4.6.14

Sobre a necessidade de novos xingamentos

http://www.brobible.com/life/article/jonah-hill-uses-a-gay-slur/

A matéria em si não tem nada de mais, mas a reflexão final é muito interessante. Reproduzo abaixo (grifos meus):

I think it comes down to the fact the we need some new offensive words. It seems that a lot of people who clearly support gay rights, keep getting sucked into the trap of using a gay slur, and it’s because there aren’t that many other options out there. In some cases, homophobic slurs no longer translate into a hatred of gay people, it’s just become a way to express anger with someone. This clearly needs to change. I think Webster’s Dictionary needs to get together and come up with a bunch of new offensive words for all of us to use in the heat of the moment, so that people stop having to fall back on homophobia. It’s called PROGRESS!

Adiciono aqui a necessidade de criar também novos xingamentos não-machistas (ser filho de uma prostituta não diz nada sobre o caráter de uma pessoa) e interjeições não-machistas e não-religiosas.

Neologistas, UNI-vos!

30.9.13

A Capitalista, essa incompreendida

Passei por uma lotérica que tinha o multicurioso nome "A Capitalista".

Achei o nome curioso porque:

1) Capitalista é considerado um palavrão na sociedade atual, um ser de características inumanas e, portanto, não merecedor de qualquer consideração da parte de um cidadão de bem (de forma similar ao que acontecia à palavra "comunista' há algumas décadas). Alguém usar tal ofensa como nome para a sua loja pode soar como algo ultrajante.

2) Apesar de ser um substantivo comum de dois gêneros (ou seja, capitalista pode ser o ou a capitalista, tanto faz), no imaginário popular a palavra é ligada a uma figura masculina muito específica e caricata, o homem rico segurando o saco de dinheiro do Monopoly. Alguém usar tal nomenclatura no feminino pode soar como algo ultrajante.

As duas observações acima, que poderiam facilmente ser confirmadas pelo senso comum, não são realmente impróprias. Mas o que é realmente curioso e contraditório é:

3) Uma lotérica é possivelmente uma das atividades menos capitalistas que alguém poderia imaginar!

Os jogos de apostas e os pagamentos de heranças são as trocas de quantias monetárias menos capitalistas do mundo atual. Elas supõem o recebimento de dinheiro (pelo herdeiro, no caso da herança; pela banca ou pelo jogador, no caso da aposta) por pessoas que não o estão trocando em igual valor por tempo, mão-de-obra ou atividade intelectual.

É, portanto, uma troca sem valor real, sem merecimento, em que as decisões são baseadas na sorte e nos laços sangüíneos, e não na capacidade e no talento.

As lotéricas são templos do engodo em que vivemos, da promessa de riqueza em cada esquina, sem merecimento, sem esforço, em que o acaso ou a providência divida lutarão contra todas as probabilidades para escolher um felizardo que será salvo da miséria coletiva em que todos os outros afundam cada vez mais ao apostar.

Todos nós desiludidos com a vida e iludidos com a esperança continuamos a apostar, talvez como uma última forma de resistência tola antes de desistir completamente.

Mas não a capitalista. Não essa mulher que tem a consciência do valor de suas ações, mesmo que (ainda) não tenha alcançado riqueza material. A capitalista provavelmente se revoltaria contra esse templo que leva o seu nome, tal qual Jesus expulsando os fariseus, e deixaria apenas um único mandamento:

Façam por merecer.

2.7.13

Viver produzindo menos é possível

O telejornal anuncia com tom alarmista que a indústria brasileira produziu menos em maio. Uma queda maior do que esperavam os especialistas, diz o âncora franzindo a testa.

Isso é realmente motivo de preocupação? Que tipo de indústria é essa que causou a queda? Duas das indústrias apontadas são a automobilística e a alimentícia. Sua queda de produção me alegra. Vamos aos motivos.

***

Todo mundo sabe que o Brasil fabrica carro demais. Por um preço alto demais também, mas isso é outra história. Mesmo assim, todo dia tem (muita) gente comprando carro.

Carro hoje em dia pode até ser solução no individual (e talvez nem isso seja mais; vejam os engarrafamentos corriqueiros), mas certamente é um problema no coletivo.

Nosso modelo de trânsito baseado no veículo de passeio atingiu um patamar desesperador, que iniciou as recentes manifestações contra o sucateamento do transporte público e a falta de planejamento do transporte urbano.

Incentivo à produção de carro é algo ultrapassado e nocivo para nossa sociedade.

Mas a indústria automobilística emprega muita gente. Queda de produção liga o alerta amarelo no governo, que fica com medo dos industriais demitirem em massa e despejarem na rua trabalhadores pouco qualificados (por conta do desenvolvimento apenas das habilidades específicas do seu ofício atual), que aumentarão as estatísticas de desemprego.

