7.4.03

O Homem de Gelo

Quando falei da invisibilidade e da normalidade dos homens, não estava dizendo que nenhuma dessas características seja boa ou má. Isso varia de pessoa pra pessoa e de situação pra situação. As pessoas invisíveis geralmente são tristes, mas quando perguntamos que superpoder uma pessoa gostaria de ter, a invisibilidade costuma ser a segunda resposta mais ouvida.
Isso porque nesse caso "ficar invisível" é voluntário e sempre pressupõe um retorno à visibilidade. Talvez aí resida a mágoa das pessoas invisíveis: elas não são invisíveis porque querem. No meu caso ser invisível é legal porque é (parcialmente) voluntário e, até certo ponto, reversível. Mesmo assim é chato quando alguém esbarra num cara gordo com 1,80 m e diz com sinceridade que esbarrou porque não me viu.
A exceção fica para aquele cara que é intencionalmente invisível e sofre com isso. As pessoas vivem tentando alcançá-lo, só que ele insiste em permanecer à parte, nas sombras, auto-induzido à invisibilidade; um homem com o coração de gelo. Até que as pessoas desistem desse homem gelado e partem para companhias mais calorosas. E o Homem de Gelo fica sofrendo com a solidão, mas em seu íntimo uma pequena voz comemora a derrota: "eu já sabia, eu já sabia".

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