19.10.02

Maratona de cinema

Tenho uma relação de amor e ódio com o Festival do Rio de cinema. Se, por um lado, é a oportunidade de ver no cinema filmes que jamais vão entrar no circuito comercial (no máximo em locadoras), por outro, também é a época do ano em que gasto mais grana de uma só vez e sei que vou ter que aturar milhares de aborrecimentos em cada um dos filmes. No fim, saldo positivo. Influenciado pela minha ex-quase-futura respectiva seguem agora as cotações dos filmes, pela ordem em que assisti.

As cotações:
- Lixo: aquele que faz você pensar que gastou dinheiro à toa.
- Meia-boca: ou tedioso ou sonolento. Não diz a que veio.
- Não fede nem cheira: é bom, se você quiser ir pro cinema sem compromisso.
- Recomendado: aquele que você marca um dia pra ver.
- Altamente recomendado: é o bicho. Não morra sem ver um filme desses.

Os filmes:
- O Reencontro: Uma (boa) comédia romântica que poderia passar em qualquer Cinemark da vida. Não fede nem cheira.
- Prêmio Nobel: um daqueles filmes em que a viagem é mais importante que o destino. Não fede nem cheira.
- O Voto é Secreto: a premissa é interessante, mas tirando algumas boas sacadas o filme é chato paca. Está no circuito do Estação. Meia-boca.
- O Miado do Gato: vale o comentário anterior, mas é um pouco mais divertido. Deve entrar no circuito mais pra frente. Não fede nem cheira.
- Utena, a Guerreira: uma animação japonesa muito legal, uma das melhores surpresas desse festival. Altamente recomendado.
- Full Frontal: filme novo do Steven Soderbergh. Um filme dentro dum filme dentro dum filme. Recomendado.
- Ainda Estou Viva: a conturbada vida de uma jovem francesa depois de ser estuprada. Emocionante em alguns momentos. Recomendado.
- Cuide das Minhas Coisas: amigas de infância encarando os problemas do início da vida adulta. Ainda não entendi direito qual era a do gato. Meia-boca.
- Dois Perdidos numa Noite Suja: porque também é necessário ver o bom cinema nacional. E esse é foda. Altamente recomendado.
- Ali: cinemão hollywoodiano. Will Smith prova que é um grande ator, além de excelente comediante. Mas o filme é grande paca. Recomendado.
- Cinemania: um documentário sobre cinco cinéfilos de Nova York que gastam boa parte de seu tempo assistindo filmes. Eles são o extremo onde nenhum fã de cinema quer chegar. Diversão e reflexão. Não fede nem cheira.
- Separações: um filme de/para a burguesia da Zona Sul carioca. Pior é ver a platéia batendo palma no final. Lixo.
- A Viagem de Chihiro: também conhecido como "Spirited Away". Animação japonesa de primeira qualidade, tanto na historia quando no visual. Altamente recomendado.
- Irreversível: nome irônico pra um filme que passa de trás pra frente. A história (totalmente entrópica) mostra como o tempo destrói tudo. As cenas são fortes. Não tenho coragem de recomendar pra ninguém. Não fede nem cheira.
- Madame Satã: outro excelente filme nacional. O ator principal (Lázaro Ramos, se não me engano) manda muito bem. Parece que o cinema nacional é feito somente por altos e baixos. Altamente recomendado.
- Meu Primeiro Homem: uma comédia romântica alternativa. Leelee Sobieski gótica. Recomendado.
- Meu Namorado Pumpkin: comédia com Christina Ricci. Outra grande surpresa. O filme é muito divertido. Altamente recomendado.
- 11 de setembro: onze diretores de onze países diferentes fizeram filmes de 11 minutos e 9 segundos tendo por tema o atentado terrorista. Fica sem avaliação por se tratar de 11 filmetes diferentes. Recomendo o do britânico Ken Loach.
- Desmundo: outro nacional, mas com legendas! Explico: o filme é falado em português arcaico. Visual bacana, história nem tanto. Meia-boca.
- O Vagabundo e o Ditador: documentário sobre as gravações do filme "O Grande Ditador". Faz um paralelo entre as trajetórias de Chaplin e Hitler. Engraçado e didático. Diversão garantida. Altamente recomendado.
- The Gathering: a premissa é muito boa, lembrando "O Corpo", com Antonio Banderas. Mas o filme acaba mal-desenvolvido e vira um filme de sustos. Tinha tudo pra ser um "Sexto Sentido" e virou um "Pânico". Meia-boca.
- Metropolis: a versão restaurada do clássico. Segundo o alemão que fez a restauração, essa é a montagem mais próxima da original desde que o filme foi reeditado pela primeira vez. Sem dúvida, uma obra-prima do cinema mundial. Altamente recomendado.
- Amen: filme que mostra o posicionamento da Igreja Católica durante o Holocausto. Falando assim parece chato, mas não é. Recomendado.
- 12 Horas – A Noite Te Chama: histórias de várias pessoas vivendo a noite de uma grande cidade. Diversão sem pretensão. Não fede nem cheira.
- O Túnel: a história da construção do primeiro túnel para a fuga de Berlim Oriental após a construção do muro. Baseado em fatos reais. O filme é grande, mas é muito bom. Recomendado.
- Vidocq: é o nome de um inspetor da polícia francesa à caça de um assassino misterioso conhecido apenas como “O Alquimista”. Vale por ver o gordinho Gérard Depardieu lutando no estilo Matrix. Não fede nem cheira.
- Miranda: mais um com Christina Ricci. Um bibliotecário conhece a mulher dos seus sonhos, mas descobre que ela pode não ser quem ele pensa. Não fede nem cheira.
- Meu Irmão, o Vampiro: comédia estranha sobre uma família estranha. Lembram os Tenenbaums daquele outro filme, mas sem grana e sem os atores hollywoodianos. Não fede nem cheira.
- O romance de Morvern Callar: o romance em questão é um livro, não um relacionamento. O namorado de Morvern se mata e deixa no computador um bilhete suicida e um romance pronto. Mais inusitado que isso, só as atitudes que a garota toma a partir desse fato bizarro. Não fede nem cheira.
- O Instante do Adeus: os últimos dias de Brecht antes de sua morte. O filme mostra a convivência do escritor com sua família e agregados. Parece chato? Pois é mesmo. Lixo.
- O Crime do Padre Amaro: baseado no romance de Eça de Queiroz. A história se passa no interior do México dos dias de hoje. Uma crítica ferrenha à hipocrisia da Igreja Católica e seus sacerdotes. Não fede nem cheira.
É isso aí. Só a minha opinião; nada sério.

