23.8.02

Publicidade Skolada

Alguns comerciais (ou "anúncios publicitários na TV", se preferir) apresentados nos últimos tempos têm sido simplesmente uma exibição do uso de computação gráfica e outros efeitos. Os comerciais da Brahma se resumem a "de que modo diferente podemos mostrar a tartaruga agora?"
Considero idiotas os publicitários que bolam esse tipo de comercial. Desde que descobriram os efeitos especiais, eles acham que a quantidade de efeitos dá a qualidade do anúncio. Mas o que importa mesmo é como esses efeitos são usados. O efeito deve complementar a idéia, não o contrário.
Um bom exemplo do bom uso dos efeitos é o novo comercial da Skol. Não, não é aquela bobagem de "redondo, redondo". É a seguinte cena:

Cliente: Garçom, traz uma Skol.
Homem do balcão pro garçom: A Skol acabou - e entrega outra cerveja.
No caminho para a mesa, o garçom tira e come os rótulos da garrafa.
Na mesa, o cliente pergunta: Que cerveja é essa?
Garçom: Skol, ué.
Cliente: Cadê o rótulo?
Garçom: Tava molhado, caiu.
Cliente: Então mostra a tampinha.
O garçom tira a tampinha rapidamente e engole também.
Garçom: Que tampinha?
Cliente (já sacando a situação): Então bebe.
O garçom aos prantos: não consigo! Isso eu não consigo!
Entra a vinheta final da Skol.

O comercial é genial porque a idéia é genial, apesar de surreal (o garçom comer rótulo e tampa, mas não conseguir beber a cerveja que não é Skol). E os efeitos são muito bem usados, porque usados só quando necessário (quando o garçom engole em movimentos rápidos o rótulo e a tampinha). Já não via um comercial tão bom da Skol desde aquele do Skol Rock, com os quatro velhinhos cantando o jingle da Skol imitando rock pesado.

Hipérbole imagética

O novo comercial do desodorante Axe: aparece um homem novo. Ele passa Axe pelo corpo. Uma mulher o agarra (é o já famoso "efeito Axe"). Enquanto isso, um pequeno mosquito pica o homem. Um sapo engole o mosquito. O sapo e a sapa transam (efeito Axe). As pernas do sapo são servidas a um velho num restaurante chique. Uma mulher nova agarra o velho (efeito Axe). Ele morre enquanto transa. Um verme come as carnes do cadáver do coroa. O verme vai parar naquelas garrafas de tequila mexicana. Um cara bebe a tequila e atrai mais mulheres. Tudo isso ao som de "Love is in the air". Entra o narrador: "Axe nova fórmula. Agora com efeito prolongado."
Alguém mais além de mim achou isso um pouquinho exagerado?
Entretanto, há de se reconhecer que o comercial é muito divertido e a narrativa é muito bem bolada. É um daqueles casos em que o anúncio é tão absurdo que chega a ser legal.

4.8.02

O pé (quebrado) da letra

Assistindo a um desenho da Disney sábado de manhã, percebi que a versão brasileira de "Silly Symphony" (tipo de animação em que a história é narrada através de música e não de fala) ficou sendo "Sinfonia Tola".
No meu Michaelis, silly quer dizer 'bobo, simplório'. É lógico que tola seja uma das possíveis traduções, mas todos sabemos que tolo tem um sentido pejorativo, equivalendo a 'otário, mané'. Para evitar a ambigüidade, os tradutores contratados pela Disney deveriam buscar outra palavra. Não entendo por que não usaram simplória. Devem ter achado que era uma solução simplória demais. Porém, que seja antes simplório que tolo.
Ironicamente, talvez tenham achado a palavra simplória complicada demais para as crianças. Então por que não optar por uma tradução não-literal? Se o objetivo desses desenhos era ressaltar as músicas fora de um contexto de erudição e seriedade, por que não algo como "Sinfonia Singela"? É um título que ressaltaria o caráter simples e belo desses desenhos e suas canções. E ainda por cima manteria a aliteração original do título em inglês.
O que importa é que para todos os amantes da animação, essas pequenas obras-primas serão sempre "Silly Symphonies". E tolos são os tradutores que fizeram essa lambança.

PS: Criticando tradução de desenho da Disney?! É nisso que dá acordar cedo num sábado...

