27.2.04

As partes de um todo

Recebi, por e-mail, a seguinte frase, atribuída a Maria Rita Kehl: "Se os homens afirmam que vêm na mulher antes de mais nada belos contornos, considero isso como um empobrecimento de sua capacidade de olhar e ver. Estou convencida de que nosso olhar sabe encontrar no homem sinais do que ele é, além dos contornos de sua musculatura."
Minha opinião: se o antes de mais nada quis dizer somente, concordo com ela. Agora, se o antes de mais nada quis dizer primeiramente, então discordo pra cacete. Entre as infinitas características que tornam a mulher diferente do homem (e melhor que ele), estão também os belos contornos. Se, utilizando o sentido da visão (vale lembrar que a visão é o sentido que capta estímulos a maiores distâncias, por isso é o primeiro que age sobre o mundo, antes dos outros), o homem capta os belos contornos, estimulando nele a vontade de interagir com aquele ser diferente e especial através de seus outros sentidos e da linguagem (a capacidade genuinamente humana), então aquelas formas e curvas que chamaram a sua atenção serviram para valorizar aquele ser, não o contrário. Separar e valorizar só o "corpo da mulher" (machismo) ou a "mente da mulher" (feminismo) é desvalorizar toda a mulher, que vale mais do que a soma de suas partes. Esse feminismo é um machismo às avessas e não ajuda em nada a melhorar a relação entre os gêneros. Como disse Grégório de Mattos: O todo sem a parte não é todo.

23.2.04

Fichas cadentes

Sempre me impressiono com o poder da comunicação e da linguagem. Um exemplo disso é que uma definição muitas vezes sobrevive ao próprio objeto que define. Um exemplo recente é a expressão "cair a ficha". Alguns dos mais novos podem nem ter usado a ficha telefônica e só devem conhecê-la através dos filmes. Pois ao contrário dos dias de hoje, em que uma coisa funciona ou está quebrada, a ficha telefônica era colocada no orelhão, mas algumas vezes não caía. Não é que ela estivesse com defeito, é só que... não caía. Geralmente uns tapinhas na lateral (tapinha, não vandalismo, por favor) resolviam a parada e finalmente a ficha caía, dando início ao telefonema. Daí o "demorou pra cair a ficha" ser ligado a um processo de compreensão tardia. Não consigo imaginar a expressão "cair o cartão" fazendo o mesmo sentido. Talvez sejam as conseqüências do progresso: ganha a tecnologia, perde a linguagem. Cheguei até a pensar que a expressão iria desaparecer, mas depois percebi que existem outras expressões que evocam processos já obsoletos. As mais populares são "colocar a carroça na frente dos bois" e "pegar o bonde andando", expressões insubstituíveis por equivalentes mais avançados e que certamente continuarão durante muito tempo na língua corrente. Ou será que alguém pretende "pegar o metrô andando"?

Só um assobio

Nunca gostei de assobiar. E nunca soube por quê. Não gosto de assobios em geral. Não me incomoda a visão meio patética de ver as pessoas fazendo biquinho e soprando forte ou mesmo aqueles que colocam os dedos (sujos?) na boca para o assobio sair mais alto. O que incomoda mesmo é o som do assobio. Meu amigo Jorginho assobia muito bem (e alto!). Quando ele quer me irritar, começa a assobiar pra mim. Ele diz que numa vida passada eu devo ter sido um cão treinado e agora tenho raiva dos assobios. Mas não era raiva o que eu sentia quando ouvia o som. Era algo estranho, uma certa angústia... Até que um dia eu descobri. Férias do meu pai e meu avô veio nos visitar. Desde muito pequeno, quando eu estava junto com os dois, nós sempre caíamos numa conversa em que compartilhávamos histórias de cada geração. Seu Walter, claro, é quem tinha mais histórias a contar, e sempre as mais interessantes. Meu pai diz que o passado é mais romântico. Acho que o vovô é que sabe contar muito bem. Ele sabe o que a platéia quer. Muitas das histórias eu já tinha decorado, mas ouvi-lo contando era sempre muito agradável. Naquele dia, ele contou uma história triste da qual eu não me lembrava, mas que já havia escutado na minha infância. Ela falava da época da guerra, 'a maior de todas as guerras', e sobre o medo que cercava a todos. A cidade era bombardeada o tempo todo. Dia ou noite, sol ou chuva, as únicas constantes eram as explosões e os incêndios. No meio daquela cacofonia de gritos, choros e sirenes, um barulho nos aterrorizava e congelava nossas espinhas. Não era o som dos aviões. Apesar de ensurdecedor, o barulho dos aviões era constante e tanto o nosso lado quanto o deles voava sem nos ameaçar a maior parte do tempo. O terror vinha do som suave do assobio. Soava para nós como o girar do tambor da roleta russa. Quando começava, baixo e distante, todos procurávamos nos proteger. Se ficava mais alto e próximo, também aumentava o nosso temor. Os assobios eram o canto das bombas que choviam sobre nós. Quando ele cessava, levando muitas vidas consigo, a explosão era de alívio e dor. Era a felicidade por estar vivo e a culpa por ter sobrevivido. A morte havia assobiado em outra porta mais uma vez. O terror passara, pelo menos até o assobio seguinte.