Moderno e/ou/versus Pós-moderno?

Uma das grandes diferenças entre quem tem mais de 30 e os que têm menos é que os primeiros representam o auge da sociedade moderna, enquanto nós somos os pós-modernos (ou contemporâneos, ou neobarrocos, tanto faz). Nomenclaturas à parte, isso significa que eles não nos entendem principalmente porque têm valores diferentes dos nossos. Mais do que a mudança de costumes (natural de uma geração pra outra), nós diferimos na visão de mundo e, assim sendo, da maneira como existimos no mundo. Raça, cor, religião, classe social, preferência sexual? Que diferença faz? Nada disso importa. Qual é o seu carro, qual é a sua roupa, qual é a cor do seu cabelo? Tanto faz, não ligo mesmo. O fim do "papel social". Isso é o pós-moderno.
Ao contrário das pessoas modernas que são regidas por padrões, modas e tendências, desde a própria educação até a publicidade, a nossa geração aprendeu a superar o que é recebido, valorizando o próprio. Isso não faz de nós seres diferentes do resto, até porque existem as leis e outras normas que não podem (e não devem!) ser deixadas de lado. Mas o ser contemporâneo valoriza o gosto, a preferência pessoal. E se cerca do que gosta. Essa é a principal (e talvez a única) regra.
Existem, nessa nova concepção dois tipos de pessoas: os interessantes e os filhos da puta. Mais do que "bom" ou "mau", essas classificações são mutáveis e variam de pessoa pra pessoa. É isso o que os modernos não conseguem entender. Eles se escondem atrás da fachada do politicamente correto e continuam reproduzindo seus preconceitos velados. E não pensem que eles estão acabando ou mesmo diminuindo. A maioria dos jovens do Rio (considerada uma cidade vanguardista) apresenta os valores modernos. Pelo menos eles são sinceros, pois a maioria não percebe a repetição dos discursos desgastados da modernidade.
Pior são aqueles que se fazem de revolucionários, mas só estão seguindo a moda. Ah, dado importante: o pós-moderno não rompe com o moderno, visto que é uma evolução, não uma ruptura. Por isso, não liguem para os falsos profetas que clamam por revolução e mudança dos hábitos modernos. Lembrem que revolução é uma idéia tipicamente burguesa. Quem são os falsos profetas? Ah, eles podem até não saber, mas vocês sabem.

