, a ficha telefônica era colocada no orelhão, mas algumas vezes não caía. Não é que ela estivesse com defeito, é só que... não caía. Geralmente uns tapinhas na lateral (tapinha, não vandalismo, por favor) resolviam a parada e finalmente a ficha caía, dando início ao telefonema. Daí o "demorou pra cair a ficha" ser ligado a um processo de compreensão tardia. Não consigo imaginar a expressão "cair o cartão" fazendo o mesmo sentido. Talvez sejam as conseqüências do progresso: ganha a tecnologia, perde a linguagem. Cheguei até a pensar que a expressão iria desaparecer, mas depois percebi que existem outras expressões que evocam processos já obsoletos. As mais populares são "colocar a carroça na frente dos bois" e "pegar o bonde andando", expressões insubstituíveis por equivalentes mais avançados e que certamente continuarão durante muito tempo na língua corrente. Ou será que alguém pretende "pegar o metrô andando"?

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