Curtas

Acabou julho, o mês das férias. O mês do cinema. Caso alguém queira saber, aqui vai uma rápida opinião sobre os filmes das férias. A crítica completa estará em breve no Cultura Interativa. Segue a lista:
- Star Wars - Episódio II: destaque para os personagens não-humanos. Os robôs R2-D2 e C-3PO roubam a cena sempre que aparecem. E jedi grande mestre sem dúvida digital Yoda é.
- Homem-Aranha, o Filme (segunda vez): a melhor adaptação de quadrinhos para o cinema de todos os tempos. Vi de novo pra ver os detalhes, mas novamente me deixei envolver pelo filme.
- O Demônio das 11 Horas: filme francês nas férias?! É sim, pois nem só de pipoca vive o cinema.
- Anima Mundi - Curtas Cinema 4: em minha única passada pelo Anima Mundi, vi sete filmecos excelentes em uma hora.
- As Meninas Superpoderosas: por incrível que pareça, essas heroínas retrô estereotipadas são a idéia mais "anos 2000" do mundo da animação. Ironia, ritmo alucinante, humor e muita, muita cor. Só queria tirar uma dúvida: alguém mais viu Jay e Silent Bob no meio do desenho?
- Homens de Preto 2 (MIB 2): Mr. Smith e Mr. Jones de volta como os agentes mais respeitados da agência MIB. O roteiro e a maior parte das piadas são recauchutadas do primeiro filme. Destaque para o alien canino Frank cantando/latindo "Who Let the Dogs Out?" e para a piada com a Estátua da Liberdade.
- Oito Mulheres: outro filme francês nas férias?! É, mas esse é uma comédia deliciosa estrelada por oito atrizes maravilhosas. Mas não pense que é uma tola comédia hollywoodiana. O filme é francês, MUITO francês.
- Janela da Alma: Esse documentário questiona justamente o conceito da visão e seu papel em nossa compreensão da realidade. Posso dizer sem exageros que esse filme me deu uma outra visão do mundo. Mas não consegui esclarecer uma dúvida: por que um fotógrafo cego precisaria de óculos?
- Resident Evil - O Hóspede Maldito: um sério candidato ao prêmio de "pior subtítulo da história do cinema". Filme fiel ao jogo, inclusive com o lance do traidor entre os membros da equipe. Milla Jovovich salva o filme com suas caras e bocas de mulher fatal.
- Um Grande Garoto: mais um livro de Nick Hornby adaptado para as telonas, mas dessa vez o filme não foi "americanizado" como em "Alta Fidelidade". O filme mantém o jeitão inglês, inclusive na reação das pessoas. E ao contrário do que afirma seu personagem no início do filme, Nicholas Hoult é melhor que Haley Joel Osment.

1.8.02

Quando estamos todos errados

Não gosto de escrever sobre coisas que acontecem comigo, mas o episódio de hoje foi significativo.
Pouco antes do filme começar, entra na sala um pitboy trazendo como acessório sua patricinha particular, modelo "maria-tatame". Logo no início do filme, eles não param de falar, mesmo sob protestos de alguns. Então começa. Um celular toca. O troglodita atende como se estivesse no meio da rua. Todos no cinema são obrigados a ouvir a sua conversa com o "mano" do outro lado. Muitos protestam. Não se pode ouvir o som do filme. Enfim a conversa acaba. A do celular. O papo com a paty continua.
Entendo namorados que vão pro cinema pra "não ver o filme". Já fiz isso. Podem namorar o quanto quiserem, desde que não incomodem os outros espectadores. Mas eles não fizeram isso. Se eles estivessem beijando, não falariam tanto e tão alto. Mas o filme continua. O celular ataca novamente. Parece brincadeira. Agora o marmanjo se levanta pra falar lá fora, mas volta com a ligação ainda rolando.
Talvez o problema fosse o filme. Quando o casal soube que era uma comédia, talvez esperasse um filme que mostra pênis, bundas e sexo. Mas o humor inglês não se permite essas "facilidades" e, pra infelicidade de alguns, investe na comédia de diálogos.
A ligação termina, a conversa continua. Um casal na frente reclama. Tudo o que o troglodita queria. O troglodita se levanta. O homem sensato (porém irado) também. O troglodita quer briga. Em sua ira, o homem sensato perde a sensatez e segue em frente. O troglodita saliva e mostra os dentes. Que filme que nada, agora entramos no território da bestialidade. O território do selvagem. Ele ataca. Ambos se atracam. As namoradas tentam, em vão, separar homens que esqueceram sua humanidade. Também tento, mas reconheço que está além das minhas capacidades. O cinema grita. Olho pra entrada, procurando o segurança que alguma das jovens ou das senhoras deveria ter chamado. Não tem ninguém lá. Jovens e velhas gritando em suas cadeiras. Ninguém se levanta. Corro lá fora, chamo dois seguranças. Eles não ligam. "BRIGA". Eles correm pra sala. As luzes acendem. Animais se separam. Um deles volta a ser homem. Quatro a menos na sala.
Velhas e meninas. Todas ainda sentadas, reclamando. Nessa hora, percebi: somos todos culpados. O troglodita, claro, o mais culpado de todos. Desrespeito ao próximo. Violência gratuita. Socar é melhor que beijar. A paty. Valoriza alguém que não a valoriza. Permanece ao lado de um ser que certamente já brigou outras vezes por motivos fúteis. Enfim, aprova e apoia o comportamento sociopata. O homem (in)sensato. Fez bem em reclamar, mas perdeu a razão em aceitar resolver as coisas na violência. Este que vos escreve. Não consegui antever a briga. Não consegui separar a briga. Demorei a chamar os seguranças. Os próprios seguranças. Todos conversando do lado de fora, longe das salas e das pessoas. Se fosse um incêndio, todos na sala morreriam queimados. Velhotas no cinema. Sua única reação foi gritar e reclamar. Tive que atravessar a sala para chegar na saída, quando qualquer uma perto da porta poderia ter ido chamar a segurança. Enfim, todos nós.
Até você que está lendo. Porque deixamos a violência chegar a esse ponto. Porque jogamos lixo no chão. Avançamos o sinal. Fumamos maconha. Votamos mal. Pequenas atitudes. Pequenas violências. Pequenas violações da cidadania. Violamos as regras que nos permitem viver em sociedade. Estamos todos errados. Somos todos culpados.

Voltando à nossa programação normal...

Depois de um tempo sem novidades, o Ex-quase-futuro está de volta.
Não foi um abandono de verdade, estava apenas nas minhas férias. E, tendo muita leitura pra colocar em dia, não quis escrever muito. Mas agora pretendo voltar a escrever com a regularidade de sempre, ou seja, de vez em quando.
Parafraseando Jô Soares: a qualquer momento ou nunca mais, um novo post do Ex-quase-futuro. Aguarde.