1.8.02

Quando estamos todos errados

Não gosto de escrever sobre coisas que acontecem comigo, mas o episódio de hoje foi significativo.
Pouco antes do filme começar, entra na sala um pitboy trazendo como acessório sua patricinha particular, modelo "maria-tatame". Logo no início do filme, eles não param de falar, mesmo sob protestos de alguns. Então começa. Um celular toca. O troglodita atende como se estivesse no meio da rua. Todos no cinema são obrigados a ouvir a sua conversa com o "mano" do outro lado. Muitos protestam. Não se pode ouvir o som do filme. Enfim a conversa acaba. A do celular. O papo com a paty continua.
Entendo namorados que vão pro cinema pra "não ver o filme". Já fiz isso. Podem namorar o quanto quiserem, desde que não incomodem os outros espectadores. Mas eles não fizeram isso. Se eles estivessem beijando, não falariam tanto e tão alto. Mas o filme continua. O celular ataca novamente. Parece brincadeira. Agora o marmanjo se levanta pra falar lá fora, mas volta com a ligação ainda rolando.
Talvez o problema fosse o filme. Quando o casal soube que era uma comédia, talvez esperasse um filme que mostra pênis, bundas e sexo. Mas o humor inglês não se permite essas "facilidades" e, pra infelicidade de alguns, investe na comédia de diálogos.
A ligação termina, a conversa continua. Um casal na frente reclama. Tudo o que o troglodita queria. O troglodita se levanta. O homem sensato (porém irado) também. O troglodita quer briga. Em sua ira, o homem sensato perde a sensatez e segue em frente. O troglodita saliva e mostra os dentes. Que filme que nada, agora entramos no território da bestialidade. O território do selvagem. Ele ataca. Ambos se atracam. As namoradas tentam, em vão, separar homens que esqueceram sua humanidade. Também tento, mas reconheço que está além das minhas capacidades. O cinema grita. Olho pra entrada, procurando o segurança que alguma das jovens ou das senhoras deveria ter chamado. Não tem ninguém lá. Jovens e velhas gritando em suas cadeiras. Ninguém se levanta. Corro lá fora, chamo dois seguranças. Eles não ligam. "BRIGA". Eles correm pra sala. As luzes acendem. Animais se separam. Um deles volta a ser homem. Quatro a menos na sala.
Velhas e meninas. Todas ainda sentadas, reclamando. Nessa hora, percebi: somos todos culpados. O troglodita, claro, o mais culpado de todos. Desrespeito ao próximo. Violência gratuita. Socar é melhor que beijar. A paty. Valoriza alguém que não a valoriza. Permanece ao lado de um ser que certamente já brigou outras vezes por motivos fúteis. Enfim, aprova e apoia o comportamento sociopata. O homem (in)sensato. Fez bem em reclamar, mas perdeu a razão em aceitar resolver as coisas na violência. Este que vos escreve. Não consegui antever a briga. Não consegui separar a briga. Demorei a chamar os seguranças. Os próprios seguranças. Todos conversando do lado de fora, longe das salas e das pessoas. Se fosse um incêndio, todos na sala morreriam queimados. Velhotas no cinema. Sua única reação foi gritar e reclamar. Tive que atravessar a sala para chegar na saída, quando qualquer uma perto da porta poderia ter ido chamar a segurança. Enfim, todos nós.
Até você que está lendo. Porque deixamos a violência chegar a esse ponto. Porque jogamos lixo no chão. Avançamos o sinal. Fumamos maconha. Votamos mal. Pequenas atitudes. Pequenas violências. Pequenas violações da cidadania. Violamos as regras que nos permitem viver em sociedade. Estamos todos errados. Somos todos culpados.

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