18.10.02

Comédia romântica pop brazuca

Um dos últimos livros que li foi "O Clube dos Corações Solitários", de André Takeda. Ele é apontado por muitos como precursor da literatura pop nickhornbyana. Não concordo com isso, mas não é disso que quero falar. É de como esse livro consegue retratar precisamente uma geração, ou uma primeira geração que influenciou a minha e as seguintes (que entram agora na adolescência). A primeira coisa que percebi no livro de Takeda é que todas as características de seus personagens diferem muito das pessoas de minha geração. A começar pelo local, passando pela idade, as músicas e os hábitos. Mas me identifiquei. Por quê? Porque os valores são os mesmos. As dúvidas, os sentimentos, o jeito de enxergar o mundo, as profissões. Mesmo sendo datado e localizado, a história pode ser a de qualquer grupo de jovens de classe média de uma grande cidade, seja do Brasil, seja do mundo. E é aí que está a força do livro. É aí também que se assemelha a Hornby, pois seus personagens são pessoas semelhantes num mundo estranho e confuso. Não é, de maneira alguma, uma literatura universal tradicional, mas o retrato fiel do espírito de uma época. A nossa época.

Momento de esclarecimento

Sei que ninguém lê isso mesmo, mas caso algum pobre coitado tenha tido o azar de ler esse blog, talvez esteja se perguntando por que tenho colocado pedidos de e-mail em quase todas as mensagens. Talvez tenha pensado que estou de sacanagem ou que sou um sujeito carente doido pra receber mensagens de outras pessoas. Nada disso! O real motivo desse exaustivo pedido por e-mails é saber se alguém realmente lê esta porcaria. É um tipo de protesto interno pela baixa audiência do Ex-quase-futuro. Então, até que alguém mande um mail, nem que seja pra dizer "pare de pedir e-mails", continuarei (sempre que possível) pedindo e-mails para o Ex-quase-futuro, que logo poderá mudar de nome para Ex-quase-largado.

Passageiros e Sardinhas

Concordo com quase tudo que o pai-defunto da psicanálise disse, mas tenho observado outro comportamento dos freqüentadores do Metrô carioca. Não sei se por completa ignorância ou por teimosia mesmo, mas eles parecem querer desafiar as leis físicas do Tio Isaac (se você não sabe quem é ele, mande um mail). Mais especificamente, aquela que diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Quando o metrô chega no Estácio, é aquela multidão enlouquecida entrando naquele espaço tão reduzido. Até aí, tudo bem. Todos prensados, todos suados, mas tudo bem. O problema é quando o metrô chega na Central. Mais algumas dezenas de pessoas querendo entrar. E entram. E daí que não tem espaço no vagão? Eu paguei, eu quero entrar. E tome gente disputando espaço onde não existe nenhum. As pessoas se sentem "espertas" por entrar logo no metrô. Como pode alguém se achar inteligente por ficar apertado e sem movimento num veículo altamente claustrofóbico? A sardinha é inteligente por estar na lata? Ser enlatado como uma sardinha é algum tipo de feito a ser alcançado? Estou por fora dessa moda.