Então tome incentivo de dinheiro público pra indústria automobilística, e milionária publicidade apelativa criando desejos patologicamente desnecessários, e gente se endividando pra comprar um objeto supérfluo, e dinheiro mudando de mão e mantendo a roda comercial girando, e juros comendo o dinheiro de quem tem pouco só pra encher a barriga de quem já tem muito, e empregados com poucas perspectivas de futuro mantendo seu emprego, e salve o governo que gerou isso tudo!

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Outra produção que caiu foi a da indústria alimentícia.

Vejam bem, não foi a uma queda na produção de alimentos. Foi na indústria alimentícia.

Com a inflação, a mesma grana enche menos o carrinho de supermercado. Como ninguém deixa de comer (pelo menos por opção), a solução é trocar os caros produtos industrializados (o consumidor paga pela praticidade, embalagem moderninha, lucro do fabricante e custeio de toda a cadeia de intermediários) por opções mais baratas (como os ingredientes para preparar o mesmo produto).

Alimento de verdade preparado em casa, não a mercadoria pronta para consumo. Grande afronta.

O especialista explica, também em tom alarmista, que a pessoa deixa de comprar a lasanha pronta para comprar a massa da lasanha para preparo em casa ou, "no pior dos casos"(sic - se não acredita, veja aqui), a farinha para fazer a massa em casa.

Como geralmente o preparo de alimentos inviabiliza porções individuais, fiquei imaginando uma família se reunindo para preparar uma lasanha; pais passando para os filhos a receita que aprenderam com seus avós; o jantar com conversa na mesa ao invés de cada um comer sua porção individual pré-cozida no seu quarto vendo a sua TV.

Ou, num cenário menos emotivo e mais prático, um jovem solteiro que prepara uma travessa de lasanha enquanto ouve o álbum de sua banda favorita no último volume; o preparo demorado será compensado com a refeição duradoura, que será requentada várias vezes e servirá de janta pelos próximos 3 dias; o dinheiro poupado garante umas cervejas no fim de semana.

***

É realmente tão ruim que estejamos produzindo menos carros e alimentos industrializados que desperdiçam tantos recursos naturais e produzem uma situação insustentável e insuportável? Precisamos mesmo dessas coisas?

Ou melhor, precisamos delas o tempo todo? Seu carro atual não pode durar mais uns 2 anos? Seu próximo carro não pode ser um usado com garantia? Você não pode trocar por uma fruta aquela sobremesa cuja embalagem é 5 vezes maior que o conteúdo?

Reflita sobre as informações que chegam até você. Questione. Discorde. Conteste.

Empregos não faltam quando o investimento está no lugar certo. O país precisa muito mais de infra-estrutura que de bens de consumo. Menos automóveis, mais saneamento básico.

Experimente mudar seus hábitos de consumo e você pode até gostar do resultado. Consumo responsável é consumo sustentável. Gastar menos com supérfluos é sobrar mais para viagem e cultura. Viver com menos pode ser divertido.

14.3.13

Acabou a festa gay

A frase acima, proferida por Jair Bolsonaro, é emblemática.

"Acabou a festa gay" prenuncia o início de uma época triste e carrancuda, em que não há espaço para a festa, para a alegria.

A afirmação declara que acabou o breve sonho de igualdade na sociedade brasileira; que iremos retroceder, conforme esperado de um país com grande riqueza e pequena mentalidade.

O fato dessa declaração vir de dentro da tal comissão de Direitos Humanos nos remete imediatamente à Declaração Universal dos Direitos Humanos, cuja mera leitura nos revela essas novas idéias, revolucionárias e polêmicas, que parecem tão inaceitáveis aos parlamentares brasileiros, mesmo que essa "novidade" esteja por aí desde 1948.

É bom lembrar que esses são parlamentares democraticamente eleitos pela nossa população usando o nosso sistema eleitoral. Ou seja, pagamos o preço de nossas escolhas.

Pensem nisso na próxima eleição.

9.12.12

Kindle, a safadeza

Com muito alarde, a Amazon chegou ao Brasil. Alguém que não conhecesse a fama da maior livraria (e vendedora de quinquilharias diversas) do planeta, pensaria que essa tal Amazon é apenas a fabricante do Kindle, pois a pré-venda do e-reader mais famoso do mundo ocupa grande destaque no site brasileiro.

Entre as inúmeras vantagens anunciadas frente a qualquer outra forma de leitura eletrônica, está o tempo de duração da bateria: 4 semanas! Vejam na ilustração abaixo:



Parece ótimo, não? Mas vejam as letras miúdas.

A carga de 4 semanas considera 30 minutos de uso por dia, com o Wi-Fi desligado.

Vamos fazer as contas. 4 semanas são 28 dias. 30 minutos vezes 28 é igual a 14 horas.

Ou seja, o econômico Kindle dura uma hora a mais que outros dispositivos, mas só se o Wi-Fi estiver desligado.

Prefiro comprar um tablet de verdade e poder escolher entre livros, gibis ou filmes no mesmo dispositivo, mesmo que a bateria dele dure uma ou duas horas a menos.